sexta-feira, 29 de maio de 2015

FUGA DE NOVA YORK (1981)

Snake Plissken

FUGA DE NOVA YORK (Escape From New York / 1981) - É impossível falar de cinema de terror e filmes dos anos 70 e 80 e não chegar à John Carpenter. É da mente doentia desse senhor nascido em 1948, que surgiram personagens como Mike Myers da série Halloween, Jack Burton e Lopan de Os Aventureiros do Bairro Proibido, entre tantos outros. Carpenter também está por trás das competentes adaptações A Bruma Assassina e Christine - O Carro Assassino, ambos livros de Stephen King.

Carpenter em ação

Snake Plissken é outro da gama de personagens-ícones de Carpenter. Em Fuga de Nova York, Plissken, vivido por Kurt Russell, é a única esperança de um mundo tomado pela violência. O ano é 1988 e a ilha de Manhattan foi transformada em uma prisão de segurança máxima, cercada por muros com 15 metros de altura. Lá dentro estão os prisioneiros mais temidos do país, quem tenta fugir é abatido. A cidade não tem iluminação, está completamente abandonada, a comida é lançada por helicóptero. Cada um sobrevive da sua própria sorte.

Uma Manhattan de ruas molhadas e escuras 

Quando o avião presidencial é sequestrado e jogado entre os muros da prisão só há um homem capaz de resgatá-lo e este home é Snake Plissken. Snake é um criminoso condenado a passar o resto dos seus dias entre os muros de Manhattan, mas acaba recebendo uma proposta - terá todos os seus crimes perdoados se aceitar entrar na prisão para resgatar o presidente. Snake aceita e é lançado em um planador lá pra dentro.

Resgatar o presidente, a única salvação para Snake

Assim que chega, armado e com um intercomunicador, ele descobre que o presidente foi escondido por uma gangue comandada por Duque, vivido por Isaac Hayes. Mas até encontrá-lo Snake passa por outras figuras obscuras de uma Manhattan abandonada, como Cabbie (Ernest Borgnine) um motorista de taxi que acaba se transformando em seu transporte pela cidade, e o casal Brain e Maggie, que o ajudam na busca.

A improvável gangue que acompanha Snake

A trilha sonora é marcante. John Carpenter sempre usa a trilha como se fosse mais uma personagem da trama e fez escola. Sintetizadores e sons imagéticos só nos ajudam a seguir pelas escuras e frias ruas ao lado de Snake. O charme de Fuga de Nova York tem na trilha uma de suas grandes forças.

Preparado para as figuras da noite

Fuga de Nova York é sim um filme datado em quase tudo - no figurino, nos objetos de cena, na trilha sonora - entrega sem medo que é da década de 80, do início dela. E isso não é ruim, lhe dá mais força, contribui para o status de cult que alcançou anos depois. Até o slogan é cult - "Ele tem que entrar onde nenhum homem jamais saiu."

O Duque é o chefão do crime

Veja abaixo o trailer de Fuga de Nova York.

  

domingo, 24 de maio de 2015

APENAS O FIM (2008)

Fica ou vai?

APENAS O FIM (2008) - Pura nostalgia. É assim que eu vejo o primeiro longa dirigido por Matheus Souza, na época com 20 anos. A enxuta história se passa dentro da PUC do Rio de Janeiro. Lá, a namorada diz ao namorado que está cansada de tudo e vai embora, não diz pra onde. Só informa que vai partir em 1 hora e é esse o tempo que eles tem juntos antes da partida. Nesse período, pouco maior que a duração total do filme que é de 1 hora e 20 minutos, o namorado tenta convencer a namorada a ficar, enquanto ela reluta e se mostra firme na decisão.

Ótimos diálogos e um casal afinado

É isso. Nem mais nem menos. E nem precisa. Diálogos precisos e improvisações acertadas do casal protagonista, juntamente com a criatividade de Matheus, que bola planos, trucagens, travelings, e flashbacks que mantém a trama atraente do começo ao final. Tarefa difícil, mas realizada com sucesso por Matheus e equipe.

Flashbacks sempre em PB

A namorada é vivida por Érika Mader (seu personagem não tem nome), uma garota ambiciosa, que quer algo mais da vida, de tudo. Ela claramente, ama seu namorado, esse não é o problema. Isso fica claro no ciúme que ela sente quando o namorado é abordado por outras mulheres.

Desconforto
Gregório Duvivier é o namorado, ainda longe da fama do Porta dos Fundos, mas já mostrando uma facilidade enorme com as palavras e as improvisações.

O flagra durante as gravações

Os flashbacks, curtos e precisos, funcionam como respiro pros diálogos, além de nos fazer conhecer melhor o passado feliz do casal. Cheio de referências que vão desde Vovó Mafalda até He-Man, passando por Star Wars e Godard. Um filme delicioso de assistir, que emociona, de verdade (E digo isso de uma forma muito particular, porque me faz lembrar dos anos de faculdade e da minha namorada, que comecei a namorar na faculdade também. Mas é bom registrar - levamos melhor sorte que o casal do filme, estamos juntos até hoje).
Veja abaixo o trailer de Apenas o Fim.

   

terça-feira, 12 de maio de 2015

HISTÓRIA REAL (1999)

Uma jornada real e inacreditável

HISTÓRIA REAL (The Straight Story / 1999) - David Lynch é um cineasta dos mais imprevisíveis. Capaz de dirigir obras como Estrada Perdida e Cidade dos Sonhos, que beiram o surrealismo e desafiam a compreensão, suspenses como Veludo Azul e até mesmo melodramas como O Homem Elefante e História Real. Além dos mais diversos tipos de curtas metragens, quase todos já postados no youtube. A cada filme, um novo David Lynch, nunca se sabe o que esperar dele. É o que mais me atrai no exótico cineasta.

Lynch em ação

Em 1996 caiu em suas mãos a história de Alvin Straight, um velhinho de 73 anos que percorreu a distância de quase 390 quilômetros dirigindo um cortador de gramas, a uma velocidade de 8 km/h, somente para reencontrar o irmão de 80 anos que enfrentava um problema de saúde. Eles não se falavam há 10 anos.

Todos tentam impedir Alvim de seguir com o plano

História Real conta com Richard Farnsworth no papel de Alvin. Sua atuação é tocante, ele é perfeito no papel do idoso orgulhoso que gosta de fazer as coisas do seu jeito. Seu olhar diz tudo nos momentos de maior silêncio do filme. Farnsworth recebeu uma indicação ao Oscar e outra ao Globo de Ouro.

O silêncio de uma atuação marcante

Alvin vive com a filha Rose, vivida por Sissy Spacek, que sofre de problemas mentais. Ela é feliz, porém amargurada. O governo americano lhe tirou os quatro filhos por considerá-la incapaz de criá-los. Rose por vezes se pega olhando pela janela imaginando como estariam os filhos. Apesar disso, ela se dá muito bem nos afazeres domésticos.

A filha amargurada

Alvin não é impedido pela filha quando começa a lenta viagem. Os outros velhinhos da cidade tentam inutilmente convencê-lo a desistir da ideia, sem sucesso. Ao longo do trajeto, ele encontra uma jovem grávida fugindo da família, uma moça histérica que acabara de atropelar um veado no asfalto e um casal simpático que o ajuda quando o seu veículo de transporte quebra e o deixa na mão.

Relembrando tempos de guerra
Lynch leva o filme na velocidade do cortador de gramas, lento, o que abre espaço para belas imagens dos campos de milho da região e uma trilha sonora das mais tocantes. À época do lançamento, Lynch brincou afirmando que História Real era, sem sombra de dúvida, "o road movie mais lento da história". Mas seria inapropriado fazê-lo de outra forma, a lentidão combina muito bem com todos os demais elementos da trama.

A bela fotografia

O filme, que concorreu a Palma de Ouro em Cannes, é sobre a jornada de Alvin e não se ele encontra o irmão ou mesmo o que eles fazem após o encontro. Isso eu deixo em aberto. Não espere nada mais além disso. Não nos interessa o que acontece depois. Já não é suficientemente inacreditável uma jornada como essa? Coisas da vida real, que nenhum roteirista de cinema seria capaz de escrever.

O Alvin Straight real

Veja abaixo o trailer de História Real.


quinta-feira, 5 de março de 2015

A TEORIA DE TUDO (2014)

A dança que embala os primeiros anos de Jane e Stephen

A TEORIA DE TUDO (The Theory of Everything / 2014) - Cinebiografias são sempre interessantes, porque retratam uma realidade - sempre romanceada - geralmente dura e sofrida. Alguém já se pegou pensando que a vida de Stephen Hawking daria um filme? É fácil falar agora, mas eu já. E deu. A partir de um livro lançado pela primeira esposa de Hawking contando seus anos de namoro, casamento e filhos. A Teoria de Tudo é o resultado dessa adaptação e traz uma equipe afinada. A começar pelo casal protagonista.

Ficção e realidade

Eddie Remayne vive Hawking, um nerd que tenta provar suas teorias físicas mais "absurdas" e quando o faz deixa colegas e professores boquiabertos. Aos poucos, com delicadeza, o filme vai pontuando as dificuldades que Hawking enfrenta em seu dia a dia por conta de uma doença degenerativa. Ele passa a não conseguir segurar uma caneta, levantar uma caneca ou simplesmente andar.

Impressionante semelhança

Após cair e bater a cabeça no chão, é levado para o médico que lhe dá apenas dois anos de vida. A  esclerose amiotrófica aos poucos, vai limando as suas habilidades motoras. O grande privilégio de Hawking é a inteligência privilegiada que o ajuda a se manter firme e otimista quando as condições parecem apenas piorar.

Aos poucos, Stephen vai perdendo os movimentos

Tudo isso não seria possível se não fosse por Jane, a namorada da faculdade, interpretada por Felicity Jones. A sua paixão por Stephen é tão forte que mesmo com a noticia da doença ela insiste para que eles se casem e que vivam o mais intensamente possível dentro daqueles dois anos. Esses anos viram décadas, Stephen se vê confinado à uma cadeira de rodas, sem falar e pai de três filhos. Uma evolução - ou no caso um retrocesso - que é mostrada de forma muito delicada na tela.

Jonathan e Jane se apaixonam

Cansada de cuidar dos filhos e de Stephen, se sentindo completamente dependente, Jane acaba se engraçando com Jonathan, do coro da igreja que ela frequenta. Ele vai à casa dos dois e a ajuda nas tarefas do dia a dia. Stephen não desconfia mas Jane e Jonathan começam a se apaixonar. O amor entre Jane e Stephen, antes eterno, vai se esvaindo e perdendo força.

A enfermeira se torna o terceiro elemento na relação entre Stephen e Jane
Eles se separam, Stephen se casa com uma enfermeira que cuidava dele e Jane vai morar com Jonathan. Mas não nutrem sentimentos ruins um pelo outro, ao contrário. Na cena final, ainda se mostram amigos, ao verem os três filhos já crescidos, correndo pelo jardim. O diretor James Marsh opta então por uma volta no tempo, mostrando as cenas de trás para frente até chegar a uma das mais marcantes do filme, mostrando Jane e Stephen dançando num baile da faculdade.

No final, a volta ao começo

O Oscar de melhor ator para Remayne foi merecido, ele foi melhor que qualquer outro ator na disputa pelo prêmio. Embora falte alguma coisa na sua atuação, não se enxerga o verdadeiro Hawking ali e sim um ator. A Teoria de Tudo vale por Remayne e pela delicadeza do roteiro. Um problema talvez seja a química entre o casal principal que às vezes não funciona muito bem.
Veja abaixo o trailer de A Teoria de Tudo.


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

WHIPLASH - EM BUSCA DA PERFEIÇÃO (2014)

O professor, o carrasco, o dono do filme

WHIPLASH - EM BUSCA DA PERFEIÇÃO (Whiplash / 2014) - Damien Chazelle é amante de música, sempre sonhou em se tornar um bom baterista. Estudou, se esforçou, tocou mas nunca foi além do sonho. Desistiu de se tornar músico e passou a escrever histórias. Uma delas é baseada na sua própria trajetória e se tornou um sucesso como curta metragem no Festival de Sundance de 2013. Damien ganhou um dinheirinho com o curta e resolveu fazer dele um longa. Nasceu aí Whiplash - Em Busca da Perfeição.

Não basta ser bom, tem que ser perfeito

Damien, além do roteiro, assina a direção desse filme minimalista sobre a relação conturbada de um baterista, que só pensa no sucesso, e o professor da escola de música mais renomada do país, que é um verdadeiro carrasco. O papel de Andrew, o baterista, fica a cargo de um jovem desconhecido - Milles Teller -, mas que até pode colher alguns bons frutos da interpretação de um jovem irritante e ambicioso, disposto a pagar qualquer preço para ver seu sonho realizado - o de se tornar o maior baterista de jazz da história.

Andrew e seu sonho

Seu pai é vivido por Paul Reiser, mais conhecido pela série cômica Mad About You, que fez sucesso na TV entre os anos de 1992 e 1999. Outro papel menor mas de grande importância na trama, fica com Melissa Benoist, a menina por quem Andrew tem uma queda e tenta um relacionamento. Eles são os pontos que mantêm Andrew preso à Terra, e que segundo ele, o atrapalham e impedem de alcançar seus objetivos.

Pai e filho, se distanciando

Aí chegamos ao professor da banda, Fletcher, vivido por J. K. Simmons. O cara mereceu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Com folga. Ele é vivo, é a alma do filme, o que nos mantém presos e empolgados pela próxima cena. A sua atuação é precisa, temerária. Só o olhar já dá o recado, mas quando solta o verbo o temor se transforma em medo. Dá pra sentir isso nos atores, na maioria jovens, com quem ele contracena. A sua personificação de Fletcher é soberba, é o que nos faz querer ver e rever o filme outras vezes. 

Perfeição

Em Whiplash - Em Busca da Perfeição, mais uma vez nos vemos naquele embate "aluno esforçado X professor carrasco" de tantos e tantos filmes, mas aqui tem um algo a mais, um diferencial, a atuação de J. K. Simmons.
Veja abaixo o trailer de Whiplash - Em Busca da Perfeição.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

BOYHOOD - DA INFÂNCIA A JUVENTUDE (2014)

Um menino introspectivo e sonhador
BOYHOOD - DA INFÂNCIA À JUVENTUDE (Boyhood / 2014) - Richard Linklater não é um cineasta comum. E portanto não realiza filmes comuns. Palmas para ele por isso. Entre eles se destacam a trilogia Antes do Amanhecer, Antes do Pôr do Sol e Antes da Meia-Noite, filmes de autor baseado somente no encontro casual entre dois desconhecidos, os ótimos diálogos serviram de inspiração para tantos outros filmes. O diretor também inovou ao utilizar a técnica de rotoscópio, que é o desenho sobre cenas previamente gravadas, em filmes como Waking Life e O Homem Duplo. A inovação continua pautando a carreira de Linklater, desta vez com o festejado Boyhood - Da Infância à Juventude.

Linklater em ação

O filme foi gravado com o mesmo elenco, um pouquinho a cada ano, com início em maio de 2002 e término em agosto de 2013. A ideia é mostrar a evolução do menino Mason, vivido por Ellar Coltrane, até se tornar um adolescente e depois um quase adulto.

A evolução na tela

Seus pais são separados e interpretados por Ethan Hawke e Patricia Arquette. Ele, se aventurando, sem emprego fixo, ostentando um carro potente e ela fazendo o papel de mãe e pai, educando os filhos, segurando a barra de criar Mason e Samantha, sua irmã, interpretada por Lorelei Linklater, a filha do diretor.

Filha e mãe em cena

Técnicamente o filme é perfeito, o roteiro nos leva pelas desventuras de Mason com seus melhores amigos da escola, do colégio e das casas onde mora - sua mãe se vê obrigada a mudar de residência e seus filhos de escola por conta de desencontros da vida, entre eles seus namorados, geralmente errantes, bêbados e violentos. Nos finais de semana que passam com o pai, os filhos geralmente viajam, acampam, se divertem no boliche.

Pai tenta puxar papo com o filho, calado

Da escola pro colégio, do colégio para a entrada na faculdade, amores intensos que somem do nada, amizades duradouras de poucos meses, até a fase pré adulta onde tudo muda e outra vida começa. Boyhood acaba do mesmo jeito que começa, com Mason olhando o céu, imaginando como será o depois.

A cena final, o início de uma nova fase

Linklater se preocupou em fazer um filme fincado na realidade com poucos ou nenhum ponto de virada no roteiro, não há uma doença na família, ou morte, ou namoro ou amizade intensa que mude algum planejamento, nada. O filme começa e termina como uma linha única, reta e sem mudanças de direção, como uma viagem por uma estrada lisa, sem fim e sem carros ao redor. Parece como a vida da maioria de cada um de nós e por isso por vezes é tedioso e para cinema não funciona muito. 
Veja abaixo o trailer de Boyhood - da Infância à Adolescência.



quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

NOSSA QUERIDA FREDA (2013)

Freda, uma mulher de sorte

NOSSA QUERIDA FREDA (Good Ol' Freda - 2013) - Alguém teria coragem de questionar a genialidade de figuras como John Lennon, Paul McCartney e George Harrison? Difícil... O Ringo não  é um gênio, mas quem conhece a história dos Beatles sabe, eles nunca seriam o que foram se não fosse pelo baterista e seu espírito, no mínimo, divertido. Como músico Ringo, não tenho medo de afirmar, levou muita sorte.

Querida por todos

Sorte parecida levou o diretor Ryan White, que praticamente recebeu dos céus a história de Freda Kelly. Ela se manteve calada sobre a sua vida desde o início dos anos 70, mas tudo mudou quando Freda virou avó e pensou: "tenho que contar para o meu neto a história da minha vida". Por acaso os fatos chegaram aos ouvidos de Ryan, jovem cineasta que pensou em fazer um filme pequeno para Freda guardar em DVD. Conforme as pessoas foram ouvindo a história, convenceram Ryan a fazer do filme um longa e assim nasceu Nossa Querida Freda.

Fotos caseiras, ao lado de Ringo e George

Freda era uma adolescente no início dos anos 60, quando começou a frequentar o Cavern para ouvir os Beatles, que ainda contava com Pete Best na bateria. Ele ia todos os dias ao bar, chegava antes de todo mundo e ficava lá na frente, trocava algumas palavras com os músicos e chegava a fazer pedidos de música. Se tornou íntima deles. Ela estima que ao todo assistiu 190 das 292 apresentações dos Beatles no Cavern.

Ao lado de Ringo e Maureen, esposa do baterista

Brian Epstein, manager da banda, convidou a jovem simpática, de sorriso fácil, para a função de secretária da banda, já que no período havia caído nas graças dos rapazes. Ela inclusive datilografava. Permaneceu no cargo até depois do final da banda, oficialmente em 1970.

Durante "Magical Mystery Tour"

Freda conta no documentário que participava ativamente das vidas privadas dos integrantes, se tornou amiga pessoal das famílias, principalmente da de Ringo. Ela indicou o endereço da própria residência como sede do fã clube oficial dos Beatles, recebia milhares de cartas todos os dias e se via na obrigação de satisfazer os pedidos da fãs,  geralmente cabelos ou pedaços de roupas dos Fabfour. Outras ainda iam além, mandavam lençol e pediam que o Beatle favorito dormisse nele, só para o pano ficar com o cheirinho. Freda recebia e atendia, conforme ela mesmo diz, todos os pedidos.

Ao lado de Paul

Apesar da riqueza enorme que um documentário desse pode conter, o produto principal (a história da própria Freda), foi muito mal aproveitado por Ryan. Claramente a impressão que fica é que se ele tivesse a oportunidade de refazer esse documentário quando fosse mais maduro como cineasta, sairia algo melhor. Ou ainda, se a história caísse no colo de um cineasta mais experiente, o longa seria bem mais interessante de ser assistido.

Ela estava lá, sempre

Nossa Querida Freda é um filme fraco. Se você já tem algum conhecimento mais aprofundado da história dos Beatles vai terminar o filme com a sensação de que ele poderia ter ido mais fundo, o resultado é raso. A personagem, muitas vezes, não ajuda. Ela se orgulha da sua vida, mas é muito retraída, não parece se abrir com facilidade, tudo para ela parece banal demais "É, o John isso...", "O Paul aquilo..."

Ainda jovem, em uma das inúmeras entrevistas que deu

No momento mais forte do filme, Freda sobe ao sotão e revela caixas e mais caixas de material do fã clube que ela ainda guarda em sua casa, produtos de valor inestimado para qualquer fã da banda, mas que estão mofando no sotão de uma senhora. Qualquer um ficaria horas e mais horas ali desvendando objeto por objeto, mas Ryan decidiu não fazer bom proveito daquilo, foi uma rápida passada, tirou uma ou outra história do sotão e abandonou aquele tesouro. Pobre...

Freda hoje

Pouco se ouve da música original dos Beatles no filme, muito pela dificuldade que é conseguir os direitos das músicas. Mas incomoda a falta que o som da banda faz em alguns momentos, o diretor preferiu até usar outras bandas tocando. Não orna. Altas expectativas para um filme tão fraco, até tecnicamente. Os Beatles, e até a própria Freda, mereciam um registro melhor.
Veja abaixo o trailer de Nossa Querida Freda.  


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

BIRDMAN OU A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA (2014)

O herói que assombra o anti-herói

BIRDMAN OU A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA (Birdman / 2014) - Você conhece a Cha Cha Cha Films? Pois deveria... Ela não é das produtoras de cinema mais atuantes do mercado, longe disso, mas é o ponto comum de três dos maiores cineastas (que é muito mais do que simplesmente "diretores") da atualidade, sem dúvida. Alfonso Cuarón, Guillermo Del Toro e Alejandro González Iñarritú são responsáveis por obras como O Labirinto do Fauno, 21 Gramas, Hellboy, Amores Brutos, Filhos da Esperança, Biutiful, Gravidade... É muita coisa boa. Eles tem a mesma faixa etária, começaram no cinema juntos, são amigos e cada um segue um caminho mais brilhante do que o outro. Ainda bem.

Keaton e Iñarritú

Birdman, dirigido por Iñarritú, é o filme da vez, junto com O Grande Hotel Budapeste, de Wes Anderson. Ambos estão concorrendo em 9 categorias no Oscar. Birdman conta a história de um ator que quer provar ser bom ao dirigir e atuar numa peça da Broadway. Ele está cansado de ser apenas reconhecido por ter atuado num filme de super-herói há quase 20 anos. Papel perfeito para Michael Keaton, que vestiu o traje do Batman nos filmes dirigidos por Tim Burton em 1989 e 1992. Qualquer semelhança aqui não é mera coincidência.

Criador e criatura
Riggan, o ator interpretado por Keaton, ainda sofre com os conturbados relacionamentos, principalmente com a filha (a sempre ótima Emma Stone, embora ache que a indicação dela ao Oscar de atriz coadjuvante seja um pouco demais) e Mike (vivido magistralmente por um sempre ótimo Edward Norton). Zach Galifianakis surpreende em um papel sério e Naomi Watts, desta vez, não rouba a cena.

Norton, Iñarritú e Stone - o melhor de Birdman juntos

São três pontos principais que, na minha opinião, formam a força motriz de Birdman. Em primeiro lugar Edward Norton, que está ótimo. Irritante, petulante e impulsivo (extamante da forma como muitos os descrevem na vida pessoal). Aliás a "semelhança" entre o ator e o personagem foi um dos atrativos para Norton. Caberia bem um Oscar, que seria seu primeiro depois de outras duas indicações - As Duas Faces de um Crime de 1996 e A Outra História Americana de 1998.

Mike, o dono do filme, encurralando Riggan

O segundo ponto importante que garante o sucesso de Birdman é Michael Keaton. Ele não está genial, longe disso (inclusive, a meu ver, ele não merece um Oscar por este filme), mas o fato dele ter aceitado interpretar um personagem tão parecido com ele mesmo (um ator, apenas reconhecido por um papel de super herói, há 20 anos, buscando se provar), é um mérito. Isso nem sempre garante reconhecimento pelos velhinhos da Academia, o exemplo mais recente é o erro (a meu ver) da premiação de 2009 quando Mickey Rourke interpretou o papel da sua vida em O Lutador e foi derrotado por Sean Penn em Milk - A Voz da Igualdade.

Em 2009 no Oscar de melhor ator - uma ótima atuação contra o papel da vida.

O terceiro e mais importante trunfo de Birdman está na forma como Iñarritú escolheu para contar a história. É tudo gravado em plano sequência, mal notamos os cortes, o que faz do processo todo um desafio gigante para produção e atores e facilita bastante a captação e a finalização, todo o filme foi filmado em menos de um mês e editado em duas semanas. Processo parecido foi utilizado em filmes como Festim Diabólico de Hitchcock, de 1948, e Arca Russa de 2002.

A engenhosidade de Iñarritú no seu plano-sequência de quase duas horas 

Merecedor ou não das nove indicações ao Oscar fica a cada um discutir. Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância é sim um belo filme, provocativo e divertido que trouxe à tona um profundo sentimento de coragem, principalmente de Keaton por se expor num papel que lhe renderá comparações eternas. Veja abaixo o trailer de Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância: