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quinta-feira, 14 de novembro de 2024

TIPOS DE GENTILEZA (2024)



TIPOS DE GENTILEZA (Kinds of Kindness / 2024) – Dificilmente alguém ache algo convencional em uma obra escrita e dirigida por Yorgos Lanthimos. A sua principal característica é sempre ir na contramão disso e causar desconforto tirando o espectador do prumo, do rumo. Assistir um longa dele é como passear numa montanha russa no escuro, nunca se sabe onde é a chegada e como vai ser a jornada. Em A Favorita, Lanthimos experimentou o mais próximo do que se pode chegar de um trabalho mais tradicional, mesmo assim tem umas maluquices do diretor aqui e ali. Pobres Criaturas é de longe o seu maior sucesso comercial e chegou até a fazer barulho na premiação do Oscar daquele ano, apesar da abordagem nada convencional da sua personagem principal feminina.

Em Tipos de Gentileza, Lanthimos experimenta ainda os louros do seu último sucesso comercial, entregando uma obra que visivelmente traz mais investimento que alguns filmes anteriores. Mesmo assim, aqui Lanthimos está muito menos bizarro e mais comedido. Pra quem conheceu o trabalho do diretor por Pobres CriaturasA Favorita, esse filme parece bizarro. Mas para quem conhece ele de Dente Canino e O Sacrifício do Cervo Sagrado, ele está normalzinho e contido até demais.

Tipos de Gentileza conta três histórias, com o mesmo grupo de atores, vivendo diferentes personagens. Na primeira história (a melhor), um homem (Jesse Plemons) é totalmente comandado por ser chefe (Willem Dafoe) que lhe diz ate o horário que deve almoçar, se deve emagrecer ou não, é a que horas deve fazer sexo com a esposa. A relação tóxica de dependência piora quando o homem tenta quebrar esse ciclo.

A segunda história fala de uma mulher (Emma Stoneque está desaparecida em alto mar para desespero do seu marido (Plemonsque não tem notícias. De repente ela aparece, mas o marido desconfia que aquela pessoa não é sua mulher e sim uma impostura muito parecida. Até que ele passa a ter uma ideia bizarríssima para fazer com que aquela mulher prove que é a sua verdadeira esposa.

E a última história fala de um casal (Plemons Stoneque faz parte de uma seita regada à sexo e que o líder (Willem Dafoee sua esposa, pretende trazer cadáveres de volta à vida. Loucura total, com uma boa dose de humor não intencional e situações bizarras. 

O único problema de Tipos de Gentileza como um todo é o bendito do filme episódico. Difícil se envolver em um filme assim, porque as ideias não têm tempo de serem bem desenvolvidas. Quando a gente começa a se envolver, ela acaba.

De qualquer forma, mesmo com mais investimento, Lanthimos não abandonou suas origens do bizarro e conseguiu o que queria. Jesse Plemons, Willem Dafoe e Emma Stone estão geniais, principalmente Stone que tem mudanças sutis que deixam seus personagens ainda mais ricos.

Não é de hoje que Lanthimos se transformou num dos mais importantes cineastas em atividade e continuará sendo... só espero - e torço profundamente - para que ele nunca abandone a sua origem. 

Veja abaixo o trailer de Tipos de Gentileza.



segunda-feira, 13 de maio de 2024

POBRES CRIATURAS (2023)

 


POBRES CRIATURAS (Poor Things / 2023) – Amo os filmes de Yorgos Lanthimos. Esse diretor grego conta histórias nada comuns usando personagens e situações que desafiam, chocam e ficam com a gente, mesmo depois do fim do filme. Em Dente Canino e O Sacrifício do Cervo Sagrado, Lanthimos se mostrou um cineasta com gosto peculiar pelo bizarro. Em O Lagosta ele optou por uma distopia maravilhosa e em A Favorita, ele aceitou o desafio de pegar um projeto em andamento e por isso mal conseguiu dar a sua cara. E isso é justamente o que não acontece em Pobres Criaturas.

Aqui ele cria o mundo que imaginou. Me arrisco dizer que Lanthimos nunca tenha se sentido tão à vontade durante uma produção. O filme tem uma assinatura, uma cara, uma digital muito própria, assim como Burton e Nolan imprimem em suas obras. O que me fez ser ainda mais fã do cineasta.

Emma Stone produz o longa e interpreta Bella, uma espécie de Frankenstein feminina. O seu “pai” é um cientista maluco vivido por WillemDafoe que regata seu corpo do rio Tâmisa em Londres, e faz uma operação maluca, colocando nela o cérebro do feto que ela carregava na barriga. Bella sobrevive, mas com sérios problemas cognitivos de fala e coordenação motora.

Ela começa a se desenvolver bem lentamente e aprende a usar o sexo como forma de se divertir e usar os parceiros. Vale ressaltar que Stone nunca esteve tão desinibida num filme antes. Mas nada aqui é sensual... é tudo cru, mecânico, puramente carnal, porque Bella nem sabe fazer de outra forma. Tudo é visto do ponto de vista dela. É ela quem começa e termina seus breves relacionamentos, o que deixa seus parceiros enfurecidos.

Como o mulherengo Duncan, vivido por Mark Ruffalo, que fica perdidamente apaixonado por ela, justamente pelo fato de ela ser completamente diferente de qualquer outra mulher. Ela faz o que quer, vai para onde quer e do jeito que quer, quando quer. Ela roda várias partes do mundo ao lado de Duncan.

Aliás, o mundo criado por Lanthimos é fenomenal. Tudo é colorido, com formas e tamanhos curiosos, bem diferentes dos comuns. O colorido do mediterrâneo português, a brancura da neve francesa em contraste com o colorido forte e gasto do cabaré, o cinza londrino... tudo é pensado à dedo e muito bem executado pela equipe comandada por LanthimosPobres Criaturas é sem dúvida, o filme mais bem acabado e caprichado do cineasta.

Ainda acho inferior a outros filmes de Lanthimos, mas Pobres Criaturas ocupa um lugar de destaque na filmografia dele. E merece. Com Pobres Criaturas, ele carimba o passaporte para ocupar um posto entre os grandes do cinema atual. Merecido. Só torço para ele jamais perder sua essência e o gosto pelo bizarro.

Veja abaixo o trailer de Pobres Criaturas.