segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013



2 COELHOS (2012) - Afonso Poyart. Quem é esse cara? Estreou no cinema em 2005 com o curta "Eu Te Darei  Céu" que pode ser visto na íntegra no site porta curtas (http://portacurtas.org.br/filme/?name=eu_te_darei_o_ceu). Em 18 minutos, Afonso conta a história de uma solteirona que na noite do seu aniversário recebe das amigas um garoto de programa de presente. Toda história se passa na casa da solteirona e mescla depoimentos dos dois com cenas e um único flashback. No curta, premiado com 4 kikitos, Afonso já faz uso de uma edição nervosa, cheia de cortes e planos mirabolantes com trucagens que compensam o fato do curta possuir apenas 1 cenário e 2 personagens. O curta realmente é muito bom, mérito total dele!

São Paulo como pano de fundo para "2 Coelhos"

O próximo passo de Afonso foi bolar uma história mirabolante envolvendo um rapaz que se envolveu em um acidente de carro ao lado da namorada, o que resultou em dois inocentes mortos. O pai do rapaz é dono de um restaurante e empregou por pena, outro rapaz, que tinha relação com os dois mortos no acidente. A namorada é casada com um promotor público e juntos eles representam um ladrão de alto calibre que está aguardando receber uma grana preta, 2 milhões de dólares, em troca de favores a um importante deputado estadual. Edgar, decide por um fim nisso tudo ao bolar um plano mirabolante ao matar 2 Coelhos com um tiro só, ou seja, o bandidão junto com sua gangue e o deputado corrupto. Parece confuso, e realmente é um pouco. Caco Ciocler e a sempre bela Alessandra Negrini estrelam essa pra lá de rocambolesca história.

Alessandra Negrini, interpreta "Julia"

Em 2 Coelhos tudo é muito videoclíptico, agressivo. O tempo todo. Tem sequências que ficam na cabeça, que marcam pela beleza, como o uso de slow motion, usando na sequência final na explosão de um carro.

Bom uso do slow contribui para a beleza de algumas sequências de 2 Coelhos

Os gráficos que a princípio só irritam e parecem ser exagerados com o tempo se mostram como parte integrante da trama e do estilo do próprio diretor. No começo todos aqueles efeitos gráficos me pareceram desculpas para um roteiro fraco e cheio de furos. Ledo engano. Apesar de alguns furos, bem claros por sinal, o filme se mostra interessante cada vez que se aproxima do clímax. Alguns personagens trocam de lados durante o filme e se mostram até mais importantes para a trama do que pareciam no começo.

Caco Ciocler em papel secundário, mas fundamental para a trama

Heitor Dália, Marcelo Gomes e Selton Mello já se estabeleceram como bons diretores da nova safra do cinema nacional. Fiquemos de olho então em Afonso Poyart, será que ele entra para essa lista? 

domingo, 10 de fevereiro de 2013



PURA ADRENALINA (Or. Bottle Rocket / 1996) - É bom que se saiba logo de cara que Pura Adrenalina é um filme feito para TV, de 1994. Era um curta metragem de 13 minutos que contava as aventuras de três amigos em busca do grande golpe que mudaria para sempre suas vidas. O jovem Wes Anderson gostou tanto da experiência que decidiu fazer daquele curta no seu primeiro longa metragem adicionando novos personagens e elementos para enriquecer a trama. Assim nasceu, 2 anos depois, Pura Adrenalina.

Os irmãos Wilson

Conta a história de Anthony e Dignan (Luke Wilson e Owen Wilson) dois amigos que tentam um grande roubo para conseguir uma grana e mudar de vida. Dignan é o mais focado da dupla, sempre arquiteta cada plano de forma intensa. Anthony sabe que aquilo é errado e só acompanha Dignan por ainda o considerar como grande amigo. Ao lado de Bob, o piloto de fuga que sofre de déficit de atenção, eles alcançam até certo sucesso em roubos pequenos. O grande objetivo de Dignan é surpreender Mr. Henry (James Caan), seu ex-chefe. Entre trapalhadas e roubos, Anthony se apaixona por uma camareira paraguaia que trabalha em um deses hotéis de estrada, o que o deixa ainda mais em dúvida com relação ao seu futuro no plano.

O trio executando o "plano perfeito"

Owen Wilson estreou como ator nesse longa e escreveu a história junto com Anderson, que se orgulha que sua primeira obra tenha sido escolhida por Martin Scorsese como uma das suas favoritas da década de 90. É mole?


Aqui, Anderson ainda não tinha se desenvolvido como cineasta, então há pouco o que se ver dele por aqui., nada de personagens complicados, neuróticos, planos estáticos ou as sequências em slow motion, todas essas suas assinaturas. Pura Adrenalina, na verdade é um filme bem fraco, sem grandes atrativos e com um roteiro até certo ponto primário. Tem uma bandeira da Colômbia no quarto da camareira paraguaia sem qualquer explicação - bizarro! Não vale o balde, muito menos a pipoca. Mesmo se estiver murcha.

O casal ao fundo e Dignan bolando novo plano


O FANTÁSTICO Sr. RAPOSO (Or. Fantastic Mr. Fox / 2009) - Um diretor excêntrico que testa seu talento chamando seus atores-fetiches para participar de um projeto, de certa maneira simples com orçamento reduzido, que resulta em uma obra que pode não ser a mais valiosa da sua carreira, mas leva a sua assinatura em cada frame. Afinal como não dizer que Wes Anderson é um cineasta completo, após a realização de O Fantástico Sr. Raposo, seu primeiro stop motion e seus atores-fetiches citados são os mesmos de quase todos os seus filmes - Jason Schwartzman, Bill Murray, Willem Dafoe, Owen Wilson.

Gangue dos roedores

Baseado em um livro de Roald Dahl, o longa, que concorreu ao Oscar de melhor animação em 2009, gira em torno do Sr. Raposo do título (na voz de George Clooney) como um chefe de família que a todo custo quer dar uma vida melhor aos seus. Dessa forma ele planeja roubar alimentos de algumas fazendas na região por baixo da terra, com ajuda de outros roedores. Ao mesmo tempo ele lida com a protetora esposa (Meryl Streep) e o filho (Jason Schwatzman) que reclama que o pai não lhe dá a devida atenção. Para proteger suas "mercadorias" que a toda hora são roubadas pelo esperta raposo, três fazendeiros empreendem uma busca atrás dos roedores o que acaba por se tornar uma verdadeira guerra entre os humanos e os animais.

Bill Murray "visita" o set

O stop motion segue as excêntricas característica de Anderson. Os personagens não são bonitinhos, fofinhos, do tipo "colecionáveis", são até feios e grosseiros na verdade. Andam de forma estranha, nada graciosa. Isso por escolha do próprio Anderson, que queria um efeito mais "real" de stop motion. Por isso, ele captou as cenas em 12 frames por segundo e não 24 frames por segundo, o que daria uma menor fluidez nos movimentos dos personagens e entregaria que se tratam de bonecos e não CGI. 

Wes em ação com os mini-astros

Você sabia dessa? Coisas que só surgem da cabeça de um cineasta meticuloso como Wes Anderson. O Fantástico Sr. Raposo está longe das suas melhores obras - na minha opinião Moonrise Kingdom, A Vida Marinha com Steve Zissou e Viagem a Darjeeling, pela ordem - mas cumpre bem o seu papel. Diverte e entretém, afinal cinema é isso também.


GRAND HOTEL (Or. Four Rooms) - Filmes episódicos são difíceis para mim, admito. Não consigo ver graça. Em quase todos os casos as histórias, quando conduzidas por diretores diferentes, apresentam um abismo entre si, sem conexão entre elas ou uma conexão muito fraca ficando impossível até mesmo ver o todo como se fosse um único filme. Assistir um filme episódico é como andar de montanha russa, muito instável. Em uma mesma obra, pode ter curtas incríveis que você pensa "mas já acabou?!" e tem os outros que você não vê a hora de terminar de tão ruim que são.

Tim Roth, o fio condutor de Grand Hotel

Grand Hotel é um filme com quatro episódios tendo como único link entre eles o papel de Tim Roth (exagerado, como que saído do teatro clown) que trabalha como mensageiro. O filme se passa na noite de réveillon e o primeiro episódio, "The Missing Ingredient", escrito e dirigido por Allison Anders, conta a história de umas garotas que se reúnem no quarto do hotel e decidem dar vida à uma deusa através de uma poção mágica com ingredientes exóticos como sêmen de um virgem, lágrimas e esse tipo de coisa. Madonna é a mais famosa das atrizes deste curta e Tim Roth é, digamos, "convidado" a doar seu sêmen para que a experiência das meninas funcione. É fraco e bobo. Não tem graça e dá para se esquecer dele rapidinho.

"The Missing Ingredient"

Na sequência Alexandre Rockwell dirige "The Wrong Man", que já possui uma abordagem bem mais interessante. Tim Roth atende a um chamado em um quarto e assim que entra é surpreendido por um homem embriagado segurando uma arma acusando-o de ter transado com a sua esposa, que está ali sentada e amordaçada. Entre acusações e ameaças, acaba se descobrindo que tudo não passa de uma armação do marido que gosta de se "fantasiar" de marido traído. Interessante perceber como Rockwell faz bem o uso dos diálogos e planos para sustentar um curta em um único set. 

"The Wrong Man"

"The Misbehavers" é de longe o mais divertido de todo Grand Hotel. Escrito e dirigido por Robert Rodriguez este curta apresenta Antonio Banderas e sua esposa se arrumando para a festa de réveillon, o seu casal de filhos de 6 e 9 anos já estão prontos à espera, mas não querem ir a tal festa. Banderas então convoca Roth pagando-o para que atue como baby-sitter dos seus filhos, aparecendo no quarto a cada hora para ver se precisam de algo. O menino então se empolga ao ver Salma Hayek dançando na TV com o mesmo biquíni que usou em Um Drink no Inferno, a irmã dá umas bebericadas no champanhe que está no quarto e o menino também dá umas tragadas no cigarro do pai. Tudo na inocência, na descoberta. E isso faz deste curta tão engraçado, revelando uma veia forte que Rodriguez levou para seus outros filmes o humor, a criatividade e a boa escolha dos atores, tanto os mirins quanto Banderas, com um bigode canastrão. Aliás Banderas e Rodriguez tinham acabado de filmar A Balada do Pistoleiro na semana anterior à captação de Grand Hotel.

"The Misbehavers"

Quentin Tarantino encerra Grand Hotel com "The Man From Hollywood". O curta se passa na cobertura do hotel quando Tim Roth é convidado para uma festa de quatro pessoas embriagadas que se envolvem com cinema e representa um pouco o sonho de cada diretor de Grand Hotel naquele momento. Entrar para a indústria cinematográfica, se possível pela porta da frente. Sem falar na famosa cena da aposta, que é hilária!

"The Man From Hollywood"

Marisa Tomei e Bruce Willis ainda fazem uma ponta.

Marisa Tomei, sempre bela

Dois curtas ótimos, um mais ou menos e outro fraco. É o saldo de Grand Hotel, que pelo menos tem na história a passagem de dois cineastas com futuro brilhante no cinema e que já mostravam ali do que seriam capaz.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013


DJANGO LIVRE (Or. Django Unchained) - Não existe definição certa ou errada para qualquer um dos 8 filmes da carreira de Quentin Tarantino. Cães de Aluguel e Pulp Fiction são muito mais do que apenas filmes de máfia. Jackie Brown passa longe de um filme de ação. Não há como dizer que Kill Bill vol. 1 seja apenas um filme de kung fu. E Kill Bill vol. 2, que já tem grandes méritos por ser tão diferente do vol. 1, apesar de ser uma continuação. É impossível de simplificar À Prova de Morte, classificando-o apenas como um filme de suspense. Bastardos Inglórios tem como pano de fundo a Segunda Guerra Mundial, mas vai muito além de um filme de guerra. E é claro, com Django Livre não seria diferente. Se passa em 1858 no Texas e no Mississippi e tem inúmeras referências a Sérgio Leone, por exemplo, mas não dá para dizer que Django Livre é um filme de faroeste. Daí eu concluo, sem medo de errar, que Quentin Tarantino é um cineasta-gênero, que faz algo tão único, tão pessoal, que se sobrepõe a qualquer definição. O cara é um gênio!

o gênio em ação
Django Livre, como disse se passa em 1858 e conta a história do Dr. King Schultz (Christoph Waltz, mais uma vez estupendo), um dentista aposentado que se torna um caçador de recompensas no velho oeste. Schultz compra um escravo chamado Django (o também ótimo Jamie Foxx) com o propósito de ajudá-lo a encontrar três brancos em uma das fazendas da região. A dupla vai muito bem e começa a fazer bom dinheiro com o negócio. Schultz promete então a Django que como recompensa ele ajudará o ex-escravo na libertação da esposa Brunhilde, escrava da fazenda Candyland. Comandada por Calvin Candie (um Leonardo DiCaprio que finalmente, calou a minha boca, o cara está ótimo) a fazenda tem em Stephen (Samuel L. Jackson, muito engraçado) um homem de pulso firme, que comanda os negros escravos da propriedade e tem uma ligação muito afetiva com Calvin. Os eventos levam Schultz e Django à Candyland, onde acontece o embate pela pobre Brunhilde.

DiCaprio se destaca como o perverso Candie
O que esperar de um filme assim? Muita ação, bang-bang, sangue jorrando a cada tiro, diálogos e situações complexas e cômicas, e é claro, muito estilo. Tarantino é assim, nada do que ele faz foge ao seu estilo. E por isso mesmo ele é um cara de sucesso. Afinal para chegar longe em uma carreira curta ao ponto de poder contar a história que quer, do jeito que quer, só sendo muito bom mesmo. E isso não há quem duvide.

"The D is silent."
A trama se desenvolve de forma linear, mais próximo ao estilo Cães de Aluguel, onde Tarantino se usou de alguns flashbacks, poucos na verdade, para contar uma história que se apresenta de forma simples. Nada próximo à edição frenética de Pulp Fiction.

"I like the way you die, boy"
A trilha tem destaque constante. Tem as composições feitas especificamente para os filmes e é claro aquelas que Tarantino pinça da obscuridade e encaixa em momentos-chave do filme que fazem você ter a certeza que ela foi escrita para o filme. É impressionante como casa bem.

O quarteto base de Django: DiCaprio, Waltz, Jackson e Foxx
Django Livre é mais um filmaço da irretocável (e eu digo sem medo nenhum) carreira de Quentin Tarantino. Obrigatório para fãs e amantes do bom cinema. Quem disse que cinema de qualidade não pode ser divertido? Tarantino diverte, ensina e indica suas referências sem medo, sabe bem a quem elogiar e cabe a nós, simples mortais consumidores, digerir toda essa salada que Tarantino nos apresenta a cada filme.

Tarantino´s world
Foi difícil, mas segue abaixo a minha ordem de preferência dos filmes já lançados por Tarantino:

1)- Pulp Fiction
2)- Cães de Aluguel
3)- À Prova de Morte
4)- Kill Bill (vol. 1 e 2)
5)- Django Livre
6)- Bastardos Inglórios
7)- Jackie Brown

Você consegue fazer uma sua?

sábado, 12 de janeiro de 2013

WOODY ALLEN: A DOCUMENTARY - Uma sessão disputada essa na Rua Augusta. Também pudera, um documentário sobre um dos mais produtivos e criativos cineastas de todos os tempos, afinal os seus aguardados filmes acabaram virando um evento anual, desde 1966 ele continua nessa mesma sequência lançando um filme a cada 1 ano e meio. Ele não apenas dirige e escreve muito bem, mas atua em boa parte dos seus filmes também! Quase sempre como um personagem com um tipo neurótico, bastante articulado e cheio de referências e tiradas sarcásticas e inteligentes. Com vocês a história de Woody Allen.

Woody em ação
Um ícone. Talvez seja a melhor forma de definir Woody. Robert Weide dirige e produz este documentário que passeia de forma linear por toda a carreira do diretor nova iorquino. A condução é coberta com fotos e cenas de bastidores, principalmente do início da carreira de Woody, quando ainda ele tentava algo como escritor de contos e pequenas piadas em jornais.

No começo da carreira lutando com um canguru
Várias personalidades da sua vida como Charles J. Hoffe, Diane Keaton (menos Mia Farrow por razões óbvias)  e tantos outros dão o seu testemunho, inclusive o próprio Woody, que revela, como já havia descrito em outras entrevistas, a "gaveta das ideias". Explico, Woody se diz uma pessoa com dificuldade de criar histórias longas e complexas logo de cara. Então, ele imagina fatos ou pessoas, ou se baseia em fatos e pessoas do seu cotidiano, anota em algum papelzinho qualquer e joga na gaveta. No momento de escrever um roteiro ele abre a gaveta e vai pinçando papeizinhos até achar seus personagens ou fatos que melhor se encaixam na história que ele desenvolve.

Ao fundo a máquina de escrever ainda usada por Woody
Passear pelas ruas de Nova York acompanhando os passos de Woody talve seja o melhor do raso documentário, afinal pouco se viu tão de perto de Woody Allen durante toda a sua vida. A questão do caso de Woody com a filha adotiva de Mia também é abordado no filme, e eles deixam claro que a atriz não quis falar sobre o assunto. Woody também não se nega, mas fala apenas em que aquela sua escolha lhe afetou na vida pessoal e profissional.

Na infância
O documentário de Robert Weide é essencial para fãs, se vê um Woody mais de perto com seus tiques, suas manias e suas histórias. Além de acompanhar também os bastidores das gravações de Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos, como a relação de Woody com Josh Brolin e Scarlett Johansson.

Dirigindo Scarlett
A carreira de Woody é para ser festejada, ao contrário do documentário que parece não se aprofundar em alguns momentos, parece um release de imprensa em alguns momentos. Mas vale a pena para conhecer um pouco mais de perto Woody Allen




AS AVENTURAS DE PI (Or. The Life of Pi) - Baseado num livro de um brasileiro, As Aventuras de Pi trazem aos cinemas mais do que um filme. Algo como uma poesia. Ang Lee é um dos poucos cineastas que consegue unir essas duas artes.

Ang Lee (de boné) em ação

Chega a ser inexplicável o quanto o seu mais novo filme, As Aventuras de Pi, é bom. Mais que isso, é extraordinário. É magnífico e grandioso. Em muitas maneiras. Pode parecer exagero, mas acredite, não é. É claro que muito vai de quem assiste, de quem se identifica com a história e com a busca do personagem, da forma como são assimiladas as metáforas, de quem se deixa embarcar na história. Este último talvez o mais importante.


A fúria de Pi, lutando pela sobrevivência
 A história se baseia no livro de um brasileiro. O gaúcho Moacyr Scliar escreveu o romance "Max e os Felinos" em 1981 sobre um jovem que acaba em um barco no mar, sozinho com um jaguar. Esta história de Moacyr baseou o livro "Life of Pi" de  Yann Martel, de 2001, onde o roteiro de Ang Lee se baseia.


O brasileiro Moacyr Scliar, criador da história que por fim acabou por basear o roteiro de "As Aventuras de Pi"

Pi é um jovem indiano que vive com seus pais e seu irmão mais velho Ravi em um zoológico, de propriedade própria. A família se vê em uma situação financeira complicada, cuja única saída é a devolução do terreno do zoológico para a prefeitura. Isso feito, eles colocam todos os animais enjaulados dentro de um navio e tem como plano seguir para o Canadá, onde reiniciarão a vida. Não é preciso dizer que eles tem sérios problemas na viagem. O navio é atingido por uma fortíssima tormenta e sofre um naufrágio. O jovem Pi se vê então dentro de um pequeno barco salva-vidas à deriva no oceano, tendo como companhia um tigre de bengala, que também escapara da tragédia e procurou abrigo no barco. Assim seus dias se passam, tendo que aprender a viver com um animal feroz em um ambiente desconhecido. Palco perfeito para os devaneios e questionamentos do "poeta" Ang Lee.


O confronto Pi x Tigre de Bengala
 O imperdível do filme está no simples fato de ser impossível saber o que pode acontecer na próxima cena. Tudo pode ser encarado como um trajeto que cada um de nós faz por toda a vida. Afinal, como não relacionar com a vida uma história de um jovem que precisa aprender os desafios de um ambiente desconhecido e hostil, vivendo na base do sem saída, a não ser encarar os problemas, ou seja, conviver com o tigre.


Quadros como verdadeiras pinturas
 Certamente, As Aventuras de Pi é o melhor filme de Ang Lee e já está entre os grandes que já assisti. Tudo o que foi lido aqui pode parecer exagero, mas tudo neste filme tem um significado muito forte para mim, o que para alguns pode não ser tão forte. O que fica para mim é uma imagem de um lindo filme, cheio de metáforas e uma mensagem profunda, sem falar no banho de bom cinema que Ang Lee dá. Mais uma vez. 


O tigre de bengala "companheiro" de Pi

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012


MOONRISE KINGDOM - Em cinema é complicado cravar algo, muitos atores/atrizes/cineastas mudam conforme vão ficando mais experientes, é algo normal. Mas alguns se mantém fiéis ao próprio estilo. E quando se entra no quesito "estilo", poucos o tem tão claramente definido e de uma forma tão única quanto o diretor de Moonrise Kingdom. Se analisar a sua filmografia, curta para quem tem pouco menos de 20 anos de carreira  - Pura AdrenalinaTrês É Demais, Os Excêntricos Tenenbauns, A Vida Marinha Com Steve Zissou, Viagem à Darjeeling, O Fantástico Sr. Raposo - muitos elementos se conectam, como os personagens excêntricos (bebido em Fellini), os cortes secos para quadros estáticos e com muita profundidade (bebido em Kubrick), os filmes divididos em capítulos e o clima tragicômico, com o uso de cores fortes em situações absurdas. Este é o mundo de Wes Anderson.

O herói e Wes Anderson em ação
Mergulhar no mundo dele significa se deixar levar pela história, pelas situações e pelos personagens. Em Moonrise Kingdom, Wes conta a história de um jovem casal, de uns 13 anos cada um, que decidem fugir para ficarem juntos. Mas o fazem, como não poderia ser diferente, de uma forma ingênua e cheia de furos, afinal não passam de crianças. Os pais da menina e os "amigos" escoteiros do menino saem em uma caçada pela montanhosa região a fim de encontrá-los. Bill Murray, Bruce Willis, Frances McDormand e Edward Norton estão entre os astros do filme. Mas Wes os deixa sempre, assim como acontece em seus outros filmes, em papéis coadjuvantes. O foco da história fica sobre os desconhecidos Jared Gilman e Kara Hayward em seus primeiros papéis no cinema.

O jovem casal em fuga
A diversão é garantida. A história, claro, é totalmente absurda. Assim como as situações criadas pela trama. Mas sempre fica aquele gosto de "quero mais". A cada cena a expectativa aumenta, se esperando que na próxima algo ainda mais absurdo aconteça. 

Os 4 astros do filme em papéis secundários
Nunca se sabe ao certo o que se esperar de um filme de Wes Anderson. O melhor é relaxar e viajar na história. Jamais deve-se esperar muito e nem tampouco subestimar o que aparece na tela. A surpresa acontece a cada take, a cada fotografia cuidadosamente montada e a cada personagem, meticulosamente construído. Moonrise Kingdom vale cada minuto. Um pequeno grande filme, ideal para as telonas porque é lá que o fascínio só aumenta.

domingo, 30 de dezembro de 2012

DESAPARECIDO - UM GRADE MISTÉRIO (Or. Missing) - Ultimamente venho tendo muito contato com um tema que sempre me intrigou por muito tempo, principalmente no período escolar - os anos de chumbo. Mergulhei a fundo nesse tema e passei a conhecer melhor as engrenagens que fizeram funcionar a ditadura no Brasil, na Argentina, no Uruguai e no Chile, nas décadas de 60, 70 e 80. Foi assim que voltei a ter contato com um dos mais importantes cineastas da história, cujas obras sempre tem um olhar voltado para a política. Trata-se de Costa-Gavras.

Costa-Gavras em ação
Z, de 1969, talvez seja a sua obra mais famosa. Lhe rendeu três indicações ao Oscar como roteiro, diretor e filme. O Oscar veio em 1983 com este Desaparecido - Um Grande Mistério, como melhor roteiro. Ainda concorreu em melhor ator, atriz e filme.

A capa do livro
Desaparecido é baseado em um livro (escrito por Thomas Hauser)  de mesmo nome que conta a história real de um jornalista norte americano, Charles Horman, que vai morar no Chile para analisar as consequências de um governo de esquerda no país, no caso presidido por Salvador Allende. Jack descobre uma ligação entre o governo norte americano e o chileno e começa a pesquisar o motivo dessa ligação. Allende é deposto por Pinochet e se inicia um período negro de forte repressão no Chile. Dado como desaparecido, Jack Horman, o pai, é avisado do fato e segue rapidamente para o Chile, para tentar localizar o filho. Aí está a grande angústia do pai, a busca por um filho que não sabe se está vivo. As autoridades afirmam que ele está, mas dão provas que apenas despistam a busca do pai, aumentando cada vez mais a agonia, que se arrasta por todo o filme. O pai é vivido com maestria por Jack Lemmon e sua nora é Sissy Spacek.

A busca pelo filho e pelo marido
É assustador reviver aqueles anos e reconstruí-los com tamanha eficiência. O exército nas ruas, atirando para o alto exigindo o respeito ao toque de recolher. Os corpos espalhados por Santiago e o Estádio Nacional, usado como campo de concentração. E saber que tudo isso foi feito graças à contribuição direta das ditaduras dos países vizinhos é o que mais incomoda. Todos foram cúmplices.

Dentro do Estádio Nacional
Para quem vê o filme e não está acostumado ao estilo do diretor, pode parecer cru demais, sem o uso de trilha sonora ou grandes trucagens, até simplório de uma certa maneira, mas este é o cinema de Costa-Gavras. Simples e eficiente. O mesmo não se pode dizer da busca de Jack Horman.

sábado, 29 de dezembro de 2012

O IMPOSSÍVEL (Or. The Impossible) - Você já parou pra pensar como a Espanha está se tornando uma potência em diversas áreas? O esporte talvez seja o setor cujo domínio espanhol se mostra mais forte. No cinema isso também acontece, e não é de hoje não.


Um dos poucos momentos de alegria em "O Impossível"

Cinema é gosto pessoal, é claro, não dá para fazer uma medição incontestável como um título mundial de Nadal ou Alonso, mas é inquestionável como as produções espanholas e os diretores espanhóis estão tomando espaço no cenário cinematográfico mundial. Depois do domínio longo de Almodóvar como único cineasta espanhol respeitado pelo cinemão é, finalmente chegada a hora de passar o bastão. Os três expoentes deste claro crescimento são Alfonso Cuarón, Alejandro Iñarritú e Guilhermo del Toro. Como produtores e/ou diretores estes nomes podem ser vistos por trás de obras como Babel, 21 Gramas, O Labirinto do Fauno, Biutiful, REC, O Orfanato e O Impossível.


O diretor Bayona em ação

Essas duas últimas obras são dirigidas por Juan Antonio Bayona, as suas duas únicas na carreira e ele já se mostra um cineasta preocupado não apenas com a forma, abusando de cenários melancólicos e uma bela fotografia, mas também com a consistência dos seus personagens, sempre muito bem construidos.

A família chegando ao resort

O Orfanato foi um sopro de novidade no gênero de terror, já em O Impossível Bayona emociona com a história real da família espanhola Belon, transformada em Bennett, e tendo como protagonistas Naomi Watts e Ewan McGregor e seus três filhos. Eles estão de férias num hotel à beira mar quando acontece a maior tragédia natural da nossa época, o tsunami no final de 2004 que devastou parte da costa asiática. E aí está um grande acerto de Beyona, as impressionantes sequências da tragédia. E depois toda a tentativa de sobreviver nessas condições, com ferimentos profundos e perdidos em um lugar completamente destruído. É de dar medo.

A chegada do tsunami
Todos se lembram das imagens da tragédia, centenas de milhares de mortos, famílias destroçadas e histórias interrompidas no auge. Muito se criticou em O Impossível do porque se focar na visão de uma família européia para uma tragédia vivida por uma enorme maioria de asiáticos. É uma questão que fica. Mas na verdade o que vale é o registro do filme, de uma história de uma família que foi pinçada na tragédia e que quiz contar o seu drama.

Uma família destroçada

Fica a história, a tristeza e os suspiros das lágrimas rolando pela sala de cinema. Prepare-se. Não é uma viagem fácil. Fique até o final dos créditos.