quinta-feira, 5 de março de 2015

A TEORIA DE TUDO (2014)

A dança que embala os primeiros anos de Jane e Stephen

A TEORIA DE TUDO (The Theory of Everything / 2014) - Cinebiografias são sempre interessantes, porque retratam uma realidade - sempre romanceada - geralmente dura e sofrida. Alguém já se pegou pensando que a vida de Stephen Hawking daria um filme? É fácil falar agora, mas eu já. E deu. A partir de um livro lançado pela primeira esposa de Hawking contando seus anos de namoro, casamento e filhos. A Teoria de Tudo é o resultado dessa adaptação e traz uma equipe afinada. A começar pelo casal protagonista.

Ficção e realidade

Eddie Remayne vive Hawking, um nerd que tenta provar suas teorias físicas mais "absurdas" e quando o faz deixa colegas e professores boquiabertos. Aos poucos, com delicadeza, o filme vai pontuando as dificuldades que Hawking enfrenta em seu dia a dia por conta de uma doença degenerativa. Ele passa a não conseguir segurar uma caneta, levantar uma caneca ou simplesmente andar.

Impressionante semelhança

Após cair e bater a cabeça no chão, é levado para o médico que lhe dá apenas dois anos de vida. A  esclerose amiotrófica aos poucos, vai limando as suas habilidades motoras. O grande privilégio de Hawking é a inteligência privilegiada que o ajuda a se manter firme e otimista quando as condições parecem apenas piorar.

Aos poucos, Stephen vai perdendo os movimentos

Tudo isso não seria possível se não fosse por Jane, a namorada da faculdade, interpretada por Felicity Jones. A sua paixão por Stephen é tão forte que mesmo com a noticia da doença ela insiste para que eles se casem e que vivam o mais intensamente possível dentro daqueles dois anos. Esses anos viram décadas, Stephen se vê confinado à uma cadeira de rodas, sem falar e pai de três filhos. Uma evolução - ou no caso um retrocesso - que é mostrada de forma muito delicada na tela.

Jonathan e Jane se apaixonam

Cansada de cuidar dos filhos e de Stephen, se sentindo completamente dependente, Jane acaba se engraçando com Jonathan, do coro da igreja que ela frequenta. Ele vai à casa dos dois e a ajuda nas tarefas do dia a dia. Stephen não desconfia mas Jane e Jonathan começam a se apaixonar. O amor entre Jane e Stephen, antes eterno, vai se esvaindo e perdendo força.

A enfermeira se torna o terceiro elemento na relação entre Stephen e Jane
Eles se separam, Stephen se casa com uma enfermeira que cuidava dele e Jane vai morar com Jonathan. Mas não nutrem sentimentos ruins um pelo outro, ao contrário. Na cena final, ainda se mostram amigos, ao verem os três filhos já crescidos, correndo pelo jardim. O diretor James Marsh opta então por uma volta no tempo, mostrando as cenas de trás para frente até chegar a uma das mais marcantes do filme, mostrando Jane e Stephen dançando num baile da faculdade.

No final, a volta ao começo

O Oscar de melhor ator para Remayne foi merecido, ele foi melhor que qualquer outro ator na disputa pelo prêmio. Embora falte alguma coisa na sua atuação, não se enxerga o verdadeiro Hawking ali e sim um ator. A Teoria de Tudo vale por Remayne e pela delicadeza do roteiro. Um problema talvez seja a química entre o casal principal que às vezes não funciona muito bem.
Veja abaixo o trailer de A Teoria de Tudo.


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

WHIPLASH - EM BUSCA DA PERFEIÇÃO (2014)

O professor, o carrasco, o dono do filme

WHIPLASH - EM BUSCA DA PERFEIÇÃO (Whiplash / 2014) - Damien Chazelle é amante de música, sempre sonhou em se tornar um bom baterista. Estudou, se esforçou, tocou mas nunca foi além do sonho. Desistiu de se tornar músico e passou a escrever histórias. Uma delas é baseada na sua própria trajetória e se tornou um sucesso como curta metragem no Festival de Sundance de 2013. Damien ganhou um dinheirinho com o curta e resolveu fazer dele um longa. Nasceu aí Whiplash - Em Busca da Perfeição.

Não basta ser bom, tem que ser perfeito

Damien, além do roteiro, assina a direção desse filme minimalista sobre a relação conturbada de um baterista, que só pensa no sucesso, e o professor da escola de música mais renomada do país, que é um verdadeiro carrasco. O papel de Andrew, o baterista, fica a cargo de um jovem desconhecido - Milles Teller -, mas que até pode colher alguns bons frutos da interpretação de um jovem irritante e ambicioso, disposto a pagar qualquer preço para ver seu sonho realizado - o de se tornar o maior baterista de jazz da história.

Andrew e seu sonho

Seu pai é vivido por Paul Reiser, mais conhecido pela série cômica Mad About You, que fez sucesso na TV entre os anos de 1992 e 1999. Outro papel menor mas de grande importância na trama, fica com Melissa Benoist, a menina por quem Andrew tem uma queda e tenta um relacionamento. Eles são os pontos que mantêm Andrew preso à Terra, e que segundo ele, o atrapalham e impedem de alcançar seus objetivos.

Pai e filho, se distanciando

Aí chegamos ao professor da banda, Fletcher, vivido por J. K. Simmons. O cara mereceu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Com folga. Ele é vivo, é a alma do filme, o que nos mantém presos e empolgados pela próxima cena. A sua atuação é precisa, temerária. Só o olhar já dá o recado, mas quando solta o verbo o temor se transforma em medo. Dá pra sentir isso nos atores, na maioria jovens, com quem ele contracena. A sua personificação de Fletcher é soberba, é o que nos faz querer ver e rever o filme outras vezes. 

Perfeição

Em Whiplash - Em Busca da Perfeição, mais uma vez nos vemos naquele embate "aluno esforçado X professor carrasco" de tantos e tantos filmes, mas aqui tem um algo a mais, um diferencial, a atuação de J. K. Simmons.
Veja abaixo o trailer de Whiplash - Em Busca da Perfeição.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

BOYHOOD - DA INFÂNCIA A JUVENTUDE (2014)

Um menino introspectivo e sonhador
BOYHOOD - DA INFÂNCIA À JUVENTUDE (Boyhood / 2014) - Richard Linklater não é um cineasta comum. E portanto não realiza filmes comuns. Palmas para ele por isso. Entre eles se destacam a trilogia Antes do Amanhecer, Antes do Pôr do Sol e Antes da Meia-Noite, filmes de autor baseado somente no encontro casual entre dois desconhecidos, os ótimos diálogos serviram de inspiração para tantos outros filmes. O diretor também inovou ao utilizar a técnica de rotoscópio, que é o desenho sobre cenas previamente gravadas, em filmes como Waking Life e O Homem Duplo. A inovação continua pautando a carreira de Linklater, desta vez com o festejado Boyhood - Da Infância à Juventude.

Linklater em ação

O filme foi gravado com o mesmo elenco, um pouquinho a cada ano, com início em maio de 2002 e término em agosto de 2013. A ideia é mostrar a evolução do menino Mason, vivido por Ellar Coltrane, até se tornar um adolescente e depois um quase adulto.

A evolução na tela

Seus pais são separados e interpretados por Ethan Hawke e Patricia Arquette. Ele, se aventurando, sem emprego fixo, ostentando um carro potente e ela fazendo o papel de mãe e pai, educando os filhos, segurando a barra de criar Mason e Samantha, sua irmã, interpretada por Lorelei Linklater, a filha do diretor.

Filha e mãe em cena

Técnicamente o filme é perfeito, o roteiro nos leva pelas desventuras de Mason com seus melhores amigos da escola, do colégio e das casas onde mora - sua mãe se vê obrigada a mudar de residência e seus filhos de escola por conta de desencontros da vida, entre eles seus namorados, geralmente errantes, bêbados e violentos. Nos finais de semana que passam com o pai, os filhos geralmente viajam, acampam, se divertem no boliche.

Pai tenta puxar papo com o filho, calado

Da escola pro colégio, do colégio para a entrada na faculdade, amores intensos que somem do nada, amizades duradouras de poucos meses, até a fase pré adulta onde tudo muda e outra vida começa. Boyhood acaba do mesmo jeito que começa, com Mason olhando o céu, imaginando como será o depois.

A cena final, o início de uma nova fase

Linklater se preocupou em fazer um filme fincado na realidade com poucos ou nenhum ponto de virada no roteiro, não há uma doença na família, ou morte, ou namoro ou amizade intensa que mude algum planejamento, nada. O filme começa e termina como uma linha única, reta e sem mudanças de direção, como uma viagem por uma estrada lisa, sem fim e sem carros ao redor. Parece como a vida da maioria de cada um de nós e por isso por vezes é tedioso e para cinema não funciona muito. 
Veja abaixo o trailer de Boyhood - da Infância à Adolescência.



quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

NOSSA QUERIDA FREDA (2013)

Freda, uma mulher de sorte

NOSSA QUERIDA FREDA (Good Ol' Freda - 2013) - Alguém teria coragem de questionar a genialidade de figuras como John Lennon, Paul McCartney e George Harrison? Difícil... O Ringo não  é um gênio, mas quem conhece a história dos Beatles sabe, eles nunca seriam o que foram se não fosse pelo baterista e seu espírito, no mínimo, divertido. Como músico Ringo, não tenho medo de afirmar, levou muita sorte.

Querida por todos

Sorte parecida levou o diretor Ryan White, que praticamente recebeu dos céus a história de Freda Kelly. Ela se manteve calada sobre a sua vida desde o início dos anos 70, mas tudo mudou quando Freda virou avó e pensou: "tenho que contar para o meu neto a história da minha vida". Por acaso os fatos chegaram aos ouvidos de Ryan, jovem cineasta que pensou em fazer um filme pequeno para Freda guardar em DVD. Conforme as pessoas foram ouvindo a história, convenceram Ryan a fazer do filme um longa e assim nasceu Nossa Querida Freda.

Fotos caseiras, ao lado de Ringo e George

Freda era uma adolescente no início dos anos 60, quando começou a frequentar o Cavern para ouvir os Beatles, que ainda contava com Pete Best na bateria. Ele ia todos os dias ao bar, chegava antes de todo mundo e ficava lá na frente, trocava algumas palavras com os músicos e chegava a fazer pedidos de música. Se tornou íntima deles. Ela estima que ao todo assistiu 190 das 292 apresentações dos Beatles no Cavern.

Ao lado de Ringo e Maureen, esposa do baterista

Brian Epstein, manager da banda, convidou a jovem simpática, de sorriso fácil, para a função de secretária da banda, já que no período havia caído nas graças dos rapazes. Ela inclusive datilografava. Permaneceu no cargo até depois do final da banda, oficialmente em 1970.

Durante "Magical Mystery Tour"

Freda conta no documentário que participava ativamente das vidas privadas dos integrantes, se tornou amiga pessoal das famílias, principalmente da de Ringo. Ela indicou o endereço da própria residência como sede do fã clube oficial dos Beatles, recebia milhares de cartas todos os dias e se via na obrigação de satisfazer os pedidos da fãs,  geralmente cabelos ou pedaços de roupas dos Fabfour. Outras ainda iam além, mandavam lençol e pediam que o Beatle favorito dormisse nele, só para o pano ficar com o cheirinho. Freda recebia e atendia, conforme ela mesmo diz, todos os pedidos.

Ao lado de Paul

Apesar da riqueza enorme que um documentário desse pode conter, o produto principal (a história da própria Freda), foi muito mal aproveitado por Ryan. Claramente a impressão que fica é que se ele tivesse a oportunidade de refazer esse documentário quando fosse mais maduro como cineasta, sairia algo melhor. Ou ainda, se a história caísse no colo de um cineasta mais experiente, o longa seria bem mais interessante de ser assistido.

Ela estava lá, sempre

Nossa Querida Freda é um filme fraco. Se você já tem algum conhecimento mais aprofundado da história dos Beatles vai terminar o filme com a sensação de que ele poderia ter ido mais fundo, o resultado é raso. A personagem, muitas vezes, não ajuda. Ela se orgulha da sua vida, mas é muito retraída, não parece se abrir com facilidade, tudo para ela parece banal demais "É, o John isso...", "O Paul aquilo..."

Ainda jovem, em uma das inúmeras entrevistas que deu

No momento mais forte do filme, Freda sobe ao sotão e revela caixas e mais caixas de material do fã clube que ela ainda guarda em sua casa, produtos de valor inestimado para qualquer fã da banda, mas que estão mofando no sotão de uma senhora. Qualquer um ficaria horas e mais horas ali desvendando objeto por objeto, mas Ryan decidiu não fazer bom proveito daquilo, foi uma rápida passada, tirou uma ou outra história do sotão e abandonou aquele tesouro. Pobre...

Freda hoje

Pouco se ouve da música original dos Beatles no filme, muito pela dificuldade que é conseguir os direitos das músicas. Mas incomoda a falta que o som da banda faz em alguns momentos, o diretor preferiu até usar outras bandas tocando. Não orna. Altas expectativas para um filme tão fraco, até tecnicamente. Os Beatles, e até a própria Freda, mereciam um registro melhor.
Veja abaixo o trailer de Nossa Querida Freda.  


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

BIRDMAN OU A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA (2014)

O herói que assombra o anti-herói

BIRDMAN OU A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA (Birdman / 2014) - Você conhece a Cha Cha Cha Films? Pois deveria... Ela não é das produtoras de cinema mais atuantes do mercado, longe disso, mas é o ponto comum de três dos maiores cineastas (que é muito mais do que simplesmente "diretores") da atualidade, sem dúvida. Alfonso Cuarón, Guillermo Del Toro e Alejandro González Iñarritú são responsáveis por obras como O Labirinto do Fauno, 21 Gramas, Hellboy, Amores Brutos, Filhos da Esperança, Biutiful, Gravidade... É muita coisa boa. Eles tem a mesma faixa etária, começaram no cinema juntos, são amigos e cada um segue um caminho mais brilhante do que o outro. Ainda bem.

Keaton e Iñarritú

Birdman, dirigido por Iñarritú, é o filme da vez, junto com O Grande Hotel Budapeste, de Wes Anderson. Ambos estão concorrendo em 9 categorias no Oscar. Birdman conta a história de um ator que quer provar ser bom ao dirigir e atuar numa peça da Broadway. Ele está cansado de ser apenas reconhecido por ter atuado num filme de super-herói há quase 20 anos. Papel perfeito para Michael Keaton, que vestiu o traje do Batman nos filmes dirigidos por Tim Burton em 1989 e 1992. Qualquer semelhança aqui não é mera coincidência.

Criador e criatura
Riggan, o ator interpretado por Keaton, ainda sofre com os conturbados relacionamentos, principalmente com a filha (a sempre ótima Emma Stone, embora ache que a indicação dela ao Oscar de atriz coadjuvante seja um pouco demais) e Mike (vivido magistralmente por um sempre ótimo Edward Norton). Zach Galifianakis surpreende em um papel sério e Naomi Watts, desta vez, não rouba a cena.

Norton, Iñarritú e Stone - o melhor de Birdman juntos

São três pontos principais que, na minha opinião, formam a força motriz de Birdman. Em primeiro lugar Edward Norton, que está ótimo. Irritante, petulante e impulsivo (extamante da forma como muitos os descrevem na vida pessoal). Aliás a "semelhança" entre o ator e o personagem foi um dos atrativos para Norton. Caberia bem um Oscar, que seria seu primeiro depois de outras duas indicações - As Duas Faces de um Crime de 1996 e A Outra História Americana de 1998.

Mike, o dono do filme, encurralando Riggan

O segundo ponto importante que garante o sucesso de Birdman é Michael Keaton. Ele não está genial, longe disso (inclusive, a meu ver, ele não merece um Oscar por este filme), mas o fato dele ter aceitado interpretar um personagem tão parecido com ele mesmo (um ator, apenas reconhecido por um papel de super herói, há 20 anos, buscando se provar), é um mérito. Isso nem sempre garante reconhecimento pelos velhinhos da Academia, o exemplo mais recente é o erro (a meu ver) da premiação de 2009 quando Mickey Rourke interpretou o papel da sua vida em O Lutador e foi derrotado por Sean Penn em Milk - A Voz da Igualdade.

Em 2009 no Oscar de melhor ator - uma ótima atuação contra o papel da vida.

O terceiro e mais importante trunfo de Birdman está na forma como Iñarritú escolheu para contar a história. É tudo gravado em plano sequência, mal notamos os cortes, o que faz do processo todo um desafio gigante para produção e atores e facilita bastante a captação e a finalização, todo o filme foi filmado em menos de um mês e editado em duas semanas. Processo parecido foi utilizado em filmes como Festim Diabólico de Hitchcock, de 1948, e Arca Russa de 2002.

A engenhosidade de Iñarritú no seu plano-sequência de quase duas horas 

Merecedor ou não das nove indicações ao Oscar fica a cada um discutir. Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância é sim um belo filme, provocativo e divertido que trouxe à tona um profundo sentimento de coragem, principalmente de Keaton por se expor num papel que lhe renderá comparações eternas. Veja abaixo o trailer de Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância:

domingo, 21 de dezembro de 2014

NO (2012)

Chile, país sitiado

NO (2012) - Filmes políticos são difíceis de serem feitos. Sempre envolvem a opinião particular dos realizadores e mexem com a memória das pessoas. Ainda mais quando se trata de algo tão recente. Chile 1988. O país passa por um período político conturbado. Pinochet governa a ditadura no país, com centenas de vítimas que pagam o preço de serem contrários ao regime. Mas no final da década de 80, a abertura política aos poucos foi se configurando. Para conter o ânimo dos contrários, Pinochet, que ainda contava com apoio de boa parte da população, decidiu fazer um plebiscito para saber se o regime ditatorial continuaria ou não - era votar SIM ou NÃO. Ele tinha certeza de que venceria.

A população dizendo não à Pinochet

E não apenas pela coragem do diretor Pablo Larraín, mas o mérito de uma execução que coloca NO entre os filmes com o trabalho de reconstrução de época mais bem feito do cinema recente. Para reviver o Chile de 1988, Larraín deixou de lado a película e usou uma U-matic 4:3, a mesma usada naquela época, sem falar no ótimo trabalho do figurino. Tudo pelo realismo. Qualquer desavisado acharia que No e Desaparecido - Um Grande Mistério de Costa-Gavras de 1982 são obras contemporâneas.

René e seu filho, ameaçados

O mexicano Gael García Bernal vive René, um publicitário que acaba envolvido no desenvolvimento da campanha do Não, obviamente contrária à ditadura de Pinochet. Dessa forma, ele passa a desenvolver a campanha e aos poucos passa a sofrer perseguições e ameaças. Mas quanto mais encontra dificuldades no desenvolvimento da campanha mais ele se inflama para fazer uma campanha vitoriosa.

Campanha do "No", o apelo pela publicidade

A campanha do Sim está segura da vitória, mas os partidários se incomodam quando em uma pesquisa popular o Não ameaça. A campanha bolada por René recebe críticas de todos os lados, ela é alegre, colorida, bem humorada, "parece um comercial de Coca Cola", diz um dos seus críticos. No youtube não é difícil encontrar propagandas da época, todas usadas no longa de Larraín. O tiro de René foi certeiro. Cansada da ditadura de Pinochet e buscando algo parecido com o que propunha a campanha do Não, com o slogan "Chile, a alegria já vem", a vitória foi confirmada e a população mostrou que estava farta de Pinochet. Ele ainda deu um jeito de ficar como Chefe das Forças Armadas até 1998.

"Chile, la alegria ya viene"

René vai se desmontando conforme o longa passa. A pressão sobre ele só aumenta, as ameaças de grupos políticos ligados ao governo são constantes, inclusive contra seu filho. A medida que a história avança, René vai ficando mais e mais sozinho, ilhado no seu perigoso cargo de principal mente pensante por trás da campanha publicitará a enfrentar a ditadura sanguinária de Pinochet. Ele costuma andar pelas ruas de Santiago de skate, o que mostra audácia, um adulto com ideias de jovem revolucionário, o que mantém firme e convicto na sua decisão de abrir mão de tudo e de todos por uma ideologia.

Skate pelas ruas de Santiago, retrato perfeito da personagem de Gael

Como filme, No funciona muito bem ainda mais com Gael, mais uma vez inspirado. Como registro histórico é obrigatório, tanto para fãs de cinema como para fãs de história política. O longa de Larrain é um filme só acertos. Veja abaixo o trailer de No.

    

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

SALÓ OU 120 DIAS DE SODOMA (1975)

Como cachorro, o ser humano descartável, aos olhos de 4 fascistas

SALÓ OU 120 DIAS DE SODOMA (Salo o le 120 Giornate di Sodoma) - 1944, a Itália é um país dominado por nazifascistas. E na cidade de Saló, jovens são sequestrados e mandandos para um castelo afastado. Lá conhecem 4 ricos e entediados nazifascistas, os mandantes dos sequestros. Eles não tem nomes, apenas são chamados por apelidos - o bispo, o duque, o magistrado e o presidente. Cercados por homens armados, os jovens ouvem como será sua nova vida dali para frente: "vocês estão aqui para satisfazer os nossos prazeres, ninguém lá fora sabe que vocês estão aqui, para o mundo externo é como se vocês já estivessem mortos".

Os 4 facistas - o bispo, o duque, o magistrado e o presidente

O longa do italiano Pier Paolo Pasolini é inspirado no livro de mesmo nome do Marquês de Sade e estará, sem dúvida, entre os filmes mais chocantes que você já assistiu e provavelmente irá assistir em toda a sua vida. São pouco menos de 2 horas, mas acredite, com cenas que você levará para sempre. Se você ainda tinha qualquer fé na humanidade, este filme te faz perder a total certeza de que o homem ainda é passivo de concerto. Você fica angustiado, triste, envergonhado e ao final enojado. Não é exagero.

Nudez, nada sensual, pontua o filme de fora a fora

Para suavizar, os créditos iniciais são exibidos em tela branca com uma fonte erudita e uma valsa que beira o cômico ao fundo, levemente lembra as aberturas dos filmes de Woody Allen, embora o diretor americano use jazz. Depois de chegarem ao castelo a história se divide em três capítulos, o ciclo das manias, o ciclo da merda e o ciclo do sangue.

Torturas das mais escabrosas - quando é pesado, acredite, fica pior

Em cada um dos ciclos, uma senhora prostituta, tão libertina quanto os 4, conta as suas escabrosas experiências com riquezas de detalhes num enorme salão. Cada velho tem uma equipe de jovens e guardar amados consigo. Os jovens inertes ficam passíveis, o tempo todo. A senhora demonstra um prazer enorme ao fazer aquilo. Ao fundo uma moça toca um piano o que dá uma leveza à cena, em contraste com as histórias sempre pesadas. Mesmo assim estranhamente tudo se encaixa, desde as histórias fortes, a senhora de vestido longo de festa, as caras de contentamento e prazer dos 4 velhos, os jovens inertes e sem reação, e as paredes envelhecidas de um castelo que já viveu dias melhores.

Cada velho tem um "time" com jovens que usa para seu bel prazer, além de guardas armados para inibir os revoltos

O ciclo das manias trata sobre manias sexuais depravadas e a cada momento um dos 4 libertinos se levanta de súbito e arrasta um dos jovens para uma sala ao lado para se satisfazer. O ciclo seguinte, o da merda, faz relação entre sexo e escatologia de todos os tipos. O ponto máximo, você já deve imaginar, é um jantar de gala tendo como prato principal... você sabe. Aqui, a repugnância chega ao máximo.

Repugnante

O ciclo do sangue é o momento onde os jovens que não se encaixaram no plano de satisfazer os libertinos a qualquer custo são punidos com torturas físicas das mais intensas, com cenas fortíssimas que beiram o realismo. Acompanhamos tudo de longe, como voyeur, assim como cada libertino o faz por vez, vendo tudo por binóculos. Em nenhum momento ouvimos os gritos de dor dos torturados. Somos grosseiramente convidados a assistir passivamente aquele festival de horrores.

E ao final os que não se encaixaram no regime são descartados das formas mais desumanas

Uma valsa bonita e inocente, com a mesma trilha dos créditos iniciais, é tocada para encerrar o filme, enquanto dois jovens soldados dançam pela sala.

A valsa inocente e incoerente

Com Saló, Pasolini pretendia iniciar a sua trilogia da morte (já havia lançado a trilogia da vida com os filmes Decamerão, Os Contos de Canderbury e As Mil e Uma Noites), mas o diretor foi encontrado morto com o rosto desfigurado em condições até hoje inexplicáveis pouco depois de terminadas as gravações, Saló ainda não havia nem sido lançado.

Pasolini no set de Saló

Ao mesmo tempo que foi proibido, e ainda o é, em diversos países, Saló alcançou status de filme de arte, um estudo sobre a condição humana, e por Pasolini ter vivido muitos anos na Itália fascista, o filme ganhou um ar de crítica da sociedade, do quão ruim o ser humano pode ser, prova de que a maldade está em cada um de nós. Ninguém é totalmente bom ou completamente mal, esses dois sentimentos ficam adormecidos dentro de nós, se polarizando, de lado a lado.
Assista abaixo o trailer de Saló ou 120 Dias de Sodoma:

sexta-feira, 23 de maio de 2014

A DATILÓGRAFA (2012)

Rápida no gatilho, ou melhor no teclado de uma máquina de escrever

A DATILÓGRAFA (Populaire / 2012) - O cinema francês nunca para, está sempre tentando se reinventar. E alguém nega que tem conseguido? Sucessos como O Fabuloso Destino de Amelie Poulain, de 2001 e O Artista, de 2011, mostram que os franceses tem um prazer em contar histórias de um jeito diferente. Em ambos os filmes é fácil de se notar a opção de seus diretores em homenagear um cinema de uma outra época, quando tudo era mais ingênuo, digamos. O resultado? Filmes gostosos de assistir, leves embora não levianos.

O diretor e sua paixão

Em A Datilógrafa, do diretor estreante Régis Roinsard, a linguagem é parecida. Os créditos iniciais, coloridos, feitos em desenho, como uma pop art dos anos 50 remete imediatamente à Billy Wilder, diretor de sucessos como Quanto Mais Quente Melhor, de 1959, Crepúsculo dos Deuses, de 1950, O Pecado Mora ao Lado, de 1955, Se Meu Apartamento Falasse, de 1960, e tantos outros.

Decididamente um filme que não parece ser dessa década

Assim que terminam os créditos já somos levados pelos passos de um sapato feminino usando uma saia rodada, é mais um indício, estamos nos anos 50. Mais precisamente 1958. É neste ano em uma pequena cidade francesa que se passa a história de Rose e Louis. Ele procura uma secretária, o emprego mais cobiçado das moças da época e ela se candidata junto com outras dezenas.

Desde pequena a paixão pela máquina de escrever

Rose é péssima secretária, realmente muito ruim, mas tem o dom de datilografar muito rápido e chama a atenção de Louis, principalmente por conta de um torneio estadual de rapidez diante de uma máquina de escrever. Pensando no titulo do torneio, Louis contrata Rose.

Rose e Louis

Ambicioso, Louis treina Rose e o resultado aparece - ela vence o torneio estadual e o nacional, disputado em Paris. E se classifica para a finalíssima mundial contra datilógrafas dos EUA, da Alemanha, da Coréia do Norte e mais outros lugares.

Rose disputando o título mundial

De uma forma encantadora pelo conteúdo, pelo colorido da paleta do filme, pelos cenários, pela trilha sonora escolhida a dedo, A Datilógrafa conta uma história de amor com um tom de comédia do passado, leve e escapista. Vale para aqueles sábados a tarde de chuva fina e cobertor no sofá da sala.  
Veja abaixo o trailer de A Datilógrafa.