quarta-feira, 11 de julho de 2018

DOENTES DE AMOR (2017)

Encontro inesperado

DOENTES DE AMOR (The Big Sick / 2017) – O título em português é horrível. Até demorei pra assistir este filme pelo nome. Verdade. Passa uma imagem de ser uma comédia romântica rasa, bem sessão da tarde mamão com açúcar. Não poderia estar mais enganado. O roteiro do filme, baseado na vida do protagonista Kumail, concorreu ao Oscar, muito por conta de uma despretensiosa história que levanta uma série de questões bem atuais.

O diretor Michael Showalter (de pé) em ação

Kumail é paquistanês que há tempos mora nos Estados Unidos com os pais e o irmão, porém não dividem o mesmo teto. Ele divide um apartamento pequeno com um amigo e passa boa parte do seu tempo no bar onde se apresenta em shows de stand up. O resto do dia ele passa levantando dinheiro como motorista de uber. Em uma das apresentações ele conhece Emily e começam a sair. A química rola bem e começam a namorar. O problema é que Emily é loira e não tem nada de paquistanesa. Por isso ele não conta pra família tradicional sobre a namorada americana. E a mãe de Kumail continua apresentando ao filho mulheres paquistanesas. Pela cultura deles o casamento é arranjado entre as famílias. Kumail se enrosca por não contar para uma sobre a existência da outra.



Os pais dela

SPOILERS

Esse poderia ser o único plot de Doentes de Amor, mas como disse antes, está não é uma comédia romântica tradicional pura e simples. O namoro acaba e quase ao mesmo tempo Emily se descobre portadora de uma doença que ninguém descobre o que é. Kumail, que ainda gosta de Emily, avisa os pais dela sobre a doença e fica no hospital o tempo todo. A relação dos pais com Kumail não é boa. Eles parecem ter um certo preconceito com o rapaz, talvez por ser paquistanês e muçulmano (mesmo não praticante). Em determinado momento conversam sobre o onze de setembro e Kumail responde: “foi uma tragédia,  perdemos 19 dos nossos melhores homens”. E explica na sequência que foi uma piada para alívio dos pais.

FIM DOS SPOILERS

Ele está sempre lá
A relação dos pais de Emily com Kumail levantam questões secundárias como tolerância religiosa,  racial e acaba sendo a força de que Emily tanto precisa. As tiradas espertas do roteiro são o palco perfeito para Kumail e Terry (Ray Romano) dando leveza para a pesada trama. Por esse peso inesperado digo que Doentes de Amor lembra Digam o que Quiserem, clássico de Cameron Crowe com John Cusack. Um filme a princípio leve, uma comédia sem pretensões mas que deixa pontos importantes pra discussão. São filmes muito mais profundos do que parecem. E no final surpresa nos créditos. Fotos que comprovam que a história aconteceu de verdade. Uma grata surpresa.
Veja abaixo o trailer de Doentes de Amor.

domingo, 8 de julho de 2018

O ÚLTIMO REI DA ESCÓCIA (2006)




O ÚLTIMO REI DA ESCÓCIA (The Last King of Scotland / 2006) - Forest Whitaker ganhou o reconhecimento geral em O Último Rei da Escócia, levou o Oscar pela atuação do ditador Idi Amin. Whitaker atuou em diversos filmes e seriados desde 1982. Destaque para Platoon, O Mordomo da Casa Branca e pontas em Rogue One e Pantera Negra. Em nenhum deles ele esteve tão bem quanto em O Último Rei da Escócia.

A história começa na Escócia nos anos 70. Nicholas (James McAvoy) acaba de se formar em Medicina mas não queria trabalhar no País. Ele literalmente rodou o globo e acabou pousando o dedo em Uganda.

O país africano passava por um período político turbulento. O governo de Milton Obote acabara de sofrer um golpe e o general Idi Amin (Forest Whitaker) se tornou o novo presidente. No começo tudo bem, o povo aplaudia a passagem de Amin nas cidades e nos vilarejos. Nos comícios era ovacionado. 

De repente ele foi surpreendido por um chamado, o presidente precisava de atendimento médico. Quando chegou no local o cenário era o seguinte: o carro presidencial parado no canto da estrada, do outro lado um boi agonizando e os donos dele se lamentando e no centro o presidente Amin reclamando de dores na mão. Nicholas atendeu o ferimento do presidente e começou a se irritar com os gritos agonizantes da vaca. Por fim, sacou a arma do coldre do presidente e matou a vaca. O presidente gostou daquele ato repentino e inesperado, Nicholas caiu no gosto do mandatário do país.

Em pouco tempo se tornou amigo, confidente e até conselheiro do presidente. Algumas pessoas tentavam alertar Nicholas sobre as atrocidades que ele cometia contra a população, contra inimigos políticos e claro traidores dentro do próprio governo. Nicholas não acreditava porque não tinha visto nada. Para ele, Amin era até injustiçado.

Até que ele informou a Amin sobre um ministro que estava conversando de forma estranha com outro homem. Do nada, ele desapareceu. Aí Nicholas percebeu que o governo era uma ditadura. E pior, disse que queria ir embora pra Escócia, Amin não deixou e o jovem se viu preso a um homem violento em um país sem  lei.

O grande trunfo de O Último Rei da Escócia é mesmo Whitaker. Ele  consegue mudar de intenção em uma mesma cena, saindo de um sorriso simpático e bonachão para uma expressão fechada,  amarrada,  que te deixa às mãos do inesperado. Assustador, pra dizer o mínimo.

O filme ganha tons claustrofóbicos na parte final e cumpre muito bem o papel de servir como biografia do líder autoritário de uma das mais sangrentas ditaduras da história, que vitimou 300 mil pessoas em 7 anos. O Último Rei da Escócia serve hoje, 10 anos depois, como espelho de outros governantes que tem por aí. Um líder “mimado que mais parece uma criança”, conforme descrito por Nicholas. Uma semelhança que não é mera coincidência.
Veja abaixo o trailer  de O Último Rei da Escócia.


 

quarta-feira, 4 de julho de 2018

IMPÉRIO DOS SONHOS (2006)

Surrealismo puro

IMPÉRIO DOS SONHOS (Inland Empire / 2006) – O mundo consciente, real, o nosso dia a dia...  Nada disso interessa a David Lynch. E quando interessou – em filmes como História Real, Coração Selvagem, por exemplo - Lynch não soube tirar proveito ou não conseguiu. (Homem Elefante é uma exceção, ok?). O único lugar onde o diretor norte americano parece se achar é no mundo bizarro, irreal... estranho, pra dizer o mínimo.

Metalinguagem

Foi assim que Lynch fez seu nome no cinema – Eraserhead, Cidade dos Sonhos, Veludo Azul, Twin Peaks... – e na televisão, no caso deste último – em obras que estão longe, muito longe de serem tradicionais. Seja pelo roteiro, pela trucagem, pela trilha ou pelos personagens bizarros. Lynch sempre acha um jeito de assinar suas obras. Império dos Sonhos, é claro, não poderia ser diferente.

Nikki tenta entender

Aqui, Laura Dern interpreta Nikki, uma atriz de Hollywood que vive em um casarão bonito, cheia de luxo com direito a mordomo e tudo. Ela recebe a visita de uma senhora com um forte sotaque polonês que diz ser sua nova vizinha. A senhora fala sobre o novo filme que Nikki vai trabalhar, cita algo sobre assassinatos e assusta a atriz quando parece saber do seu futuro.


A nova vizinha polonesa

Por 1 hora o filme se desenvolve de forma até certo ponto linear, pelo menos para os padrões de Lynch. Nikki encontra o diretor do filme fictício, vivido por Jeremy Irons e seu assistente interpretado por Harry Dean Stanton. No estúdio ela encontra também o ator com quem contracenará. Eles descobrem que o filme que irão fazer na verdade é um remake de um filme polonês que não havia sido terminado porque os atores principais foram assassinados. 

Os atores

Sem ligar para o fato, a produção é tocada em frente. E daí em diante não sabemos mais o que é filme, o que é a vida pessoal dos atores ou dos personagens, o que é delírio e o que é pesadelo. E vai assim até o final. 

Um sonho que foge ao sentido

Contar exatamente o que acontece com os personagens não resolve nada, porque o que vale aqui é a jornada perturbadora que a trama toma. Difícil dizer o que é realidade e devaneio de Nikki, mas assim são os filmes de Lynch – histórias densas embebidas em grandes porções de sonho e inconsciente. A viagem aqui não é nada agradável.


Distúrbios

Uma viagem ao mundo das prostitutas sujas, uma família de coelhos em um sitcom passando pelo leste europeu sem explicações e caindo em salas escuras com abajur vermelho e tudo. Tudo muito Lynch.

Os coelhos

Veja abaixo o trailer de Império dos Sonhos, sem dúvida o filme mais perturbador da carreira de David Lynch.


domingo, 1 de julho de 2018

SILÊNCIO (2016)

Japão da perseguição religiosa

SILÊNCIO (Silence / 2016) – Japão, século 17. Martin Scorsese focou nesse país e nesse período pra contar uma história impressionante e pouco conhecida. E por mais problemas que eu veja em algumas características do renomado cineasta – como o uso constante e ininterrupto de trilha, a obsessão por Di Caprio, e outros tantos – tenho que dar o braço a torcer, Scorsese sabe se reinventar. E criou em Silêncio algo diferente, novo, e inovador na sua carreira.

Scorsese em ação

No Japão Feudal o cristianismo é proibido, digno de tortura e morte de quem o segue. Os católicos japoneses são perseguidos e obrigados a negar a sua fé ao pisar em uma imagem de Jesus Cristo. Já os padres que vem de outros países catequizar a população são perseguidos, torturados e mortos. 

Japoneses perdidos escondendo sua fé

Andrew Garfield e Adam Driver são dois padres portugueses que seguem clandestinamente para o Japão à procura de padre Ferreira (Liam Neeson) que sumiu e não mais deu notícias. Lá, a dupla encontra na floresta fechada vários católicos à procura de ajuda, refúgio, confissão e confirmação da sua fé. Mas o cenário no Japão é muito violento.

Olhando por ajuda

Tortura, perseguição e radicalismo religioso. Silêncio tem cenas impressionantes e assustadoramente realistas de tortura e violência. O roteiro bem escrito (baseado em um livro) dá bom espaço principalmente para Garfield mostrar seu talento. E o jovem ator, que só atrapalhou em Até o Último Homem, aqui tem o seu grande momento. Nas cenas mais fortes ele vai muito bem. O feioso Driver mesmo com pouco tempo de tela se mostra um ator de futuro promissor.

Talento

E tudo é muito bem captado pelo olhar sensível de Scorsese. A trilha dá lugar ao silêncio do título,  muito respiro e olhares rumo ao nada. Um filme de reflexão, como sugere a tradição oriental. É um dos grandes acertos de Silêncio.

Caça aos católicos

Não à toa, o filme concorreu ao Oscar de fotografia. É belíssimo. Sempre com as montanhas japonesas de serração forte como pano de fundo.

A bela fotografia de Silêncio

Vale as 3 horas de duração. É um grande acerto que já o coloca como um dos grandes filmes do Scorsese. Longe de  ser um Touro Indomável ou  um Táxi Driver, longe disso.  Mas na rica filmografia de Scorsese não faz feio não.

Escondidos mas rezando

Veja abaixo o trailer de Silêncio.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

ALUCINAÇÕES DO PASSADO (1990)



ALUCINAÇÕES DO PASSADO (Jacob´s Ladder / 1990) - Fechei um ciclo importante na minha vida ao assistir Alucinações do Passado. Explico. Tinha uns 9 pra 10 anos quando peguei por acaso esse filme na TV numa daquelas sessões de madrugada. Lembro claramente como aquela sequência no metrô, no início do longa, me abalou. Ao mesmo tempo me intrigou.
 
Reação igual comecei a ter no meio dos anos 2000 quando joguei pela primeira vez Silent Hill - só tive coragem de jogar o primeiro deste que é considerado um dos mais assustadores jogos já feitos. Tanto que ele não para de ganhar versões. Silent Hill foi fortemente influenciado por Alucinações do Passado, principalmente na trama psicologicamente pesada.

O filme começa com um take de soldados na guerra do Vietnã em 1971. Eles estão extenuados, esgotados, com a expressão vazia, olhando pro nada. Aos poucos, na iminência do que parece ser um ataque inimigo, alguns começam a ter convulsões, vomitam sangue e se debatem sem explicação. Jacob (Tim Robbins) é apunhalado na barriga e acorda dentro de um trem anos depois, já cabeludo e mais velho.

Na sequência Jacob puxa papo com uma senhora no trem vazio e ela apenas olha pra ele sem piscar e sem responder. Depois ele vê um rabo asqueroso no corpo de um mendigo que tenta dormir dentro do trem. Na estação não há saída, as portas estão trancadas com cadeado e as saídas gradeadas até o teto. Ele decide ir pelos trilhos. Por pouco não é atropelado, dentro do trem que passa ele apenas repara nas pessoas com expressão estranha olhando para ele e no final o maquinista, com os olhos cobertos pelo que parecem ser moedas, faz um aceno estranho. Bizarro.

Jacob, que por muito pouco não foi interpretado por Tom Hanks, tem essas visões o tempo todo, com pessoas de rostos deformados, figuras demoníacas e uma série de outros efeitos. Todos práticos, feitos ali na frente da câmera - afinal falamos aqui de 1990. Como o "head shake", que é gravado com um alteração de frames na hora da captação e dá um efeito assustador.

"head shake"

Aos poucos ele encontra outros veteranos do Vietnã com o mesmo problema e juntando as peças do quebra cabeça ele deduz que tudo não passa de efeito pós traumático da guerra. Mas não é só isso, não mesmo!


SPOILERS

Na verdade a última cena, que mostra Jacob caído após ser esfaqueado no Vietnã, entrega o jogo. Ele esteve morto durante todo o filme. O resto é a batalha de Deus e o Diabo pela alma de um homem que vive no purgatório. Ele é envolto o tempo todo por figuras demoníacas - como a namorada, a cigana que lê sua mão - e ao mesmo tempo por figuras angelicais - como seu médico (Danny Aiello), e seu filho Gabe (Macaulay Culkin).

Como fundo uma droga chamada BZ usada nos soldados durante o Vietnã para estimular o seus instintos mais selvagens, quase primários. O resultado? Um banho de sangue e matança dos soldados americanos atacando os próprios soldados americanos. Foi o que causou a morte de muitos, inclusive do próprio Jacob, como confirmado na última cena do filme.

FIM DOS SPOILERS    
 
Confesso que ao final do Alucinações do Passado fiquei bem confuso, principalmente depois da cena final. Mas foi aí que eu entendi na verdade para que aquela cena final serve. Ela dá um sentido surpreendente para toda história. E é nesse ponto que Alucinações do Passado se torna tão importante a ponto de marcar época e influenciar gerações de cineastas e outras obras.

A religião (como a Escada de Jacob que liga o céu à Terra) e as artes (como as pinturas de Francis Bacon onde o verdadeiro terror estava na figura humana desfigurada) são grandes influências para Alucinações do Passado.

Um filme fascinante e inquietante que teve um significado pra mim quando assisti ainda pequeno - mesmo que só uma parte dele - e que agora quando adulto vejo com outros olhos. E a partir dele levanto outros dilemas, questões e perguntas sobre a existência. Certamente um filme que deixa perguntas e não um filme que entrega respostas.


Veja abaixo o trailer de Alucinações do Passado.

domingo, 24 de junho de 2018

ARTISTA DO DESASTRE (2017)



ARTISTA DO DESASTRE (The Disaster Artist / 2017) - Ed Wood sempre frequenta a lista dos piores diretores da história. E Plano Nove do Espaço Sideral, de 1959, a sua obra-prima... no caso ao contrário. O filme sofre com atuações caricatas, um roteiro simplista e aeronaves de papelão com cordinha aparecendo. É um dos piores filmes já feitos e ganhou status de cult. Mas tem lá seu charme e no fundo, nem acho tão ruim assim.

Mais de quarenta anos depois The Room foi lançado. Esse sim ruim até o osso. Já que Tommy Wiseau tinha dinheiro para fazer algo melhor. Só não tinha talento e mesmo assim escreveu, produziu, dirigiu e estrelou The Room. E é justamente a história dos bastidores deste filme que O Artista do Desastre retrata.

James Franco está excelente como Wiseau, um cara desligado do mundo, desconectado de qualquer padrão de fala ou postura, tem sempre o olhar perdido como se estivesse bêbado e com trejeitos exageradamente lentos, além é claro de uma risada irritante, porém marcante.

Ao lado do seu único amigo Greg (interpretado por Dave Franco, irmão mais novo de James), eles s mudam para Los Angeles com o sonho de entrar para o mundo do cinema. O problema é que depois de tantas negativas em testes e de agentes, a dupla decide por conta própria, fazer um filme independente negando o grandes estúdios.

Artista do Desastre acompanha as gravações caóticas de The Room. O exagero aqui faz parte do espetáculo - segundo o filme, Wiseau por várias vezes chegou atrasado no set, brigou com toda a equipe, não conseguia decorar falas simples, era motivo de piada e mandou todo mundo embora na reta final, contratando uma equipe novata para fazer apenas a última cena. E tudo isso gastando dinheiro próprio, algo em torno de 6 milhões de dólares, que nunca ninguém soube a origem.

O filme termina com a exibição de The Room e o constrangimento de Wiseau por seu drama ter arrancados risos estéricos da plateia. Isso no começo. Depois ele percebeu que o filme, por pior que fosse, funciona na medida em que causou alguma emoção em quem assistia.


Até hoje, The Room é exibido com relativo sucesso em sessões da meia noite e por isso recebeu o status de filme cult. Artista do Desastre é uma ótima comédia, algo que nos incomoda por fazer rir de um personagem tão excêntrico e com um produto final tão pífio e que, o pior de tudo, ainda arrecada quantias razoáveis de dinheiro. A direção de James Franco é segura e entrega um filme elogiada por crítica e público, além de ser indicado ao Oscar de melhor roteiro adaptado.
Veja abaixo o trailer de Artista do Desastre.



quarta-feira, 20 de junho de 2018

DIGAM O QUE QUISEREM (1989)



DIGAM O QUE QUISEREM (Say Anything... / 1989) - Nenhuma cena dos filmes adolescentes dos anos oitenta é tão icônica quanto essa aí em cima. É a primeira que vem à cabeça quando se fala em Digam o que Quiserem, o longa de lançamento do diretor Cameron Crowe e um dos primeiros de John Cusack como protagonista.

Lloyd (Cusack) acaba de se formar e consegue o telefone de uma amiga de classe por quem é apaixonado. Ele liga e juntos vão à uma festa, se apaixonam e começam a namorar. Até aí tudo normal, parecido com outras centenas de filmes. Mas só parece. Lloyd gosta de praticar kickboxing ("é o esporte do futuro"), mas não é o estereótipo do atleta. É um cara comum, que mora com a imã e o sobrinho pequeno. Suas melhores amigas são duas meninas com quem divide suas angústias e vontades.

A namorada, Diane, é a mais bonita do colégio, inteligente, mas em nenhum momento ela é pintada como a garota popular, não é esnobe. Tem um pai protetor e amigo, figura que ela escolhe para dividir as suas histórias e seu dia a dia. Tanto ela quanto Lloyd são personagens mais reais, que qualquer um de nós poderia ter encontrado na época do colégio.

E é justamente por isso que afirmo sem receio que essa história foge dos estereótipos dos filmes adolescentes da década de 80. A história de amor do casal encontra uma barreira justamente quando Diane descobre que o pai é um impostor que enriqueceu surrupiando dinheiro dos velhinhos do asilo onde trabalha. Chocada pela descoberta e sem tempo para dedicar ao namorado, Diane termina a relação e deixa Lloyd devastado.

Aí chegamos na famosa cena. A música aqui, "In Your Eyes" de Peter Gabriel, tocada em alto e bom som pelo boombox de Lloyd, enquanto Diane no seu quarto, ouve, entende o recado, mas não se levanta da cama. A música do casal passa o recado exato já que ele sempre falou pras amigas o quanto havia se apaixonado pelo olhar da menina. Olha a cena famosa aí:



E abaixo a cena descrita no roteiro original.


O casal acaba reatando pouco depois, no momento em que Diane mais precisava. Seu pai passa a ser perseguido por oficiais da justiça pelas fraudes que cometeu e acaba preso. Lloyd e Diane ainda o visitam na prisão. Na cena seguinte o casal está dentro de um avião, seguindo para Londres. Diane ganhou uma bolsa para estudar lá.

Digam o que Quiserem não tem um ritmo comum, ele é mais lento, sem adolescentes chapados, drogados ou músicas chicletes tocando no fundo a todo momento. Outro estereótipo na qual o filme de Crowe não embarca.

Um filme incomum, que não se encaixa em parâmetros dos filmes de adolescente dos anos 80. É mais do que isso. "Um filme de amor para pessoas que não falam `eu amo você`", é a definição do próprio Crowe para Digam o que Quiserem. Talvez a mais acertada.
Veja abaixo o trailer de Digam o que Quiserem.


domingo, 10 de junho de 2018

A NOITE AMERICANA (1973)

Metalinguagem pura

A NOITE AMERICANA (La Nuit Americaine / 1973) - Alguns nomes são tão marcantes e ganham tanta projeção e respeito de crítica e público que se tornam quase que sinônimo de cinema. Truffaut é um desses. Ao lado de Godard e outros jovens cineastas, Truffaut redefiniu o cinema francês com a criação da nouvelle vague na década de 60 e influenciou muita gente mundo afora. Glauber Rocha entre elas.

Truffaut (direita) indica como quer a cena 

Mas depois do sucesso de Acossado - que ele produziu e escreveu ao lado de Godard - Truffaut ficou por baixo na carreira. Os filmes que lançou depois de Farenheit 451 - precisamente no período entre  1966 e 1972 - não fizeram muito sucesso e deixaram o diretor de fora dos grandes circuitos do cinema europeu e mundial. Ele precisava de uma nova história, diferente, original.

"Ação!"

E tudo isso A Noite Americana é. O longa é metalinguagem pura, um filme dentre de outro filme. Truffaut atua como Ferrand, um cineasta que dirige a equipe e os atores do filme fake "Je Vous Présente Pamela".

A equipe faz, literalmente, parte da cena

Julie (Jaqueline Bisset) é a atriz principal e chega ao set ao lado do marido médico. E enquanto o filme está sendo rodado tudo acontece - tem a atriz que não decora as suas falas, tem outro se perde de paixão por outra companheira e se nega a atuar, tem a pressão dos executivos que querem um filme mais barato, tem o ator que morre durante as gravações, tem a pressão de escrever o roteiro na noite anterior à gravação e tantas outras coisas.

Toda beleza de Jacqueline Bisset

O mais interessante de A Noite Americana é que cada cena parece uma verdadeira aula de cinema. De verdade. Truffaut fez de cada sequência uma amostra do passo a passo de como se fazer um filme. Tem de tudo lá - chuva e neve falsos, a iluminação vazando de propósito, a contagem de giros no filme, a câmera e as engrenagens rodando, o diretor dando instruções para equipe e atores ou cantando as falas durante as gravações, os figurinistas correndo atrás de roupas, a maquiagem que sempre precisa de retoque e um gato que não bebe o leite como prevê o roteiro pedindo várias takes extras. Parece um grande be-a-bá para cineastas estreantes.

Passo a passo de como fazer um filme

E mais. Truffaut usou a própria equipe de retaguarda de A Noite Americana para atuar como a equipe do filme fake. E de quebra dá para acompanhar um pouco do método de trabalho do próprio Truffaut, que segundo Bisset e outros atores que trabalharam com o diretor francês, era dos mais entregues ao projeto. Sempre calmo, conversando e não gritando mesmo enfrentando problemas, delicado no trato com as pessoas e sempre muito seguro do todo.

Os atores são os próprios membros da equipe de Truffaut 

A Noite Americana é um belo filme agraciado com o Oscar de filme estrangeiro e que colocou de novo o nome de Truffaut em lugar de destaque. O cineasta francês, principalmente aqui, deu uma verdadeira aula de cinema. Com A Noite Americana poucas vezes isso ficou tão claro. E é sempre bom aprender com um mestre.    
Veja abaixo o trailer de A Noite Americana.


  

sexta-feira, 8 de junho de 2018

A OUTRA HISTÓRIA AMERICANA (1998)



A OUTRA HISTÓRIA AMERICANA (American History X / 1998) - Um filme que te faz sentir mal só por assisti-lo. Ele tira você do conforto e te joga num turbilhão de ideias que por mais que você saiba que são reais você prefere ignorar ou combater nas pequenas ações do dia a dia. Certamente o melhor filme da carreira de Edward Norton - na minha opinião, junto com A Última Noite -, onde ele chegou até a concorrer ao Oscar pela atuação.
A Outra História Americana é na verdade dois filmes que correm em paralelo - em preto e branco mostra o passado e em cores o presente. E eles vão se intercalando. Derek Vinyard (Norton) é um extremista neo-nazista - com tatuagens espalhadas pelo corpo, inclusive uma da suástica no peito - que mantém no seu quarto pôsteres, quadros e frases do partido nazista alemão.

Seu jovem irmão Danny (Edward Furlong, o eterno John Connor de O Exterminador do Futuro 2), o idolatra e, sem perceber, segue seus passos. Mas ele tem problemas na escola, principalmente depois de ter entregue na aula de história uma redação sobre "Mein Kampf", o livro de Hitler sobre o ideal do pensamento ariano.

Derek passa 3 anos preso, após matar 2 negros que tentaram levar seu carro. Um a tiros e outro brutalmente pisoteado contra a guia da calçada, a icônica e mais forte cena do filme. Após os assassinatos e já cercado pela polícia, Derek se vira para o irmão - que assistiu a tudo - e sorri, orgulhoso pelo crime que acabara de cometer.

Pouco depois alguns detalhes da vida pregressa de Derek são revelados, como o papel de líder que ele assume na comunidade neo-nazista da região. O que resulta numa cena de quebra-quebra num mercado comandado por um imigrante ilegal. Derek também revela todo o seu ódio em outra cena fortíssima num jantar em casa quando a mãe recebe o namorado judeu. Prato cheio para Derek bater com orgulho no peito, mostra a suástica e dizer "Aqui você não é bem vindo!"

Mesmo com a saída da prisão e o reencontro com a família, Derek sai da prisão mudado e tenta a todo custo provar que não tem os mesmos pensamentos de antes. Tarefa difícil e claro, com final trágico.

A Outra História Americana assusta, incomoda, irrita e perturba. Tony Kaye que o diga. O filme foi a estreia do diretor no cinema, mas se ele soubesse que teria tantos problemas talvez não tivesse aceito o trabalho. Kaye e Norton se desentenderam durante as filmagens e a edição foi feita praticamente toda pelo ator.

Impossível saber o que o filme seria se Kaye tivesse acompanhado o trabalho no final. Méritos para Norton que acumulou a edição e montagem do filme, além de ter feito o melhor trabalho como ator da carreira.
Veja abaixo o trailer de A Outra História Americana.


terça-feira, 5 de junho de 2018

THE OUTSIDERS: VIDAS SEM RUMO (1983)

Brat Pack

THE OUTSIDERS: VIDAS SEM RUMO (The Outsiders / 1983) -  Uma carta com um estranho pedido - "você poderia transformar este livro num filme". Foi o que Coppola recebeu de um bibliotecário. Boa ideia! E foi o que ele fez. Dirigiu o longa inspirado no clássico livro The Outsiders - Vidas Sem Rumo de 1967 e fez um filme que também se tornou igualmente clássico.

Ponyboy e Johnny

Clássico não apenas pela história, mas pela reunião de jovens atores que alcançariam certo êxito nas suas carreiras - Patrick Swayze, C. Thomas Howell, Rob Lowe, Matt Dillon, Ralph Macchio, Emilio Estevez, Diane Lane e Tom Cruise. Boa parte deles, mas não todos, ficaram conhecidos como "Brat Pack", nome dado a vários atores jovens que apareceram em alguns filmes no começo da década de 80. O título é uma homenagem ao "Rat Pack" grupo de artistas famosos e populares na década de 50 e 60 que apareciam juntos em alguns filmes, entre eles Frank Sinatra, Dean Martin e Sammy Davis Jr.

Rat Pack - Dean Martin, Sammy Davis Jr e Frank Sinatra

A turma toda - Cruise, Lowe, Howell, Macchio, Dillon, Estevez e Swayze

The Outsiders - Vidas Sem Rumo se passa no começo da década de 60 e retrata os Greasers - gangue de jovens que vestem jeans e camisetas surradas e usam cabelo com gomalina. São pobres, moram no lado norte da cidade e geralmente tem famílias quebradas, desfeitas. São carentes de quase tudo - alguns de inteligência, outros de bons modos.

Coppola comandando os garotos

Os rivais são os Socs - palavra que deriva de "sociáveis" -, grupo formado por jovens do lado sul da cidade, todos bem de vida, com carros do ano e roupas sempre limpas e bem ajustadas. As brigas entre os Socs e os Greasers são constantes, resultando até em mortes. É o que acontece numa emboscada dos Socs contra os integrantes mais jovens dos Greasers, Ponyboy e Johnny. Este último acaba levantando um canivete e mata um dos rivais.

Johnny e o corpo ao fundo

Seguindo o conselho de Dallas, o mais durão da turma, a dupla se esconde alguns dias numa igreja afastada. Ao mesmo tempo em que uma outra briga, uma espécie de revanche é marcada. Mas tudo cai por terra quando os Greasers salvam umas crianças de um incêndio e se tornam heróis locais.

Salvando as crianças do incêndio

A briga acontece mesmo assim. Sem morte, mas com vitória dos Greasers. Mas que vitória? Eles continuarão sendo os pobretões e mal vistos da cidade, com pouca oportunidade e nenhum dinheiro.

Greasers x Socs

Vidas Sem Rumo acerta em muitos momentos, principalmente no fato de ter lançado uma gama de atores que se tornariam renomados num futuro não muito distante. Bons atores dão peso aos personagens e por sequência à trama. Veja abaixo um trecho dos testes.



Coppola, o mestre por trás do filme, ficou satisfeito com o resultado final, mas já reconheceu em entrevistas que por vezes acha que cortou demais do filme. Tudo porque deu ouvidos a um dos produtores do estúdio. Ele cortou e se arrependeu depois. Mas graças ao pedido da sua neta (!), Coppola lançou uma versão estendida com bons minutos extras que ajudam a desenvolver melhor os personagens. Que vovô é esse, hein! No mais uma adaptação muito fiel de um livro marcante.
Veja abaixo o trailer de The Outsiders - Vidas Sem Rumo.



domingo, 3 de junho de 2018

TERRA ESTRANGEIRA (1995)

O abraço em Portugal

TERRA ESTRANGEIRA (1995) - Um marco. Para cineastas, atores e toda uma geração. Walter Salles, que ainda buscava seu espaço no cinema nacional - algo que chegaria poucos anos depois aos olhos do mundo com Central do Brasil - se junta a Daniela Thomas e começa a rascunhar o retrato do tenebroso Brasil daquele começo dos anos noventa. O governo Collor havia acabado de confiscar as reservas financeiras dos brasileiros e fazia, além disso, um verdadeiro desserviço ao cinema nacional ao extinguir a Embrafilme. Em 1992 o único filme brasileiro que chegou às telonas foi A Grande Arte dirigido por - adivinhem só - Walter Salles.

Salles comandando a câmera

Terra Estrangeira gira em torno desse momento - quando é divulgado pelo governo que o dinheiro  guardado pelo povo está confiscado. E é aí que Madalena (Laura Cardoso) desmorona já que dependia das economias para voltar à Espanha, sua terra Natal. Ela morre de desgosto. O filho Paco (Fernando Alves Pinto) não sabe o que fazer, nem para onde ir ao chegar em casa e encontrar a mãe morta no sofá.

 A mãe em casa

Através de Igor (Luís Melo), dono de um antiquário que coordena um sistema de envio de produtos ilegais para a Europa, Paco consegue uma passagem de ida para Lisboa. Lá, a sua missão é entregar a encomenda e escapar para a Espanha, para a cidade da mãe. Uma busca por suas origens. Mas a expectativa é destruída pela cruel realidade.

Paco só encontra violência 

Paco se vê sozinho, com uma encomenda que não lhe pertence, em um hotel de quinta, rodeado por imigrantes ilegais de Angola, Moçambique, Cabo Verde. Lá encontra Alex (Fernanda Torres) que acaba de perder o marido (Alexandre Borges), outro brasileiro que fazia os perigosos contrabandos para Igor.

Alex busca respostas em Portugal

O casal se aproxima e juntos iniciam uma jornada de fuga, a partir do momento que Igor passa a persegui-los depois de descobrir que a encomenda se perdeu pelo caminho. Paco e Alex não tem nada que os prenda a Portugal, mas também não tem dinheiro para voltar pro Brasil. Decidem fugir com Igor na cola.

O primeiro trabalho de Alexandre Borges no cinema

Walter Salles indica a Nouvelle Vague como uma das grandes influências para fazer Terra Estrangeira. Principalmente no momento em que o casal inicia a fuga de carro no trecho final, lembrando Acossado de Godard. Por isso, assim como no clássico francês, tudo aqui é preto e branco. O tom é cru, documental, um retrato do dia a dia, da vida desses personagens, iniciada pelas cenas do então presidente e da ministra declarando o confisco do dinheiro. 

Longe das origens

O roteiro entrega momentos muito belos. Não apenas pelas cenas lindas da borda do oceano de Portugal - como o mosteiro abandonado ou o barco preso na areia da praia. Mas também no diálogo ricamente incrementado por Millôr Fernandes - "esta escada está cada dia mais comprida" e até Fernando Pessoa falando de Lisboa como "o lugar ideal para perder alguém ou para perder-se de si próprio".
Veja abaixo o trailer de Terra Estrangeira.


segunda-feira, 28 de maio de 2018

HAN SOLO: UMA HISTÓRIA STAR WARS (2018)

Dá conta do recado?

HAN SOLO: UMA HISTÓRIA STAR WARS (Solo, A Star Wars Story / 2018) - E chega mais uma aventura da saga mais importante do cinema. Um spin off apenas, é verdade... mas ainda assim mais um filme, uma história que promete entregar mais detalhes dos personagens e das situações do passado do faroeste espacial de Star Wars. Desde a pré produção Han Solo sofre com duras críticas de fãs e não fãs da saga sobre a escolha dos atores, o roteiro e até mesmo questionaram o motivo de se fazer um filme de origem sobre um dos personagens mais queridos do universo Sta Wars. 

O elenco principal e os os dois diretores que iniciaram o projeto

Tudo reforçado pelos problemas de troca na direção e nos roteiros feitos de última hora. Saíram os desconhecidos Phil Lord e Chris Miller e entrou o oscarizado Ron Howard (ele foi indicado por Frost/Nixon e levou por Uma Mente Brilhante). 

Howard (de verde) no set de Han Solo

A história mostra o jovem Han Solo (Alden Ehrenreich) em suas primeiras aventuras vivendo em uma época (e planeta) onde combustível vale ouro. Ele tem um Kira (Emilia Clarke) uma parceira amorosa e companheira também de pequenos escambos . Lando (Donald Glover) não poderia ficar de fora dessa e claro Chewbacca mostra toda a sua força de wookie. O quadro está montado. Mas ainda tem espaço para Beckett (Woody Harrelson) que assume um papel de espécie de mentor de Solo, além de Dryden Vos (Paul Bettany) como um dos vilões do filme.

SPOILERS

E digo "um dos vilões" porque na verdade Han Solo tem vários. Na verdade todos são vilões em algum momento da trama. Uma boa ideia bem feita e bem realizada pelo roteiro de Lawrence Kasdan, o mesmo dos episódios VI e VII. Han Solo tem muitas cenas de ação que dão um movimento interessante e incensante à trama. Nada marcante ou inesquecível. Na verdade muitas cenas são homenagens ou cópias mesmo de outras saídas utilizadas nos demais filmes da saga, como escapar de um bichão cheio de dentes em uma caverna ou combater os caças imperiais com o canhões de tiro da Millenium Falcon, entre outras. Mas mesmo assim são sequências que ditam o ritmo de boa parte de Han Solo.

Parceiros na Millenium Falcon

O filme também presta, de certa forma, para corrigir erros ou imperfeições em outros filmes da saga - como a importância dada à correntinha que Han exibe à todo momento no começo do filme - item que já tinha aparecido no episódio VII e VIII. Isso sem falar na aparição intrigante, pra dizer o mínimo, de outro personagem muito relevante para a saga como um todo. E sem falar também na não aparição de Jabba. Dois belos ganchos para uma continuação de Han Solo. Será?

Kira, o interesse amoroso de Han
Inverter falas clássicas dos filmes originais também estão aqui. O famoso "eu te amo" seguido pelo "eu sei" entre Han e Léia nos episódios V e VI é substituído por "eu te odeio" e "eu sei" entre Han e Lando. "I have a bad feeling about this" agora é "I have a good feeling about this". São pequenas pérolas que deixam o roteiro inteligente e com um bom molho.

FIM DOS SPOILERS

O Han Solo de Ehrenreich dá conta do recado. Sim. Entrega aquele lado divertido, canastrão do Han de Ford. Mas claro, o objetivo não é substituir Han de Ford, de maneira nenhuma. Tudo serve como uma boa homenagem e Ehrenreich faz tudo muito bem. A edição, talvez, tenha lhe cortado alguns momentos sem fala em que ele poderia ter desenvolvido melhor caras e bocas, mas tudo bem. Nada que comprometa.

Solo e Chewbacca

Glover está excelente, embora seu Lando tenha menos espaço no filme que merece. Ele está canastrão na medida. Alguém para se confiar desconfiando. Assim como praticamente todos os personagens principais de Han Solo.

Partidinha de Sabacc
O problema de Solo está no ritmo. Na parte final tudo é muito corrido, acelerado. A impressão que fica é que tiveram que cortar uns bons minutos e preferiram tirar da meia hora final. Sem padrão. Essa aceleração compromete o ritmo, mas não estraga a experiência. Han Solo é leve, divertido e engraçado na medida. Não é maravilhoso ou imprescindível para a saga, mas não precisa, não tem essa pretensão. Funciona e entrega o que promete, e é o que basta.
Veja abaixo o trailer de Han Solo: Uma História Star Wars.