quarta-feira, 11 de março de 2026

O AGENTE SECRETO (2025)


O AGENTE SECRETO (2025) - Uma vida dedicada ao cinema. Desde jovem, Kleber Mendonça Filho amava cinema e alimentou a paixão fazendo filmes. O início, com câmera caseira e roteiros simples, tinha na própria casa o principal cenário. Depois, com roteiros mais elaborados, o centro do Recife se tornou pano de fundo. Dali pra frente foi só evolução. Mas os cenários continuaram sendo usados. O mesmo aconteceu desde os tempos de curta metragem (Vinil Verde) e até os tempos dos longas premiados (O Som ao Redor, Aquarius). Essa trajetória é contada muito bem no ótimo Retratos Fantasmas, documentário onde o próprio Kleber narra a sua paixão por Recife e pelo cinema.

Elementos assim se repetem aqui em O Agente Secreto. Wagner Moura é o principal nome e assume dois papéis, retratados ao longo de 3 períodos diferentes. Ele vive Armando, que assume o nome de Marcelo, para fugir de uma perseguição. O período é delicado, 1977. O Brasil vive a ditadura militar. E depois de um período em São Paulo, ele decide se mudar para o Recife, onde imagina se refugiar.

Na capital do Pernambuco, ele conhece a dona Sebastiana (Tânia Maria), uma senhora muito simpática e carismática que abre o seu casarão para abrigar pessoas juradas de morte e perseguidas políticas, até de fora do país. Lá, ninguém usa o próprio nome e todos vivem se ajudando numa pequena comunidade em paz. 

Armando fica próximo do filho Fernando, menino de uns 5 anos que mora com os avós maternos. E além disso ele arruma um emprego num cartório local onde consegue levar uma vida “normal” e escondido.

Paralelo à essa história, Kleber Mendonça Filho aproveita para mostrar a Recife na década de 70. A reconstrução de época, apesar de obviamente contar com reconstruções por computador, está muito bem feita. Recife é solar, colorida, alegre, apesar do cenário político. Kleber abre um espaço no roteiro para contar a história da “perna cabeluda”, uma lenda recifense que fala de uma perna que percorria as ruas da cidade dando rasteiras e chutes nas pessoas, no meio da noite. É uma crônica publicada no jornal da época, dando origem a lenda que segue viva - e agora imortalizada. É um pequeno trecho de filme de terror dentro do suspense de O Agente Secreto. Ao mesmo tempo retrata de forma sutil como os jornais usavam o espaço, que antes era de informação, para entretenimento, já que falar da situação política era impossível. 

O filme brinca com indas e vindas no tempo com passado, mais passado ainda e presente. E deixa algumas partes da trama sem conclusão, o que não é necessariamente algo ruim. E pincela sobre subtramas, deixando elas abertas à interpretação. 

O roteiro passa a ideia de esquecimento que aqueles tempos de ditadura provocaram nas vítimas. Muitas foram esquecidas e retratadas com frieza como “mais uma”. Mas por trás, há uma pessoa, uma família e muitas outras que foram diretamente e duramente impactadas pela conclusão trágica.

Assim como na maioria dos filmes de Kleber Mendonça Filho, o que vale em O Agente Secreto é a jornada e não somente a conclusão. Vale a viagem pela trama, pelo cenário, pela época e pelas histórias daqueles personagens. Filme aplaudidíssimo em Cannes, onde ganhou melhor filme e melhor diretor, e Wagner Moura já levantou vários prêmios mundo afora. E pode vir muito mais por aí… tanto pro filme quanto pro ator.

Veja abaixo o trailer de O Agente Secreto.


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

SONHOS DE TREM (2025)


SONHOS DE TREM (Train Dreams / 2025) - A trajetória de um homem comum. Esse é o resumo mais simples e direto que se pode fazer de Sonhos de Trem. Um filme que não é uma produção original da Netflix, mas os executivos assistiram, adoraram e rapidamente compraram para o catálogo. 

A história se passa nos Estados Unidos no começo do século XX, por volta de 1915, e conta a história de Robert Grainier (vivido por Joel Edgerton), um lenhador que vive nas montanhas e florestas dos Estados Unidos e leva a vida, assim como muitos homens da região, com trabalhos esporádicos. É convocado de tempos em tempos para derrubar árvores e construindo ferrovias. É o tipo de trabalho de centenas, milhares de homens. E o livro de Denis Johnson, que tem menos de 100 páginas e inspirou o filme, presta uma bela homenagem a esses trabalhadores invisíveis a quem muito se deve a expansão do país. 

A trama acompanha a rotina de Grainier desde jovem quando sobrava força e vitalidade para o trabalho duro. Tímido, Grainier é um homem de poucas palavras, gosta de observar paisagens e pequenos detalhes. É um personagem calado que curte a contemplação e o filme segue exatamente a mesma toada. Ele ouve histórias dos colegas temporários de trabalho, ri de algumas, se encanta com outras e faz pequenas amizades como a com Arn Peeples (William H. Macy), um senhor com uma certa sabedoria e que gosta de contar histórias da sua vida de lenhador. 

No intervalo de um dos seus trabalhos, Grainier dá uma passeada em um pequena cidade e é cumprimentado por Gladys (Felicity Jones) e começam a conversar. Da conversa nasce o amor e depois o casamento meses depois. Constroem um chalé na beira de um rio e em pouco tempo nasce a filha. Grainier se ressente por perder o desenvolvimento da criança ao ficar tanto tempo fora por causa do trabalho.

Sonhos de Trem desenvolve essa narrativa de forma astuta, engenhosa e certeira pelo diretor e roteirista Clint Bentley. A ausência de qualquer trilha sonora em boa parte do filme, ajuda no resultado final. Por isso o longa não cai no sentimentalismo barato, não pesa no melodrama e por isso é tão forte. Bebe muito em trabalhos como A Árvore da Vida e Uma Vida Oculta, dois belos filmes de Terrence Malick

É um grande/pequeno filme com uma fotografia sublime, de se aplaudir de pé. O brasileiro Adolpho Veloso assina o trabalho irretocável. Parece ser possível tocar nos objetos em tela tamanha a sensibilidade da fotografia. O trabalho de Veloso deixa claro que fotografia não é só saber enquadrar uma cena de forma diferente, basta saber usar o melhor do cenário e dar textura à ele. é algo realmente incrível. 

Sonhos de Trem dá um nó na garganta, graças à atuação contida e discreta de Edgerton e a voz de Will Patton que funciona como o narrador da trama. Um filme É uma reflexão sobre a passagem do tempo, como ela é cruel e tira de nós, muito mais do que dá. 

Veja abaixo o trailer de Sonhos de Trem.




domingo, 1 de fevereiro de 2026

PECADORES (2025)



PECADORES (Sinners / 2025) - Tive que assistir 2 vezes. Confesso que, nas duas tive a mesma dificuldade: o ritmo lento na primeira hora do filme, que parece não levar a nada. E quando pega no breu é uma sanguinolência desvairada, com surpresas, reviravoltas, estacas e tudo isso... tudo que se espera de um filme de vampiro. Mas Pecadores, de Ryan Coogler, quer ser mais. Quer discutir pertencimento, herança, apagamento.

Os irmãos gêmeos Smoke e Stack (ambos vividos por Michael B. Jordan) voltam de Chicago cheio de dinheiro e na terra natal tem um plano ambicioso de comprar um celeiro para transformá-lo em um local de celebração da cultura negra, com bebida e muita dança. O problema é que o filme se passa em 1832 no sul dos EUA, lugar marcado pelo racismo, segregação e perseguição aos negros.

Durante um bom tempo da primeira metade do filme, os irmãos vão de carro de ponto a ponto recolhendo pessoas que podem ajudar nessa missão: o tocador de banjo (que é primo deles), o cara fortão que se torna segurança do lugar, o cara que toca gaita na estação, o casal chinês que cuida do mercadinho para servir bebidas e assim vai. Isso toma mais tempo do que deveria e deixa o filme bastante arrastado.

Aos poucos vai pegando no breu e engata, principalmente à partir do ponto em que vampiros aparecem para tomar aquela região como sendo deles, atacando o maior número de pessoas possível naquela área. Até que chegam ao celeiro, que naquela hora já está em festa com música e dança rolando na madrugada. Não fazer uma relação com Um Drinque no Inferno aqui é impossível, mas no filme dirigido por Robert Rodriguez e escrito por Tarantino, não parece haver subtexto - é tudo sobre vampiros que tendam destruir uma noite numa bodega qualquer afastada de tudo e de todos. E é maravilhoso por sinal...

Em Pecadores não. É a perseguição e tentativa de apagamento, primeiro dos indígenas que eram os "donos" da terra e são tratados como nada em uma ínfima participação no meio filme. Depois dos negros que "ousam" se alegrar e festejar numa região onde tanto já lhes foi tirado. Esse subtexto não é claro, fica escondido nas entrelinhas.

Pecadores se tornou o filme com o maior número de indicações ao Oscar na história, com 16. É festejado, ovacionado e aplaudido por muitas plateias e críticos por aí. Tem a sua importância, é inegável a relevância do texto e do subtexto que traz, do talento de Michael B. Jordan e do Coogler, dos símbolos escondidos e tudo mais. Mas a mim, não pegou. Não é ruim, mas falta muita coisa para se tornar bom. 

Veja abaixo o trailer de Pecadores:  


sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

UMA BATALHA APÓS A OUTRA (2025)


UMA BATALHA APÓS A OUTRA (One Battle After Another / 2025) - Paul Thomas Anderson está de volta em mais um filme quase épico, grandioso, com uma história que mistura drama pessoal, ternura familiar e revolução. E, se tem alguém que pode fazer essa salada dar certo, é ele. 

O filme começa com um prólogo eletrizante, mostrando um grupo de revolucionários agindo contra a polícia que prende e persegue estrangeiros na fronteira dos Estados Unidos com o México. Todo o paralelo com a realidade atual não é coincidência. Esse início é muito enérgico, impactante, bem sonorizado — e tem na personagem Perfidia Beverly Hills (Teyana Taylor) sua grande força motriz. Ela é a grande revolucionária: líder do grupo que tem Bob (Leonardo DiCaprio) como seu principal parceiro. Teyana tem pouco tempo de tela, mas mesmo assim foi bastante reconhecida na temporada de premiações. E com muitos méritos.

Depois do prólogo, o filme avança alguns anos no tempo, acompanhando Bob  como um pai que cria sozinho sua filha adolescente. A partir daí, Uma Batalha Após a Outra torna-se um filme sobre consequências: tudo o que foi feito no passado volta para cobrar seu preço. Bob precisa enfrentar seus demônios, superar o vício em álcool e drogas e buscar uma aproximação com a filha, com quem enfrenta um certo afastamento emocional. 

Sergio (Benício Del Toro) é o professor de caratê dela e por trás desempenha um papel importante na proteção de estrangeiros ilegais. O papel é pequeno, mas importantíssimo pra trama. Ele tem a segurança e a tranquilidade que falta à Bob na lida com os agentes da imigração. Del Toro é seguro, engraçado e domina as cenas onde aparece. 

Na outra ponta dessa história, está Steven Lockjaw, vivido por Sean Penn. É um militar de carreira, um coronel de alta patente, que impõe terror no jeito de falar, no jeito de andar e no olhar. E, por conta de algumas situações no passado, ele busca Bob por todos os lados para limpar a própria barra. E Penn nasceu para esse tipo de papel e, mais uma vez, está excelente. Talento do texto de Paul Thomas Anderson - que escreveu e dirigiu o longa, e da interpretação magnífica de Sean Penn

Uma Batalha Após a Outra é inspirado num livro de Thomas Pynchon, o mesmo autor de O Vício Inerente, e como disse, dialoga demais com a atual situação no território estadunidense, onde imigrantes (ilegais ou não) estão por todos os lados, desempenhando diversos papeis de muita importância na sociedade. É um épico atual, que cutuca, incomoda, não para por 1 segundo e que definitivamente não faz feio na filmografia absurda do diretor, que já entregou Boogie Nights, Sangue Negro, Magnólia e Licorice Pizza entre outros.