terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

DUNKIRK (2017)



DUNKIRK (2017) - Não tem como não respeitar um cineasta deste. Sério, não tem. Veja só... Amnésia - thriller policial contado de trás pra frente (!) - a trilogia Batman - quem tem o segundo capítulo (O Cavaleiro das Trevas) apontado como um dos melhores filmes de super herói já feitos - A Origem - que mistura sonho dentro de sonho dentro de sonho e deixa qualquer um simplesmente amarrado na história - e Interestelar - que tem uma história sobre presente, passado e futuro que inquieta, instiga e provoca. Tudo obra da mente pra lá de criativa, caprichosa e claro, um pouco doentia de Christopher Nolan. Faltava nesse curriculum um filme de guerra.

Em Dunkirk, além de assumir a cadeira de direção, Nolan também é roteirista. E começou a bolar o roteiro na década de 90 quando passou pela região com a namorada. Dunkirk é uma pequena cidade francesa à beira-mar que fica à cerca de 50 quilômetros - via mar - da cidade inglesa de Dover. É justamente esta travessia curta que os soldados britânicos sofreram para cruzar em 1940, depois de serem encurralados pelos alemães. Soldados franceses faziam a cobertura dos ingleses por terra. 

O roteiro mostra a batalha de Dunkirk por três pontos diferentes - o píer (chamado de molhe), o mar e o ar. E cada um com uma duração diferente - no caso um dia, uma semana e uma hora. O molhe mostra a visão dos soldados que faziam filas na praia aguardando pelas embarcações que chegariam para tirá-los de lá.

O mar detalha os dramas das embarcações e dos tripulantes que tentavam sair dali e fugir do bombardeio do inimigo. E mais. A evacuação com sucesso - se é que se pode dizer isso em uma guerra - só foi possível porque Winston Churchill, primeiro ministro inglês, pediu à população civil que mandassem suas embarcações até Dunkirk para resgatar os soldados. Civis ajudando diretamente na guerra. A curiosidade é que a história política por trás disso é contada em outro filme que também concorre ao Oscar de melhor filme do ano - O Destino de uma Nação

A terceira etapa coberta pelo roteiro fala sobre a batalha pelo ar entre aviões ingleses e alemães. Uns protegendo a evacuação e os outros, é claro, atirando e jogando bombas em tudo o que se via lá embaixo, tentando atingir embarcações e até mesmo soldados na areia da praia.

A montagem - que por sinal não é à toa que concorre também ao Oscar - é incrível, porque mescla as três batalhas o tempo todo, dando um dinamismo incessante ao filme e que nunca para do começo ao fim. E é curioso o fato de que a montagem não respeita indas e vindas tradicionais de tempo e de personagens, o que dá à trama mais originalidade. É uma característica marcante em Dunkirk.

Poucas vezes fiquei tão preso a um filme de guerra como Dunkirk. Nolan - assim como fizera com Interestelar em 2014 - lança uma bomba no colo de quem assiste e diz "vai, digere aí". Ele consegue se superar a cada filme e mostra que ainda há espaço para roteiros e montagens originais, criativas e rentáveis, é claro. As cenas de bombardeio, tiros e bombas não estão entre as mais realistas do cinema recente - título que cabe a Até o Último Homem de Mel Gibson - mas Dunkirk não precisa disso.

Nolan mostra que cinema sempre pode ser mais. Por isso seus filmes já estão no panteão de grandes obras recentes e o nome do diretor assegurado entre os maiores dos últimos anos e, em pouco tempo, um dos maiores de todos os tempos. Anotem aí.

Veja abaixo o trailer de Dunkirk.   

  








segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

O DESTINO DE UMA NAÇÃO (2017)

Reconhece Gary Oldman?

O DESTINO DE UMA NAÇÃO (Darkest Hour / 2017) - Sabe aquele filme patriótico, daqueles que a gente sai do cinema falando: "nossa, é muito americano"? Pois é, O Destino de uma Nação é a mesma coisa só que do lado inglês. É muito britânico. Joe Wright dirigiu Orgulho e Preconceito e Desejo e Reparação, filmes baseados na obra de Jane Austen. De dramas de época ele entende. E ele se tornou a escolha certeira para dirigir um momento marcante para a Grã Bretanha e porque não, para o mundo.

Joe Wright em ação

Segunda Guerra Mundial. A Alemanha nazista não para de conquistar novos territórios e finalmente chega a Dunkirk, encurralando o exército britânico por terra e pelo mar. Ou eles se entregam fazendo um acordo com os nazistas ou partem para a luta.

Em casa, um homem com as suas inseguranças

Essa decisão coube ao primeiro ministro britânico da época, Winston Churchill, interpretado em O Destino de uma Nação por um irreconhecível Gary Oldman. A maquiagem e a interpretação de Oldman concorrem ao Oscar. O filme ainda pode levar o prêmio de melhor filme, embora eu ache pouco provável.

Ditando para a secretária um dos seus discursos

Churchill assume o segundo cargo político mais importante da Inglaterra - abaixo apenas do rei George VI - em um momento de turbulência e incerteza no país. Aos poucos, Churchill foi colocando a sua marca apoiado nos discursos, sempre incisivos - apesar dos problemas de fala que trouxe desde criança.

O encontro com o rei

Isso não impede que ele tenha destaque em sua principal decisão no cargo. Durante o episódio de Dunkirk - que curiosamente é retratado no filme de Christopher Nolan que também concorre ao Oscar de melhor filme - boa parte dos membros do parlamento votam para que a Inglaterra se renda e faça um acordo com a Alemanha nazista. Cabe à Churchill a decisão final.

Entre oposição e governo

Ele surpreende a todos, e convoca frota de civis para que salvem os soldados emboscados em Dunkirk. O plano dá certo, a Inglaterra não se rende à Alemanha nazista e Churchill sai do episódio como herói. Exatamente aí o filme acaba.

O V de vitória

O grande mérito de O Destino de uma Nação está em Oldman, que entrega um Churchill até engraçado em alguns momentos. O Destino de uma Nação vale como registro de um importante momento da história, mas fica nisso. Sinceramente como obra cinematográfica, nem tanto. Alguns diálogos são longos demais e algumas cenas se arrastam.
Veja abaixo o trailer de O Destino de uma Nação.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

EU, TONYA (2017)



EU, TONYA (I, Tonya / 2017) - A história chocou o mundo dos esportes e pegou muita gente de surpresa. Afinal, não é algo que se espera... Principalmente do meio da patinação artística, um esporte que é quase um balé sobre o gelo. Ainda mais envolvendo duas competidoras tão famosas. Documentários, reportagens e até livros sobre o assunto já foram lançados. É a primeira vez que a história das patinadoras Tonya Harding e Nancy Kerrigan chega ao cinemão.

Na verdade o "incidente" entre as duas é apenas um trecho do filme dirigido por Craig Gillespie. O recorte do roteiro é muito maior. Trata-se da cinebiografia de Tonya Harding (interpretada por Margot Robbie, atriz talentosa que pode ir muito além da arlequina). Eu, Tonya aposta no humor para fugir das cinebiografias tradicionais e isso ajuda a compor melhor o personagem controverso de Harding.

Os personagens são os próprios narradores dos acontecimentos. E tudo começa na infância pobre de Harding, com a sua mãe Lavona (Allison Janney simplesmente sensacional), uma mulher dura, seca, agressiva, impiedosa e que não demonstra qualquer sinal de afeto pela filha ou por ninguém. Palco perfeito para Janney desfilar todo seu talento, que pode - e acredito que mereça muito - ser premiado com a estatueta do Oscar de atriz coadjuvante. Ela já levou o Globo de Ouro pela atuação.

A relação difícil das duas molda uma jovem Tonya também dura e fechada. Desde criança, ainda com 4 anos, ela se acostumou com as competições. E acostumou a estar sempre no alto do pódio. "Ela é sua inimiga, você não vem aqui para fazer amizades", diz a mãe Lavona quando vê a filha criança conversando com outra patinadora.


Com 20, ela namora e se casa com Jeff. Nasce ali uma relação conturbada que envolve brigas constantes, quase sempre resultando em violência, indas e vindas no casamento. Foi uma fase ruim também no gelo. E Tonya, que não ganhava mais nada, chegou a questionar os juízes das notas baixas que levava. A resposta - "patinação não é apenas o que acontece no gelo... ninguém quer alguém como você como um modelo". Tonya largou tudo e se tornou garçonete, como a sua mãe.

Acabou voltando depois da insistência da sua primeira técnica, mas nas classificatórias para os Jogos Olímpicos de Inverno - sonho de qualquer esportista do gelo - ela teve a ideia de assustar uma das concorrentes, Nancy Kerrigan, com uma carta ameaçadora. Quem sabe desconcentrada, Nancy seria facilmente derrotada por Tonya.

Jeff falou com Sean, um amigo todo atrapalhado e com delírios de grandeza que acabou exagerando na dose. Ao invés de mandar as cartas, ele convocou outros caras para machucar Nancy. E durante um treino ela teve o joelho seriamente lesionado por uma paulada. Tonya acabou também incriminada e perdeu o direito de patinar para sempre.

O real e o fictício se mesclam em Eu, Tonya. Os personagens principais da história e jornalistas que cobriram os acontecimentos naquele período se dividem nas opiniões. Mas a maioria afirma que tudo o que aconteceu está no filme, mesmo que um pouco exagerado. Nancy Kerrigan, a vítima, não assistiu no lançamento e disse ter "coisas melhores a fazer". Já Tonya viu o filme e comemorou a forma como a mãe foi retratada, uma mulher má. Até hoje as duas não se falam direito.

A cinebiografia Eu, Tonya faz a quebra da quarta parede com frequência. A todo momento os personagens interrompem ou completam as próprias narrações em cena, como se fôssemos convidados a ver que tudo aquilo é mesmo uma encenação e que se tratam de atores. Boa fórmula e que funciona.

A história é inacreditável - coisa de cinema mesmo - as atuações marcantes e tudo é muito bem conduzido. Difícil achar falhas em Eu, Tonya. Daqueles filmes que depois de assistir você pensa: "porque demoraram tanto para contar essa história?" Real x Fake, Verdade x Romance... No fim das contas não importa. Eu, Tonya funciona como um bom drama real recheado de alívios cômicos. Afinal, não é tudo o que se espera de um bom filme?

Veja abaixo o trailer de Eu, Tonya.

   

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

THE POST: A GUERRA SECRETA (2017)



THE POST: A GUERRA SECRETA (The Post / 2017) - Alguns assuntos nunca saem de moda - como por exemplo a imprensa sendo usada como ferramenta para derrubar ou denunciar governos autoritários. Os mesmos governos que evitam a imprensa para que não sejam divulgados seus segredos/crimes mais escabrosos. Uma das obras mais famosas com essa temática é Todos os Homens do Presidente, que contou o caso de dois jornalistas do The Washington Post que jogaram no ventilador o escândalo de Watergate e tiveram papel fundamental na queda/renúncia do presidente Richard Nixon em 1974.

Em The Post: A Guerra Secreta, um time de titãs das telonas - Steven Spielberg, Tom Hanks e Meryl Streep - se junta para contar a história real de jornalistas do mesmo The Washington Post, um dos mais respeitados jornais impressos dos Estados Unidos, que recebeu, no começo da década de setenta, uma série de documentos secretos que afirmavam que a Guerra do Vietnã foi uma fraude.

Em outras palavras, jovens americanos foram enviados ao país oriental apenas para evitar uma humilhação maior - que seria a derrota norte americana para um país belicamente inexpressivo. Propósito na guerra do Vietnã não havia nenhum. Cerca de 70% das vidas que se perderam lá - segundo dados mostrados no filme - foram à toa.

Os documentos que comprovam as informações foram entregues ao jornal The New York Times, mas o governo Nixon conseguiu, através de uma ordem judicial, evitar que fossem publicadas. Coube ao The Washington Post publicar ou não. Kat Graham (Meryl Streep), a dona do jornal à época, decide peitar o presidente e publicar tudo. Ben Bradlee (Tom Hanks) é o editor chefe da equipe que transformou milhares de páginas do documento no texto que estampou a capa do jornal.

A mensagem de The Post, além é claro de trazer à tona uma história impressionante onde a ditadura à imprensa quase venceu a notícia, é totalmente anti-Trump. Spielberg, que já se mostrou contrário às visões do atual presidente norte americano, entrega um filme essencial e que funciona como uma mensagem pra lá de efetiva.

Além disso, The Post é uma ode ao jornalismo que flerta com Todos os Homens do Presidente, não só no resumo como na amarração final. O filme de Spielberg termina exatamente no momento em que Nixon faz uma ligação proibindo qualquer jornalista do The Washington Post de manter contato com alguém da Casa Branca. "Nada de notícias pra eles". E enquanto isso luzes de lanterna são vistas no escritório do partido democrata, escancarando o escândalo de Watergate.

O longa de Spielberg foi indicado a 6 Globos de Ouro - não levou nenhum - e a 2 Oscar, melhor Filme e melhor atriz para Meryl Streep. Desta vez, aposto que sairá de mãos vazias, ao contrário do Spotlight, que tem uma temática parecida e faturou 2 estatuetas na premiação de 2016.
Veja abaixo o trailer de The Post: A Guerra Secreta.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

VIVA - A VIDA É UMA FESTA (2017)



VIVA - A VIDA É UMA FESTA (Coco / 2017) - Reparou no nome original? Coco... mas no Brasil virou Viva. A principal justificativa para mudar o nome do filme por aqui é pelos trocadilhos que seriam criados se o nome tivesse se mantido. Viva ganhou o subtítulo de A Vida é uma Festa. OK, funciona também, mas é curioso constatar essa preocupação tão clara nos produtores de mais uma animação da Pixar.

Miguel é um garoto mexicano de uma família de longa tradição no ramo da sapataria. Mas seguir este mesmo caminho de tios, primos e irmãos não é um desejo dele, nunca foi. Ele não gosta, não quer ser sapateiro. O seu grande sonho é ser cantor, assim como Ernesto de La Cruz, seu maior ídolo.

O problema é que toda a sua família, em especial a sua avó, é contra qualquer tipo de música. Na verdade ninguém pode sequer dedilhar um violão, ou cantarolar algo baixinho que ela já arranca o chinelo e sai batendo em quem for. Isso tem a ver com a história da família...

Chega o Dia dos Mortos - tradição mexicana que homenageia as pessoas que já se foram - e como é costume, todos se pintam como caveiras coloridas e seguem pro cemitério da cidade. Miguel descobre - de um jeito que não preciso revelar aqui - que é possível ir pro mundo dos mortos. E do lado de lá também eles comemoram essa data. E mais, eles atravessam uma ponte que liga os dois mundos para ficarem mais próximas das pessoas vivas que as homenageiam.

Poucas vezes assistindo uma animação eu fiquei tão preso à história. Além de curiosa, ela é bem contada, engraçada e tem os seus momentos de "lá vem a lição de moral". Mas tudo isso embrulhado num pacote muito atraente e colorido, marca já registrada da Pixar. O filme levou o Globo de Ouro e deve levar também o Oscar de melhor animação.

O trecho final é... marcante, pra dizer o mínimo. As crianças ficam ligadonas, mas são os adultos que sentem aqui. Deu para escutar fungadas e soluços de choro pela sala de cinema toda. Inclusive meus. Nunca chorei tanto vendo um filme no cinema. Mais um tiro certo da Pixar. Uma mescla perfeita de animação para crianças e adultos.

Veja abaixo o trailer de Viva - A Vida é uma Festa.             




terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

A FORMA DA ÁGUA (2017)

Muito mais que uma história de amor

A FORMA DA ÁGUA (The Shape of Water / 2017) - Pense em um cineasta que gosta de uma bela fábula... Agora junte à isso algumas criaturas fantásticas, sempre com maquiagens impressionantes... Além é claro de uma quantidade razoável de violência e bizarrices... E que tal usar como pano de fundo fatos reais? Ah, aí é Guillermo Del Toro na cabeça!  

Del Toro em ação

Em Hellboy (nazismo) e O Labirinto do Fauno (guerra civil espanhola) já foi assim. Em A Forma da Água, Del Toro usa a guerra fria EUA X URSS em plenos anos 50 para contar uma fábula de amor que arrebatou nada menos do que 7 indicações ao Globo de Ouro (levando 2) e 13 indicações ao Oscar.

Eliza e Zelda

Eliza - muda - e Zelda - faladeira que só ela - são faxineiras que trabalham em um local de experimentos secretos do governo americano, como já disse, em plena guerra fria. Lá, o foco principal está numa criatura aquática-humanóide encontrada na Amazônia que - eles acreditam - pode ajudar a inteligência norte americana a superar a russa de alguma maneira. Nas palavras de um dos oficiais: "os russos mandaram uma cadela pro espaço e logo depois um ser humano". 

Projeto secreto

Eliza vê na criatura algo diferente e se apaixona por ela, não pela sua beleza, mas porque ela é a única "pessoa", digamos assim, que a vê como as demais e não a distingue por sua diferença - no caso a ausência de fala. Paralelo a isso, uma trama fantástica bolada por um roteiro original magnífico que cria subtramas e dá peso a cada personagem. Tem espionagem, agentes duplos e uma dura crítica a uma sociedade intolerante que escondia muita sujeira embaixo do tapete do "perfeito american way of life". Por isso não pense que A Forma da Água é simplesmente a história de amor de uma muda por um peixe. Nada disso! 

O vazio de cada um

O filme é pensado milimetricamente. Em cada cena você vê o esforço de Del Toro e equipe, a começar pela paleta de cores que varia do azul-esverdeado para o bege-amarelado e termina no vermelho. Sem falar na reconstituição de época que é linda, e na trilha sonora que funciona como uma passagem de ida para uma época que dá saudade, mesmo para quem nasceu muuuito depois dela. E claro, ouvir Carmen Miranda tocando num blockbuster assim é sempre muito legal, né? 

O laboratório

Octavia Spencer faz história com sua terceira indicação ao Oscar - no caso de atriz coadjuvante - mas vamos combinar... é sempre o mesmo papel! Histórias Cruzadas, Estrelas Além do Tempo e A Forma da Água, ela sempre faz a mulher que fala demais, tem as tiradas engraçadas - e os olhos esbugalhados ajudam, é claro.

Duas atrizes e duas indicações ao Oscar 

No mais, o roteiro original de fábula fantástica com um pé nos acontecimentos reais - coisa que os velhinhos da Academia adoram - está bem no páreo. Tem algumas coisas um tanto quanto piegas, tipo aula de escolinha ensinando o que é racismo e preconceito sexual que não precisava, mas tudo bem. Tudo se dilui (já que estamos dentro d´água, não é?) nessa grande história...

Não mexa com esse deus da Amazônia

A Forma da Água, assim como outras obras de Guillermo del Toro são muito mais do que aparentam. É um filme em camadas, como uma casca de árvore, sempre tem algo mais além daquilo e os personagens secundários tem uma importância tão grande quanto os principais e fazem deste um dos grandes filmes do ano. E, porque não, uma volta em grande estilo à cadeira de direção de Del Toro, que estava meio sumidão dos cinemas, se dedicando mais à telinha com sua série, The Strain. Que volte pra ficar, né?

Eliza e a criatura

Veja abaixo o trailer de A Forma da Água.


domingo, 11 de fevereiro de 2018

BALADA DE UM HOMEM COMUM (2013)

Um errante bon vivant

BALADA DE UM HOMEM COMUM (Inside Llewin Davis / 2013) - Não é bem uma história real... mas ao mesmo tempo não é nada fictícia. O drama dos irmãos Coen revisita a Nova York palco do folk, lá no comecinho dos anos 60 em um período pré Bob Dylan.

A semente da folk music

O filme é baseado na autobiografia do cantor Dave Van Ronk, que no filme ganhou o nome de Llewin Davis interpretado pelo ótimo Oscar Isaac. A todo custo ele tenta deslanchar na carreira depois do suicídio do seu parceiro. Um recomeço nada fácil... Davis passa as noites de favor em casas de amigos, dorme em sofás de bairro em bairro, e claro sempre na dependência de encontrar outra lugar para tocar, geralmente um muquifo.

O vinil real à esquerda e o do filme à direita

Um vida errante. Tudo o que Davis "toca dá errado", parafraseando uma ex-namorada, que por sinal acaba de descobrir que está grávida - possivelmente dele. O músico arruma um médico clandestino para fazer um aborto. E mais confusão - Davis acaba dormindo no sofá de um casal e deixa o gato escapar pela cidade. Corre por todo o canto - durante boa parte do filme - procurando o tal bichano.

Com o gato vira-lata, o paralelo para a sua própria existência

São muitas as participações especiais no longa dos irmãos Coen - Justin Timberlake, John Goodman, F. Murray Abraham (o eterno Salieri de Amadeus), e Adam Driver (antecipando em dois anos o confronto de Kylo Ren de Driver com Poe Dameron de Isaac que se encontrariam em 2015 no Star Wars ep. VII - O Despertar da Força).

Isaac dividindo cena com Timberlake e Driver

Balada de um Homem Comum é escrito, produzido, dirigido e editado pelos irmãos Coen. O anti-herói de Isaac pede a nossa pena e compaixão a cada cena com seu olhar de gatinho abandonado - o paralelo traçado brilhantemente pelo roteiro dos Coen comparando o animal perdido com o protagonista.

Nova York do começo dos anos 60

A redenção não chega para Davis, o sucesso nem sequer flerta com ele. Em um determinado momento, de longe, de relance, vemos um Bob Dylan garoto começando uma canção. É como se o filme ali afirmasse - "quer ver história de sucesso? É com aquele ali (Bob Dylan), mas neste filme veremos o fracasso em forma de pessoa e de cantor". 
Veja abaixo o trailer de Balada de um Homem Comum.

      

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

ME CHAME PELO SEU NOME (2017)




ME CHAME PELO SEU NOME (Call me by your Name / 2017) - A indicação ao Oscar de roteiro adaptado não é à toa. O livro que também se chama Me Chame pelo seu Nome é um sucesso e ganhou prêmios mundo afora. Só de assistir o filme já se percebe que a história funciona nas letrinhas, sabe? E isso às vezes se perde em uma tradução mal feita para as telonas ou quando cai nas mãos de grandes estúdios que picotam tudo e deixam o filme simplesmente irreconhecível perto do livro. Ainda bem que não é o caso deste, dirigido pelo italiano Luca Guadagnino.

Tudo se passa em uma pequena cidade no norte da Itália no começo dos anos 80. Oliver, é um americano (Armie Hammer) que se hospeda na casa de uma família e pretende passar um tempo longo lá, pensa até na possibilidade de abrir uma conta no banco da cidade. O casal e o filho de 17 anos, Elio, recebem o americano de braços abertos, mas aos poucos ele passa a incomodar pelo seu jeito prepotente.

O cenário do interior da Itália é outro personagem do longa, tudo por lá é colorido, florido e ensolarado. E tudo ajudado pelo programa preferido de Oliver e Elio, andar de bicicleta para conhecer a região. Em pouco tempo Oliver faz amizade com os velhinhos da cidade e até com os amigos de Elio. O jovem, é claro, se irrita.

Mas aos poucos o que é incômodo se torna fascínio. Elio está se descobrindo e se vê apaixonado por Oliver. E para a surpresa deste, Oliver não nega o sentimento. Mas a princípio tudo é muito físico, quente e apaixonado. Com o tempo - e a partir deste ponto o filme de Guadagnino não se faz de rogado - a relação dos dois fica séria e esbarra no sentimento profundo, no amor mesmo.

Não vou dizer aqui o que acontece no trecho final, mas não posso fechar este texto de Me Chame pelo seu Nome sem falar de um dos momentos - se não o momento - mais emocionante de todo o filme. Sr. Perlman (Michael Stuhlbarg), o pai de Elio, senta com o filho no sofá da sala e discorre um monólogo muito bem escrito e atuado. Um texto que me arrisco a dizer, se tornará a marca deste filme e um dos motivos que farão ele ser lembrado por muito e muito tempo.

O problema de Me Chame pelo seu Nome está no ritmo. A história às vezes se arrasta, reforçado e/ou apoiado no texto do livro. E mais - Armie Hammer perdeu uma boa chance de se mostrar além do que um rostinho bonito. Apesar de algumas sequências emocionantes, Hammer está sempre com a mesma cara, o mesmo olhar e o mesmo tom de voz. Poucas coisas abalam a sua atuação.

Totalmente diferente de Timothée Chalamet que vive o jovem Elio. O rapaz de 22 anos está magnífico, variando as intenções e se entregando ao personagem seja com momentos de ternura com a mãe, de carinho com o pai ou de amor com Oliver. Indicação ao Oscar para ficar no currículo.

Veja abaixo o trailer de Me Chame pelo seu Nome








quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

MUDBOUND - LÁGRIMAS SOBRE O MISSISSIPI (2017)

Um caixão a ser enterrado

MUDBOUND - LÁGRIMAS SOBRE O MISSISSIPI (Mudbound / 2017) - "Xi, lá vem mais um filme sobre racismo...". O tema polêmico é mesmo uma constante no cinema norte americano. Algumas dessas produções estouram, como Django Livre (2012) e 12 Anos de Escravidão (2013), só para ficar em títulos mais recentes. A história - que no fundo parece ser sempre mais do mesmo - por vezes surpreende e traz um ar de novidade a um tema difícil de ser abordado. É o caso d Mudbound - Lágrima sobre o Mississipi, o primeiro filme da Netflix a chegar com tudo no Oscar.

Blige - atuação que a tira do lugar comum

A história, baseada em um livro escrito em 2008, conta a relação de duas famílias - uma negra e outra branca - em um dos estados mais tradicionalistas na já preconceituosa década de 40. Os irmãos brancos Henry e Jamie tem uma boa diferença de idade. O mais velho se muda com o pai, a esposa e a filha pequena para um rancho. La, já moram Hap (Rob Morgan em sensacional atuação, apesar de ignorado nos grandes prêmios), a esposa (Mary J. Blige que concorre à estatueta de atriz coadjuvante) e os filhos. Henry já chega como senhorio e Hap não questiona o trabalho escravo que é imposto a si e a sua família.

Hap e seu filho Ronsell

Jamie, o irmão mais novo, gosta de farra e ajuda pouco a família no rancho, além de não ter uma boa relação com o pai. Apesar disso ele respeita Henry, por vezes demonstra até mais respeito por ele do que pelo próprio pai. Tudo isso enquanto alimenta um sentimento silencioso por Laura, a esposa de Henry.

Henry e Laura

A grande virada do filme acontece com a Segunda Guerra. Chegam as convocações. Jamie e Ronsell (filho de Hap) estão na lista e o filme muda. Ronsell experimenta na Europa uma realidade sem racismo, ele até namora com uma belga loira. E nos braços dela afoga a dor de ver jovens como ele perderem a vida, brancos ou negros. Jamie por pouco não morre em combate, ele chegou a ser salvo por outros soldados... negros.   

Amizade

Os dois voltam intactos. Jamie, agora um herói de guerra, tem que enfrentar o pai. Já Ronsell, mesmo ostentando o uniforme de combatente reencontra o racismo e o preconceito em Mississipi. E, é claro,  o final desta história só poderia se trágico. Daqueles que surpreendem e ao mesmo tempo assustam. Embora a última cena, que foi escrita especialmente para o filme e não existe no livro, seja bem carregada na emoção.

Dee Rees em ação

O roteiro é genial. E transforma cada personagem em narrador da história. A sensibilidade é da roteirista e também diretora Dee Rees. E concorre ao Oscar de melhor roteiro adaptado. E tem chance de levar. Uma história como a de Mudbound - Lágrimas sobre o Mississipi navega entre o sentimentalismo e a pieguice. Por isso ela se apóia tanto no roteiro, na direção e claro nas atuações. E tudo nessa equação funciona graças ao talento de Dee Rees.
Veja abaixo o trailer de Mudbound - Lágrimas sobre o Mississipi


domingo, 4 de fevereiro de 2018

LADY BIRD: A HORA DE VOAR (2017)



LADY BIRD: A HORA DE VOAR (Lady Bird / 2017) - Não precisa ser filmão, blockbuster ou um estouro de bilheteria para "chegar chegando" nos grandes festivais. Isso já virou uma tradição. Moonlight, Boyhood, Pequena Miss Sunshine... e tantos outros. Esse ano como filmes mais modestos, digamos assim, temos Corra!, Me Chame pelo seu Nome e Lady Bird. Esse último tem atores pouco conhecidos, quase não tem efeitos de CGI (se é que tem) e um roteiro (comparado com tantos outros projetos) simples de ser realizado. Custou 10 milhões de dólares (ok, não é dinheiro de pão, mas nem se compara com os 50 milhões de The Post: A Guerra Secreta ou os 100 milhões de Dunkirk, outros dois concorrentes ao Oscar de Melhor Filme). 

Greta Gerwig, roteirista e diretora de Lady Bird, é novinha, tem só 34 anos e já acumula duas indicações grandes na carreira - melhor filme e melhor roteiro original, tanto no Oscar quanto no Globo de Ouro.

Christine "Lady Bird" (Saoirse Ronan mostrando que pode ir além do rosto bonito) é uma garota de 17 anos que mora no subúrbio e gostaria de ter mais, ser mais. A rebeldia da jovem não fica apenas nos cabelos coloridos e desregrados. Ela e a mãe (a ótima Laurie Metcalf) discutem o tempo todo, brigam do nada e segundos depois são capazes de se abraçar e trocar palavras de carinho. A química entre as atrizes é incrível, o trailer já deixa isso muito claro, a relação das duas é a melhor coisa do filme.

A relação com o irmão, adotado, e a namorada deste também é de amor e ódio (mais de ódio na verdade), mas com o pai é de puro carinho. Ele faz tudo pela filha, por trás da mãe. O pai sabe que a menina precisa de um ambiente mais leve do que somente a dureza que a relação com a mãe impõe.

Na escola ela é amiga da gordinha nada popular mas que tem uma grande beleza interior, namora um cara bonitinho do teatro que depois se descobre gay, faz amizade com a metidinha e popular do colégio e perde a virgindade com um cara que parece príncipe e depois se mostra um babaca.

Enfim, Lady Bird retrata o final dos 17 e a chegada aos 18, a escolha da faculdade e o afastamento de casa, das famílias e amigos. O problema a meu ver é que... é só isso. O roteiro parece servir muito mais para um livro do que para um filme. Nada (ou muito pouco) acontece e pontos de virada praticamente não existem. A história segue até o final com seu ritmo totalmente linear e previsível.

Ao mesmo tempo entendo que a proposta de Lady Bird é retratar o final de uma fase importante e o começo de outra na vida de uma adolescente. Nesta fase as relações com os pais, irmãos e amigos, sejam relações conflituosas ou não, fazem toda a diferença e ajudam a montar a pessoa que cada um será. Se a ideia de Greta era simplesmente retratar essa fase da vida ela conseguiu! E mais, com muita sensibilidade, produto raro em muitos roteiros recentes.

Veja abaixo o trailer de Lady Bird: A Hora de Voar.












sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

SELMA: UMA LUTA PELA IGUALDADE (2014)

A marcha
SELMA: UMA LUTA PELA IGUALDADE (Selma / 2014) - Não é a primeira vez que essa história é contada. E não será a última. Todo mundo conhece pelo menos uma frase daquele discurso do "I have a dream" do pastor e ativista político Martin Luther King. Pois bem, aqui outro ponto fascinante da biografia de King é retratado.

King real e fictício

Tudo é centrado em uma única ação - a marcha de quase noventa quilômetros entre Selma, uma cidade com sérios problemas raciais e Montgomery, a capital do Alabama, um dos lugares mais preconceituosos dos Estados Unidos naquela metade da década de sessenta. Tudo motivado pela morte do jovem negro Jimmie Lee Jackson pela arma de um soldado branco que passou 45 anos sem pagar pelo crime.

Violência policial

Selma foca não apenas em King e a marcha, mas no trabalho duro de convencimento junto ao presidente norte americano Lyndon Johnson para evitar um verdadeiro massacre lá. E a resposta em parte foi "vocês estão marchando lá porque querem". E King, ao lado de outros tantos ativistas seguiu com a marcha, tanto para protestar pela morte de Jackson como para lutar pelos direitos dos negros ao voto. O intuito principal era que nas próximas eleições eles pudessem escolher alguém que olhasse com mais carinho para a causa negra.

Realidade e Ficção: Lyndon Johnson com King

Na primeira tentativa da marcha poucas pessoas e um massacre, policiais espancando sem dó os negros. Na segunda, com cobertura da mídia e uma boa participação de pessoas brancas compadecidas pela causa, a polícia não agiu. King com receio de que seria uma emboscada voltou atrás.

King decide não seguir com a marcha

Na terceira e última tentativa um volume impressionante de pessoas se juntou à marcha e chegou finalmente, em paz à Montgomery onde King discursou em frente ao gabinete do governador. Neste ponto o filme termina.

A ponte Edmund Pettus atravessada pela marcha de King 

É essencial que histórias assim sejam contadas e imortalizadas por bons filmes. No caso, Selma: Uma Luta pela Igualdade cumpre muito bem este papel. A tensão daquele período e o confronto de etnias está muito bem explorado aqui e chega a extrapolar o limite da tela.


Momentos da história real de Selma

Mas é bom que se diga que David Oyelowo, que interpreta King, não conseguiu traduzir a dimensão que o personagem precisa, apesar da sua indicação ao Globo de Ouro. Se não dele, a culpa pode ser do roteiro que não possibilitou ao personagem toda a grandeza necessária. Mas não compromete não. Tanto que o longa, dado a importância histórica de tratar de um tema tão atual, concorreu ao Oscar de Melhor Filme.

David Oyelowo

Outro problema de Selma está justamente no ritmo do trecho final, tudo se resolve muito rápido, merecia um melhor desenvolvimento ali, princialmente dos personagens. E não simplesmente letreiros na tela explicando onde cada um foi parar.
Veja abaixo o trailer o trailer de Selma: Uma Luta pela Igualdade.