FÉRIAS FRUSTRADAS (Vacation / 2015) - Um projeto ousado, isso é inegável. Fazer uma sequência, um reboot e um remake - tudo ao mesmo tempo - de um dos filmes de comédia-família mais cultuados da década de 80. O Férias Frustradas original é de 1983 e dele se seguiram outros tantos filmes e até curtas metragens - todos com Chevy Chase e Beverly D'angelo como os Griswolds. Nenhum teve tanta graça quanto o primeiro que mostra a família numa viagem de carro pelos Estados Unidos para chegar a Walley World, um parque de diversões na Califórnia.
O clássico de 1983
Desta vez, Rusty (Ed Helms) - filho de Clark (Chevy Chase) - quer refazer a viagem que fez quando criança, agora com a esposa, vivida por Christina Applegate, e os dois filhos. Eles alugam um carro albanês com inúmeras funções malucas e começam a viagem. Eles acabam nadando num rio de cocô, descendo uma corredeira selvagem, e cantando Seal - Kiss From a Rose - durante toda o trajeto.
As termas
Randy Quaid, que vive o primo caipirão de Clark no filme de 1983, não pôde reviver o personagem devido a problemas com a justiça canadense. Chris Hemsworth - o eterno Thor - faz o cunhado de Rusty que eles encontram pelo caminho.
Participações especiais
A família acaba reencontrando Clark e Ellen, é claro. Mas a participação dos dois é minúscula, embora dê um refresco para a história e rende algumas risadas. Chevy está velho, gordo, mas não perdeu o timing pra comédia e aquela olhar perdido do Clark. Pena que a participação se resuma a isso - nada mais que uma participação.
Filho e pai
Ao final, eles chegam a Walley World mas tudo se conclui muito rápido, e apressado. E muito sem graça. Ruim mesmo. As Férias Frustradas renderam nada mais do que um filme frustrante e com poucos momentos de risada.
O destino final ainda é Walley World
Pouquíssimas ideias vistas em cenas são originais, tem muita coisa aqui que não passa de cópia da fórmula de sucesso do filme original - a esposa com um passado de "desventuras", um marido que pensa que está no controle da situação, dois filhos que ficam se batendo a viagem inteira, um flerte com uma motorista gata na estrada. Enfim está tudo aí, só que sem o brilho da estrela de Chase. Fica um gosto de "já ví isso" e não tem graça nenhuma.
Algumas cenas são idênticas aos do filme original, faltou criatividade
É difícil para mim enquanto fã do filme original não imaginar com seria esse Férias Frustradas se ele se focasse no Clark e na Ellen. Seria como uma viagem a Walley World trinta anos depois. Seria o máximo! Alguém duvida?
A história gira em torno de uma gangue de rua chamada Warriors. Eles saem de Coney Island, atravessam Nova York para chegar à grande reunião de gangues, onde todos ouvem as palavras de Cyrus, o guru de todas as gangues. Em seu discurso inflamado ele diz que as gangues totalizam 60 mil guerreiros e em toda Nova York não são mais do que 20 mil policiais, ou seja "a cidade é nossa!", ele grita.
O encontro inicial de todos os guerreiros da noite
Mas um tiro vindo do líder de Luther, líder dos Rogues, acerta Cyrus no peito e põe tudo a perder. A correria é geral, a polícia aparece e Luther planta a mentira que os Warriors foram os responsáveis pelo tiro. Aí começa a frenética corrida - os Warriors precisam atravessar a cidade durante a madrugada de volta pra casa, fugindo de todas as gangues.
Um tiro no meio da noite
Aí começa um desfile de gangues e um festival de porradaria pela madrugada. O destino dos Warriors é o metrô, mas no caminho eles trombam com os Turnbulls AC´s - gangue que usa um ônibus e é formada basicamente por sujeitos carecas, que usam camisas sem manga.
Turnbulls AC´s
Eles chegam ao metrô e se sentem em casa. "Agora é só esperar chegarmos na estação final", um deles diz. Mas não é bem isso que acontece. O trem é sabotado, alguém coloca fogo na linha e eles são obrigados a descer na estação seguinte. É o terreno dos Orphans. Lá, eles conhecem Mercy, a mulher que nega os Orphans e vira uma warrior.
Orphans
No caminho, uma briga com policias divide os Warriors. Parte deles segue para o metrô e outra segue pela rua. A turma que vai pela rua é confrontada pela gangue Baseball Furies, rebatedores de baseball com o rosto pintado.
Baseball Furies
A outra parte dos Warriors encontra umas meninas no metrô dando mole. Eles vão pra cima e acabam num bar. Eles mal desconfiam que elas também formam uma gangue - as Lizzies.
Lizzies
Chegando ao metrô novamente, os Warriors se reencontram. E são observados por um sujeito de patins e jardineira. Logo, ele se junta a outros - são os Punks.
Punks
Depois de vencer os Punks na porrada no banheiro do metrô, os Warriors chegam durante o amanhecer ao destino final, em Coney Island. Lá são confrontados pelos Rogues, a gangue que espalhou o rumor sobre a morte de Cyrus ter sido culpa dos Warriors. A briga nem precisa acontecer, por causa da chegada da maior gangue de todas...
Rogues
... os Riffs. Eles comandam todas as gangues. E contam com um verdadeiro exército de guerreiros das ruas. São respeitados, temidos e muito organizados.
Riffs
No final, os Riffs cobram os Rogues de porrada e os Warriors - não todos, mas somente os integrantes que restaram, já que parte morreu ou foi presa - caminham no amanhecer pela praia.
A cena final
São muitos os méritos do filme Warriors - Os Selvagens da Noite. O roteiro é rico em personagens e situações, é impossível ficar entediado com a história. Lendas dão conta que o filme não custou mais do que 800 mil dólares, mas pouco disto se vê em cena. Todos se esforçam muito para passar a impressão que são maus de verdade, que são membros de gangues violentas e dominam as ruas de Nova York.
Uma das cenas icônicas do filme - "Warriors... come out to play-ay..."
Algumas gangues de verdade atuaram no filme, principalmente na cena da reunião geral no parque do Bronx. Várias delas são vistas naquela multidão e na correria depois que Cyrus é alvejado no peito. Histórias de bastidores dão conta que algumas dessas gangues causaram alvoroço atrás das câmeras. Tudo reforça a lenda de um filme que merece o título de clássico.
WALT NOS BASTIDORES DE MARY POPPINS (Saving Mr. Banks / 2013) - Os sete livros da personagem Mary Poppins foram escritos por Pamela Lyndon Travers, entre os anos de 1934 e 1988. Na verdade, Pamela nasceu Helen Lyndon Goff e usava o nome P. L. Travers como seu pseudônimo. Walt nos Bastidores de Mary Poppins é o filme que conta a história do encontro entre Pamela (interpretada por Emma Thompson) e Walt Disney (Tom Hanks) na década de 50, com o intuito de levar a famosa personagem da literatura para as telas do cinema. Além do encontro, o filme retrata a infância dolorida de Helen (Pamela) e como ela tentou melhorar a sua visão de vida através da criação de uma governanta que leva magia a uma casa sem cor - Mary Poppins.
Walt nos Bastidores de Mary Poppins se dedica pouco ao que o título nacional promete, justamente a relação de Disney com a escritora - o que era o grande atrativo para muitos, inclusive para mim. Hancock recorre à flashbacks o tempo todo, mostrando a relação de uma criança e o pai e de como isso influencia na obra de Helen (Pamela). O trailer do filme mostra que a tal criança é a própria escritora.
A infância difícil entre a dura realidade e o lúdico universo criado pelo pai
Uma pessoa de personalidade forte e irredutível, se mostra durona na hora de vender os direitos da sua Mary Poppins para que Disney faça dela um personagem de filme. Ela resiste ao talento e charme do empresário e faz de tudo para que a obra saia do seu jeito - sem desenho, sem palavras inventadas (como Supercalifragilisticexpialidocious), sem infantilidades.
As difíceis negociações
A virada da história acontece quando Disney descobre o nome verdadeiro de Pamela e seu pai, o Mr. Banks - que está no título original do filme. Este é o grande ponto do filme, que seria a virada de toda a história, mas que incompreensivelmente é um ouro já entregue no trailer. Surpresa aqui, não existe nenhuma.
A relação com o pai definiu a vida da menina dali para frente
É impossível para qualquer fã do clássico filme de 1964 não se entusiasmar com uma obra que promete contar como aquele filme foi feito. Mas ao mesmo tempo, Walt nos Bastidores de Mary Poppins irrita e até entedia quando aparece mais um flashback mostrando o passado dela com as irmãs e os pais. Um filme que anda de montanha russa - tem momentos que entusiasma e tem momentos que irrita.
A chegada da governanta - a Mary Poppins real
A melhor parte do filme é justamente quando acaba (é sério!), porque os créditos vão rolando e ao fundo se escutam as conversas reais gravadas das reuniões entre Pamela, Disney e toda equipe, discutindo ideais para o roteiro. De verdade, é a melhor parte do filme.
Veja abaixo o trailer de Walt nos Bastidores de Mary Poppins.
MEDO E DELÍRIO EM LAS VEGAS (Fear and Loathing in Las Vegas / 1998) - Quem é jornalista conhece Hunter S. Thompson, o criador do estilo jornalístico "gonzo", ou seja, a quebra total da barreira entre escritor e personagem, ficção e não-ficção, fazendo com que cada reportagem seja na verdade um mergulho de cabeça no tema. Thompson sempre foi a fundo no mundo da contracultura e das drogas, usava isso como combustível para as suas reportagens. Ele trabalhava na Rolling Stone quando em 1971 publicou uma série de artigos que se transformou no seu livro mais famoso - Medo e Delírio em Las Vegas. O livro virou filme pelas mãos do não menos doidão - e ainda por cima surrealista "Monty Python"- Terry Gilliam.
Gilliam dirige Depp
Raoul Duke, o alter ego de Thompson, é interpretado por Johnny Depp. Ele viaja para Las Vegas para fazer uma cobertura de uma corrida de motos no meio do deserto. Como acompanhante, ele escolhe seu advogado samoano Oscar Zeta Acosta, conhecido como Gonzo e interpretado por Benício Del Toro.
A dupla do filme...
...e a dupla real
O road movie conta com participações para lá de estreladas - Cameron Diaz, Tobey Maguire, Christina Ricci, Harry Dean Stanton e Flea do Red Hot Chilli Peppers - e um roteiro dos mais malucos. Raoul e Gonzo fazem toda a viagem com uma maleta lotada de maconha, cocaína, LSD, mescalina, éter e muitas outras coisas.
O estilo largado de Duke
Medo e Delírio em Las Vegas é uma viagem de ácido que conta não apenas com o roteiro e personagens malucos, mas com uma fotografia e paleta de cores que funcionam neste mesmo propósito. As cores são fortes, extravagantes e os planos são tortos, estranhos, nada convencionais. Quem assistiu Brazil - O Filme de Terry Gilliam tem uma ideia do que a mente conturbada do diretor é capaz de fazer.
Dupla de malucões viajando pelas estradas, à base de muito ácido e outras cositas más
Além do diretor, os atores principais são perfeitos nos papeis - Depp e Benicio encarnam com facilidade e naturalidade dois chapados de ácido. A dupla desfila caras, bocas e gestuais perfeitos.
Duke vivendo uma realidade com coisas inexistentes
Gonzo tentando se manter sóbrio
O resultado no final parece desarmônico. Medo e Delírio em Las Vegas é uma viagem - como já disse várias vezes - das mais profundas por uma amizade baseada no uso das drogas mais pesadas e alucinógenas, mas o filme cansa um pouco. Poderia e deveria ser mais curto. Os primeiros 20 minutos são divertidos, a gente até se pega rindo aqui e ali das trapalhadas dos dois, mas depois de 1 hora começa a ficar meio cansativo. Tem gosto de piada repetida.
Um ambiente dos mais extravagantes
Hunter S. Thompson cortou pessoalmente o cabelo de Depp para o filme. Teve que transformar o astro em calvo.
JULES E JIM - UMA MULHER PARA DOIS (Jules Et Jim / 1962) - O terceiro longa metragem de François Truffaut é baseado no livro de Henri-Pierre Roche, e suas experiências quando jovem. Muito do que está escrito ali aconteceu de verdade, embora romanceado. O roteiro de Truffaut, que assina também a direção e a produção, acrescenta outros elementos que juntos formam, sem dúvida, um dos filmes mais famosos e marcantes da década de 60.
Truffaut (no canto direito) ajuda a carregar a câmera
Na época do lançamento o filme causou polêmica - poucas vezes havia se visto até então no cinema uma historia que colocava uma mulher como protagonista e dois homens meramente como fantoches dela. O filme não funcionaria se a atriz escolhida não tivesse personalidade para tal e isso Jeanne Moreau tem de sobra, é inegável.
O charme de Jeanne Moreau conquistou Truffaut
Ela vive Catherine, uma mulher impulsiva, que faz com os homens da sua vida o que bem entende e o que bem deseja. Moreau quebra os paradigmas da visão conservadora da mulher, onde o que lhe restava era se entregar aos afazeres domésticos, cuidar do marido e dos filhos. Catherine é charmosa e encantadora - e muitas vezes irritante - por tudo isso. Ela não tem pudores ou receios, muito menos medo de realizar as suas fantasias. Na cena mais famosa do filme, ela se veste de homem e aposta corrida com os "amigos" Jules e Jim por um passarela de pedestres.
A cena clássica de Jules e Jim
Jules e Jim são amigos próximos e veem as vidas sofrerem um reboliço depois que Catherine aparece. O amor entre os três é o grande assunto do roteiro, ciúme não existe, pelo menos não de forma escancarada - ela ama os dois e os dois a amam profundamente. Desse jeito, Catherine convence facilmente Jules e Jim a morarem juntos numa casa afastada de um grande centro urbano. Lá, Catherine se divide entre os quartos até que um final trágico encerra a história.
Uma mulher dividindo o amor de dois amigos
Jules e Jim é um filme símbolo da Nouvelle Vague. A produção não contava com mais do que 15 pessoas e pouquíssimo dinheiro, o que fez Jeanne Moreau doar dinheiro próprio para que o filme fosse concluído. Ainda bem, o filme virou um marco e Jeanne uma atriz símbolo do cinema francês e mundial. Dá pra dizer sem medo que o dinheiro foi muito bem empregado.
O charme de Jeanne Moreau
A recompensa veio na carreira sólida que Moreau construiu. Ela nasceu em 1928 e ainda está na ativa - já são mais de 150 créditos por atuação em filmes e mini-séries. Abaixo a belíssima cena de Jules e Jim onde ela mostra também os dotes de cantora.
DÚVIDA (Doubt / 2008) - O texto não poderia ser mais original, é de 2004. O alto teor contestatório da obra lhe rendeu um prêmio Pullitzer - a maior premiação do gênero - e depois no teatro ganhou o Tony - outro prêmio mundialmente famoso. Ir para as telonas era questão de tempo. E foi pelas mãos de John Patrick Shanley - o autor do livro e do roteiro - que o filme chegou aos cinemas em 2008.
Uma relação próxima
Philip Seymour Hoffman, Meryl Streep, Amy Adams e Viola Davis estrelam a polêmica obra sobre um carismático padre (Hoffman) e sua relação com um garoto de 12 anos. Ele é carinhoso com o garoto, conversa aos cantos e o trata com carinho, mas em momento algum do filme vemos ou ouvimos algo que garanta que o padre abusou do menino.
O padre querido pela comunidade
Essa relação próxima desperta a curiosidade de uma freira novata (Adams), que leva a suspeita de que há algo errado na relação para a controladora freira superior (Streep).
Os olhares das freiras se voltam para o "crime" do padre
Ela passa a pressionar o padre para que ele conte a verdade sobre o caso. Tem certeza que o padre é culpado. Ele nega até o fim. A mãe do menino (Davis) é chamada para conversar com a freira superiora. A cena é curta, tem pouco mais de 5 minutos, mas é sem dúvida uma das mais emocionantes de todo o filme.
A freira durona e a mãe com um surpreendente pedido
O padre acaba desligado da igreja e ao final do filme, em outra sequência emocionante, a freira superior desaba em sua intransigência e cai aos prantos sem saber ao certo se o padre tinha culpa no caso ou não. Se sente mal por estar em dúvida. Esta mesma dúvida fica no ar ao final do longa, não sabemos se a expulsão do padre da igreja foi justa ou não.
"Porque você fez isso comigo? Eu não fiz nada!"
Todas as pontas da trama se amarram muito bem. O roteiro enxuto entrega interpretações incríveis do quarteto principal e tem algumas cenas longas com diálogos intensos. É comum que dentro de uma mesma cena os personagens variem de motivações e intensidade nas emoções, isso é mérito completo do texto - infalível, duro e claro, muito atual. O roteiro concorreu ao Oscar, assim como os quatro atores. Pontos fortes de um filme impressionante... para isso não restam dúvidas.
Veja abaixo o trailer de Dúvida.