sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

SONHOS DE TREM (2025)


SONHOS DE TREM (Train Dreams / 2025) - A trajetória de um homem comum. Esse é o resumo mais simples e direto que se pode fazer de Sonhos de Trem. Um filme que não é uma produção original da Netflix, mas os executivos assistiram, adoraram e rapidamente compraram para o catálogo. 

A história se passa nos Estados Unidos no começo do século XX, por volta de 1915, e conta a história de Robert Grainier (vivido por Joel Edgerton), um lenhador que vive nas montanhas e florestas dos Estados Unidos e leva a vida, assim como muitos homens da região, com trabalhos esporádicos. É convocado de tempos em tempos para derrubar árvores e construindo ferrovias. É o tipo de trabalho de centenas, milhares de homens. E o livro de Denis Johnson, que tem menos de 100 páginas e inspirou o filme, presta uma bela homenagem a esses trabalhadores invisíveis a quem muito se deve a expansão do país. 

A trama acompanha a rotina de Grainier desde jovem quando sobrava força e vitalidade para o trabalho duro. Tímido, Grainier é um homem de poucas palavras, gosta de observar paisagens e pequenos detalhes. É um personagem calado que curte a contemplação e o filme segue exatamente a mesma toada. Ele ouve histórias dos colegas temporários de trabalho, ri de algumas, se encanta com outras e faz pequenas amizades como a com Arn Peeples (William H. Macy), um senhor com uma certa sabedoria e que gosta de contar histórias da sua vida de lenhador. 

No intervalo de um dos seus trabalhos, Grainier dá uma passeada em um pequena cidade e é cumprimentado por Gladys (Felicity Jones) e começam a conversar. Da conversa nasce o amor e depois o casamento meses depois. Constroem um chalé na beira de um rio e em pouco tempo nasce a filha. Grainier se ressente por perder o desenvolvimento da criança ao ficar tanto tempo fora por causa do trabalho.

Sonhos de Trem desenvolve essa narrativa de forma astuta, engenhosa e certeira pelo diretor e roteirista Clint Bentley. A ausência de qualquer trilha sonora em boa parte do filme, ajuda no resultado final. Por isso o longa não cai no sentimentalismo barato, não pesa no melodrama e por isso é tão forte. Bebe muito em trabalhos como A Árvore da Vida e Uma Vida Oculta, dois belos filmes de Terrence Malick

É um grande/pequeno filme com uma fotografia sublime, de se aplaudir de pé. O brasileiro Adolpho Veloso assina o trabalho irretocável. Parece ser possível tocar nos objetos em tela tamanha a sensibilidade da fotografia. O trabalho de Veloso deixa claro que fotografia não é só saber enquadrar uma cena de forma diferente, basta saber usar o melhor do cenário e dar textura à ele. é algo realmente incrível. 

Sonhos de Trem dá um nó na garganta, graças à atuação contida e discreta de Edgerton e a voz de Will Patton que funciona como o narrador da trama. Um filme É uma reflexão sobre a passagem do tempo, como ela é cruel e tira de nós, muito mais do que dá. 

Veja abaixo o trailer de Sonhos de Trem.




domingo, 1 de fevereiro de 2026

PECADORES (2025)



PECADORES (Sinners / 2025) - Tive que assistir 2 vezes. Confesso que, nas duas tive a mesma dificuldade: o ritmo lento na primeira hora do filme, que parece não levar a nada. E quando pega no breu é uma sanguinolência desvairada, com surpresas, reviravoltas, estacas e tudo isso... tudo que se espera de um filme de vampiro. Mas Pecadores, de Ryan Coogler, quer ser mais. Quer discutir pertencimento, herança, apagamento.

Os irmãos gêmeos Smoke e Stack (ambos vividos por Michael B. Jordan) voltam de Chicago cheio de dinheiro e na terra natal tem um plano ambicioso de comprar um celeiro para transformá-lo em um local de celebração da cultura negra, com bebida e muita dança. O problema é que o filme se passa em 1832 no sul dos EUA, lugar marcado pelo racismo, segregação e perseguição aos negros.

Durante um bom tempo da primeira metade do filme, os irmãos vão de carro de ponto a ponto recolhendo pessoas que podem ajudar nessa missão: o tocador de banjo (que é primo deles), o cara fortão que se torna segurança do lugar, o cara que toca gaita na estação, o casal chinês que cuida do mercadinho para servir bebidas e assim vai. Isso toma mais tempo do que deveria e deixa o filme bastante arrastado.

Aos poucos vai pegando no breu e engata, principalmente à partir do ponto em que vampiros aparecem para tomar aquela região como sendo deles, atacando o maior número de pessoas possível naquela área. Até que chegam ao celeiro, que naquela hora já está em festa com música e dança rolando na madrugada. Não fazer uma relação com Um Drinque no Inferno aqui é impossível, mas no filme dirigido por Robert Rodriguez e escrito por Tarantino, não parece haver subtexto - é tudo sobre vampiros que tendam destruir uma noite numa bodega qualquer afastada de tudo e de todos. E é maravilhoso por sinal...

Em Pecadores não. É a perseguição e tentativa de apagamento, primeiro dos indígenas que eram os "donos" da terra e são tratados como nada em uma ínfima participação no meio filme. Depois dos negros que "ousam" se alegrar e festejar numa região onde tanto já lhes foi tirado. Esse subtexto não é claro, fica escondido nas entrelinhas.

Pecadores se tornou o filme com o maior número de indicações ao Oscar na história, com 16. É festejado, ovacionado e aplaudido por muitas plateias e críticos por aí. Tem a sua importância, é inegável a relevância do texto e do subtexto que traz, do talento de Michael B. Jordan e do Coogler, dos símbolos escondidos e tudo mais. Mas a mim, não pegou. Não é ruim, mas falta muita coisa para se tornar bom. 

Veja abaixo o trailer de Pecadores: