quinta-feira, 27 de abril de 2017

CAROL (2015)

Uma mulher decidida

CAROL (2015) - Uma novidade na carreira de Cate Blanchett. Ela agora também é produtora executiva. E Carol é sua primeira contribuição nessa nova função. A diva tem uma carreira vencedora. O mais recente reconhecimento do seu inegável talento veio com Blue Jasmine, de Woody Allen de 2013, quando ela arrebatou simplesmente o Globo de Ouro e o Oscar de melhor atriz. Conquistas inquestionáveis, reconhecidos até mesmo por suas concorrentes.

Um prêmio mais do que merecido

Blanchett vive Carol, um mulher casada, mãe de uma criança de uns 4 anos e que se descobre homossexual na conservadora década de 50. O marido descobre o segredo da esposa e tenta convencê-la do contrário. Sem sucesso, ele pede divórcio.

Um casal que deixou de ser

Carol vê em Therese, uma jovem vendedora de uma loja de departamentos, algo especial. E as duas se aproximam, se tornam amigas e começam a ficar mais íntimas. Alguns encontros depois as duas já estão se relacionando mais sério e combinam de viajar juntas durante as festas de final de ano.

A paixão de uma e a fascinação da outra

O marido, que já desconfiava que Carol não o amava quanto antes, quer proibir a ex-esposa de ter acesso a filha e coloca um detetive no encalço dela para pegar em flagrante a "relação imoral" - como ele chama. Ele consegue provas da relação homossexual da ex-esposa e um juiz proíbe Carol de ver a filha. Desesperada, Carol foge e Therese, perdida, volta pra casa.

Um final triste nada surpreendente

Um final triste para um filme triste. Mas não é só isso, ele também é lento e arrastado demais. Ele segue o ritmo de atuação de Blanchett, com gestos suaves e pouco inspirados.

Uma rara Blanchett sem inspiração em Carol

Mas o principal problema de Carol está no elemento que deveria dar força ao filme, a história de amor. Em nenhum momento sentimos verdade na relação das duas, como na relação entre os personagens de O Segredo de Brokeback Mountain e Azul é a Cor Mais Quente, por exemplo. Em Carol, o sentimento é imposto, surge do nada.

Para Therese resta a fuga

Therese mais parece vítima do desejo da Carol do que uma amante disposta a tudo para lutar pelo seu sentimento. O amor delas é raso demais e para embarcar numa história como a que o filme propõe o primeiro passo é acreditar no amor. E aqui isso não acontece, definitivamente.
Veja abaixo o trailer de Carol.


quinta-feira, 20 de abril de 2017

VÍCIO INERENTE (2014)

Paz e amor (ou quase) 

VÍCIO INERENTE (Inherent Vice / 2014) - Um diretor de primeiro nível. Se não for está perto disso. Paul Thomas Anderson já foi diversas vezes indicado pros principais prêmios do cinema, embora nunca tenha arrebatado nenhum. Foram 6 indicações aos Oscar por exemplo, 4 delas de roteiro. E nos seus filmes ele sempre consegue contar históricas intrincadas com elencos estrelados e com um resultado sempre muito bom, como em Boogie Nights, Magnolia, Sangue Negro. Embora ele tenha alguns tropeços, como em O Mestre e este Vício Inerente.

Equipe filmando Joaquin Phoenix

A história, adaptada do livro de mesmo nome, se passa na Los Angeles dos anos 70. Doc (Joaquin Phoenix) é um detetive particular que recebe a visita de Shasta, ex-namorada que estava sumida há um tempo. Ela pede à ela que ajude a encontrar o paradeiro de um ricaço do ramo imobiliário, Michael Wolfmann, que está envolvido em alguns esquemas obscuros. No dia seguinte ele recebe a visita de um outro cara que pede a busca por um amigo que também está desaparecido e também tem ligações com Michael.

Shasta, a bela ex-namorada de Doc

Doc está sempre chapado de todos os tipos de droga que aparecem na frente dele - de maconha à ácido, passando por cocaína e LCD. O visual de Phoenix, a barba por fazer e o cabelão ajudam na composição do personagem, mas é irritante, sempre com quele "olho de Garfield" e aquela voz molenga.

Nem Doc sabe em que mundo está

No oposto disso está o chefe da polícia, Bigfoot (Josh Brolin). Sujeito quadradão, de voz dura, olhar marcante que nutre particular ódio por Doc e sua forma de trabalhar. Mas como os dois estão teoricamente do mesmo lado da lei, Bigfoot não pode fazer nada com Doc. Só tirá-lo do caminho sempre que possível e usando a força bruta.

Opostos em tudo

Os dois - cada um usando as ferramentas que possuem - seguem nas buscas pelos desaparecidos. Doc encontra um deles numa seita estranha de pessoas com roupa branca. Coy (Owen Wilson) está lá. Nesse meio tempo, Doc leva umas alfinetadas de Penny Kimball (Reese Whiterspoon, com quem Phoenix tem uma química toda especial).

Revivendo os tempos de Johnny e June

Benicio Del Toro, como advogado de Doc e Martin Short, como um dentista viciado, fecham as participações especiais em Vício Inerente. De certa forma, eles ajudam Doc na busca para desvendar não apenas os desaparecimentos daquelas pessoas, mas para descobrir no que elas estão envolvidas - uma busca que começa pequena e termina gigante.

O advogado de Doc lhe dá conselhos

Complicado, né? Vício Inerente é um nome ótimo para um livro aclamado pela crítica. Mas no todo, o filme é fraco. Merece a indicação pro Oscar de roteiro na medida em que a adaptação de uma obra literária como esta - indicada pelos especialistas como das mais complexas do autor - tem lá suas dificuldades. E são grandes.

Martin Short em curta participação

Com filme não convence. É chato, arrastado, longo e cheio de personagens chapados o tempo todo. A trama de muitos personagens e situações é confusa e não funciona. Talvez seja um ótimo livro mas no formato de filme não funciona. Uma derrapada de Paul Thomas Anderson.

Owen Wilson

Veja abaixo o trailer de Vício Inerente.  
  


sexta-feira, 14 de abril de 2017

O REI DA COMÉDIA (1983)



O REI DA COMÉDIA (The King of Comedy / 1983) - Desnecessário tecer elogios à carreira de Scorsese, simplesmente brilhante. Embora eu admito, algumas manias nele me incomodam - como o abuso da trilha sonora durante TODO o filme, seja músicas instrumentais ou cantadas - isso acontece em Cassino, Os Bons Companheiros e outros tantos. Usar o DiCaprio excessivamente em projetos na sequência (já foram 6 filmes da dupla ao todo) também nunca foi do meu agrado - já que não sou lá grande fã do ator. Coisa minha.

Em O Rei da Comédia Scorsese usa Robert De Niro pela quinta vez - ao todo foram oito colaborações entre os dois até agora. De Niro é Rupert Pupkin, um comediante iniciante que pretende chegar ao sucesso de qualquer jeito. E por isso passa a seguir seu maior ídolo - Jerry Langford (Jerry Lewis), um apresentador de talk show que preza pela privacidade.

Pupkin mantem na casa dele - que divide com a mãe - um set do programa de Jerry, com personalidades de papelão. Ali, ele finge interagir com elas e imagina ser um dos entrevistados. Para Pupkin seguir o ídolo pelas ruas, em todos os momentos, é algo normal. É aqui que De Niro mostra a sua faceta de grande ator que é, criando um personagem com trejeitos no andar, no falar e até no rir, além da peruca e um bigodinho, que fazem dele um perfeito canastrão. Embora carismático e educado, ele também é irritante. Na medida.

Jerry Lewis sugeriu a Scorsese uma mudança de roteiro e pediu que seu personagem tivesse seu nome - Jerry. Assim ficaria mais fácil para ele viver um astro em busca de reclusão. Ele acaba sequestrado por Pupkin e exige em troca o monólogo de abertura no programa de Jerry. E consegue. É o grande momento da vida de Pupkin.

A história - comédia de humor negro sobre um fã que gruda no ídolo e o sequestra para conseguir o quer - não pegou bem na época, o filme foi um fracasso de bilheteria e hoje é visto mais como um capítulo a ser esquecido por Lewis, De Niro e Scorsese do que algo a ser lembrado.

Isso não é à toa. O filme começa de uma forma simpática, com a aproximação dos dois, você se pega até torcendo pelo sucesso de Pupkin. O tom sombrio começa a tomar conta na medida em que Pupkin não percebe que está passando dos limites na sua busca insana. Aí O Rei da Comédia se torna inquietante, com personagens chatos e um roteiro simplista demais. Faltou algo ali, O Rei da Comédia definitivamente, não funcionou.
Veja abaixo o trailer de O Rei da Comédia



domingo, 9 de abril de 2017

CAÇA-FANTASMAS (2016)

Girl Power

CAÇA-FANTASMAS (Ghostbusters / 2016) - Tinha tudo para dar errado. O trailer do novo Caça-Fantasmas foi considerado um erro sem tamanho pelos fãs extremistas da história. Chegou a ter o dobro de dislikes em relação aos likes no youtube. A Sony, empresa por trás do ambicioso projeto, teve que se mexer e rapidamente reeditou trechos do filme e logo lançou um segundo trailer que deixou os fãs mais calmos.

Kristen Wiig

É bom que se diga logo que o novo Caça-Fantasmas não é exatamente um remake ou mesmo um reboot ou continuação. Está mais para uma homenagem, pura e simples. Abre o próprio espaço sem mexer no que já foi feito, não fere o trabalho original. O primeiro acerto é usar mulheres como as quatro protagonistas, um quadro comicamente ótimo com Kristen Wiig, Melissa McCarthy, Kate McKinnon e Leslie Jones.

Melissa McCarthy

A história é simples, não foge do lugar comum. E nem precisa. Tudo começa dentro de uma mansão mal assombrada que pouco contribui pra história, apenas serve de surgimento para o primeiro fantasma, que já aparece cuspindo uma gosma verde em uma das meninas, uma amostra que a veia-geleca-pastelão, tão usada nos originais, está de volta.

Kate McKinnon

Elas se juntam num restaurante japonês abandonado e a partir dali acabam recebendo chamado para caçar fantasmas pela cidade de Nova York. O prefeito (Andy Garcia) reconhece o valor das meninas mas pede que elas continuem no ostracismo para evitar criar medo da população.

O prefeito conversa com as meninas no gabinete
Um excluído da sociedade ajuda a criar um portal para permitir a entrada de outros fantasmas. A cena final é uma batalha épica de grandes proporções e claro, tem o Stay Puft.

Stay Puft remodelado

O longa do diretor Paul Feig vai muito bem. Entrega tudo o que promete - diversão e nostalgia, inclusive com participações pequenas de cada um dos personagens originais - embora em papéis pequenos - como Bill Murray, Dan Akroyd, Ernie Hudson, Harold Ramis como uma estátua e claro Sigourney Weaver.

"Não cruzem os raios"

O filme gira o "girl power" total, o tempo todo. As mulheres do quarteto título não precisam se provar como cientistas e importantes para a sociedade, nada disso. Elas são pessoas inteligentes, com grandes cenas de ação, e forte poder cômico. Até Chris Hemsworth, o secretário das meninas, banca o "loiro burro" e vai muito bem.

O secretário das Caça-Fantasmas

Engraçado, divertido e muito eficiente como homenagem. Vale muito a pena para quem nunca viu o original, vale muito a pena para quem gosta muito do original, vale muito a pena para assistir um bom filme desligando o cérebro. Mantém a aura dos Caça-Fantasmas, atualiza as tecnologias e as novas armas empolgam, e avança com a continuação prometida na cena pós crédito. Merece mais.
Veja abaixo o trailer de Caça-Fantasmas.


terça-feira, 4 de abril de 2017

PSICOPATA AMERICANO (2000)



PSICOPATA AMERICANO (American Psycho / 2000) - O livro por si só já causou uma polêmica danada. Lançado em 1991, ele deixou muito leitor confuso e chocado. Assim como o filme que causa a mesma sensação em quem assiste. O longa é o de maior sucesso da carreira da diretora canadense Mary Harron, também pudera - um texto forte e uma atuação impressionante de um Christian Bale que se via ali no primeiro papel de destaque na carreira.

Bale vive Patrick, um jovem símbolo do egocentrismo e do orgulho cego movido principalmente pela saúde financeira. O cara é muito rico e muito vazio, preocupado unicamente com a própria imagem - como na cena em que transa com uma prostituta, mas se interessa apenas em olhar para o próprio corpo refletido no espelho.

Os amigos não são diferentes. Nenhum chegou aos 30 anos, mas já ocupam grandes cargos em boas empresas. São o exemplo típico do estereótipo de "filhinhos de papai", já que comandam as empresas erguidas com o esforço dos pais. Patrick no escritório não atende ao telefone, chega a hora que quer e vive de comer em restaurantes chiques para ver e ser visto.

Patrick leva o amigo Paul Allen (Jared Leto) - um dos quais ele sente mais inveja - para casa, forra o chão e começa a falar sobre bobagens, para descontrair Paul que bebe um drinque sentado no sofá. Impiedosamente, Patrick crava um machado em Paul faz sua primeira vítima.

Dias depois em uma noitada com prostitutas ele chega ao limite. Ao se tornar violento, uma das meninas busca a fuga e encontra uma série de corpos espalhados pela casa - uma cabeça dentro da geladeira, outros tantos na banheira e dentro do guarda roupa. Ela tenta fugir, Patrick vai atrás com a motosserra, ela desce pela escada, Patrick joga a motosserra lá de cima e fatia a prostituta que estava a poucos metros da saída. Ele ri com desdém na cena mais icônica do filme.

No trecho final ele comete uma série de crimes pelas ruas, enquanto é perseguido pela polícia até ser encurralado dentro do escritório. Patrick, enlouquecido, decide ligar para o advogado e conta todos os assassinatos que cometeu - conta cerca de 40.

No dia seguinte ele encontra com o advogado, mas algo surpreendente acontece. A sanidade de Patrick é testada a tal ponto que o filme acaba e deixa a dúvida - será que ele matou mesmo todas aquelas pessoas ou seria tudo fruto da sua imaginação?

Com boas participações de atores novatos na época - como Reese Whiterspoon, além de Leto e Bale - uma direção segura e acima de tudo um texto poderoso, Psicopata Americano é uma crítica nada velada a uma geração vazia e inconsequente. O texto ainda hoje é alvo de várias discussões na internet sobre o verdadeiro final.


Veja abaixo o trailer de Psicopata Americano.


terça-feira, 28 de março de 2017

O LAGOSTA (2016)

David chega ao hotel

O LAGOSTA (The Lobster / 2016) - Daqueles filmes que ficam muito tempo com a gente, mesmo depois do final dos créditos. Seja amando-o ou odiando-o, ou mesmo no meio termo, é muito difícil não se entregar à essa história distópica e por - muitos motivos - absurdamente maluca.

Funcionários mostram como relacionamentos funcionam

Uma lei proíbe que as pessoas fiquem solteiras. Quando elas são abandonadas pelos seus companheiros - como aconteceu com David (Colin Farrell, que engordou 14 quilos especialmente para este papel) - acabam indo parar numa espécie de hotel afastado da cidade que recebe homens e mulheres solteiros e tem apenas uma simples regra. Todos ali tem 45 dias para encontrar a sua alma gêmea. 

David, no centro, e dois amigos no hotel

E isso acontece através da relação dos gostos e desgostos de cada um e até mesmo das suas características físicas - uma mulher manca e espera que entre algum manco no hotel para namorar, as duas pessoas que cantam bem estão juntas, outro que tem a língua presa espera por uma mulher com a mesma característica. No caso de David a procura é por alguém que tenha qualquer uma das suas características, como ser míope, por exemplo.

Bailes para animar as noites

Caso se passem os 45 dias e a pessoa ainda não tenha encontrado um parceiro ou parceira, ela se torna um animal, ou seja, ela é despejada do hotel e passa a viver na floresta já que não pode voltar pra cidade. Isso acontece com David e lá ele vive como um animal que escolheu - uma lagosta. A escolha do animal é importante porque a pessoa na floresta só poderá se relacionar com outro "animal" da mesma espécie. 

Na floresta, David personifica a lagosta

Mas esses animais são caçados - à tiros de espingardas de tranquilizadores mesmo (!) -  pelos solteiros do hotel. E cada caçada rende aos solteiros mais dias de estada, caso seja uma caçada boa, depende do número de animais caçados. É uma loucura.

Ainda como pessoa, David segue para a caçada

O filme é dividido ao meio. Na primeira metade David vive como um solteiro em busca da mulher "amada" (entre aspas porque a pessoa escolhida é selecionada através das características dela, como se isso fosse capaz de criar dois amantes pra vida inteira). John C. Reilly é um dos amigos de David no hotel.

O último dia no hotel

A outra metade do longa mostra David vivendo como animal na floresta. Léa Seydoux - a menina de cabelo azul de Azul é a Cor Mais Quente - comanda os animais. Entre eles vive Rachel Weisz, que por ser míope, acaba se aproximando de David, também míope.

Os dois pretendentes na floresta

Yorgos Lanthimos concorreu ao Oscar de melhor roteiro original de O Lagosta. Não foi à toa. A história é uma bela criação e uma crítica ferrenha à indústria dos relacionamentos que nós mesmos criamos onde a busca pela alma gêmea é uma coisa vital. Lanthimos também assina a direção do longa.

Yorgos Lanthimos, diretor e roteirista

O Lagosta - escrito assim mesmo com "erro" de gênero - é só mais um charme de um filme que merece muito ser visto. E revisto. Não à toa, é necessário mesmo. Eu tive que assistir O Lagosta duas vezes para conseguir ligar os pontos da história e acompanhar a narrativa sem ficar com cara de "o que estou assistindo?!" 
Veja abaixo o trailer de O Lagosta.      


sexta-feira, 24 de março de 2017

A MOSCA (1986)

Um sonho cego e inconsequente 

A MOSCA (The Fly / 1986) - Estilo e criatividade. Poucos cineastas ostentam tão bem essas duas características quanto David Cronenberg. Por mais que isso tenha lhe custado algumas escorregadas na carreira com filmes que não renderam tanto nas bilheterias, ele sempre abriu mão disso por confiar no seu taco e nas suas maluquices à todo custo. Que bom! Cronenberg pôde colocar toda a sua criatividade à prova no remake de A Mosca, clássico da ficção científica de 1958.

Cronenberg e sua mosca

Seth Brundle (Jeff Goldblum) é um cientista fechado, introspectivo que acaba de realizar o seu maior feito - criou um sistema de teletransporte através de "telepods", que nada mais são do que cabines de desintegração. Em outras palavras... os objetos são colocados dentro de um telepod e segundos depois surgem no outro. 

Um visionário cientista

O principal problema é que ele só consegue realizar o experimento com objetos inanimados, os testes que ele realiza com seres vivos nunca dão certo, como no pobre babuíno que acabou literalmente, virado do avesso.

O macaquinho virou... macarronada 

Ele namora (em uma relação que rapidamente sai de fria para das mais quentes e apaixonadas) com Victoria (Geena Davis, que namorava Goldblum à época), uma jornalista que pretende escrever um livro sobre o invento de Seth.

A namorada jornalista

O problema é que numa noite de bebedeira ele decide fazer o teste nele mesmo. Tudo poderia dar certo se não fosse por uma mosca que entrou no telepod sem que Seth tenha percebido. O computador, nas palavras do próprio Seth, "fundiu os dois DNAs que ele encontrou dentro do telepod". Seth agora era meio humano, meio mosca. E é nesse palco que Cronenberg se sente mais à vontade - tudo está armado para muito gore, vísceras e todo o resto... do jeito que ele gosta.

Subindo pelas paredes

A cada cena Seth vai tomando a forma de mosca, vai perdendo o que o faz dele humano. Cronenberg não tem problemas em mostrar essa transformação nos mínimos detalhes. Muito do roteiro lembra Kafka e o seu "A Metamorfose". Seja quando ele arranca as unhas e espreme os dedos no espelho, ou perde os dentes, ou vomita no alimento antes de digerí-lo, e por aí vai, só piora. Por tantos efeitos impressionantes o filme levou a estatueta de efeitos visuais no Oscar de 1987.

A metamorfose de Seth

A Mosca é pesado, não apenas no sentido gore da coisa, mas porque até o último segundo do filme vemos Seth ali naquela quase-mosca. Mesmo na sequência final quando ele mal fala e não tem absolutamente nada de humano, tudo o que lhe resta é a sua consciência.  

Nada humano, nada mosca...

Goldblum escreveu uma carta para Vincent Price - astro do A Mosca original - dizendo que queria que ele gostasse do remake. Vincent respondeu dizendo "gostei até uma parte, depois o filme foi longe demais". Cronenberg é isso, sempre vai além, muito além. E é isso que torna os filmes do diretor tão únicos e atraentes de uma forma bizarra, grotesca. Bem no estilo ame-o ou odeie-o.
Veja abaixo o trailer de A Mosca.



terça-feira, 21 de março de 2017

UM MISTERIOSO ASSASSINATO EM MANHATTAN (1993)



UM MISTERIOSO ASSASSINATO EM MANHATTAN (Manhattan Murder Mystery / 1993) - O começo da década de noventa não foi fácil para Woody Allen e sua esposa Mia Farrow. O drama do casal - Woody se apaixonou pela filha adotiva trinta e cinco anos mais nova e enfrentou o divórcio - se tornou público. E isso resultou em filmes sombrios no período, bem "Bergmanianos" mesmo, como Neblinas e Sombras e Maridos e Esposas. Mas foi com sua primeira comédia após esse período atribulado que Woody mostrava estar superando aquele problema.

Um Misterioso Assassinato em Manhattan foi escrito por Allen tendo Mia Farrow em mente para o papel principal. Mas Woody teve que reescrever a personagem com uma característica mais cômica com a entrada de Diane Keaton no lugar. O filme marca a primeira participação de Diane Keaton em um filme do diretor desde A Era do Rádio, de 1987. E a química entre os dois está apuradíssima, como se não tivessem passados dezesseis anos de Noivo Neurótico Noiva Nervosa, a melhor contribuição entre os dois. Aqui, eles encaixam cacos hilários o tempo todo.

Larry e Carol (Woody e Keaton) vão na casa dos vizinhos para jogar conversa fora. No dia seguinte, a vizinha é encontrada morta dentro de casa - está aí o tal "misterioso" assassinato do título.

Misterioso porque logo depois, o viúvo se mostra muito tranquilo para quem perdeu a esposa tão recentemente. E isso desperta a curiosidade de Carol que entra de cabeça na investigação ao lado do amigo Ted, por quem Larry tem certo ciúme.

Larry vê na amizade de uma charmosa escritora (Anjelica Huston) uma saída para a sua vida tímida e neurótica. E isso lhe dá ânimo para que ele tome coragem para investigar o assassinato junto com a esposa. Investigar o suposto crime parece ser a excitação que faltava na vida de Carol e Larry. E eles descobrem cada coisa...

A hilária sequência em que Larry e Carol invadem um hotel atrás de pistas é o exemplo perfeito de como a química entre Woody e Keaton funciona tão bem. Algumas sequências e diálogos entre o casal protagonista foi tirado de sobras do roteiro de Noivo Neurótico Noiva Nervosa, como a hilária cena do elevador.

Um grande exemplo de um filme delicioso de se assistir para quem é fã de Woody - não apenas escrevendo mas atuando - e de Keaton, que parece se soltar mais quando tem ao lado o diretor com quem mais trabalhou em toda carreira. Não é à toa que Um Misterioso Assassinato em Manhattan é apontado pelo próprio Woody como um dos filmes da sua carreira que mais gosta. Divertido e engraçado. Como contrariar Woody Allen?
Veja abaixo o trailer de Um Misterioso Assassinato em Manhattan.
 


sexta-feira, 17 de março de 2017

JACKIE (2016)




JACKIE (2016) - Jacqueline se tornou Kennedy após o casamento com John F. em 1953. A partir de 1961 ela experimentaria a doçura e a dureza de ser primeira dama ao seu marido ser eleito presidente dos EUA. O mandato curto acabaria tragicamente em novembro de 1963 com o tiro certeiro de Lee Oswald. Os dias que viriam após a tragédia é o principal foco do diretor chileno Pablo Larrain, o mesmo do ótimo No.

Jackie Kennedy (Natalie Portman) recebe a visita de um jornalista (Billy Crudup) que começa a entrevistá-la sobre os dias posteriores ao assassinato do marido. Como ela se sentiria após ter perdido ao mesmo tempo o pai dos seus filhos, o marido e o cargo de primeira dama. E tudo isso aos olhos do mundo.

Natalie Portman encarna - o termo correto é esse mesmo, quase uma encarnação - Jackie Kennedy. A sua postura muda, fica mais imponente - ajudada pelos trajes que marcaram época - e a voz acompanha - doce, baixa... porém irritante. Esse é um dos problemas de Jackie, não só da personagem, mas do filme em si. A personificação de Portman incomoda com o passar do filme. Da metade pro final dá vontade de gritar - "Jackie, para de falar!"

No mais Jackie - o filme - funciona como uma boa retratação do interior da Casa Branca e da intimidade vivida por figuras importantes da história norte americana. Vale também pelo apuro e cuidado de Larrain, que utiliza as mesmas câmeras antigas que usou em No, o que dá um aspecto gasto à imagem. Mas fica o aviso - você vai se irritar com Portman aqui.
Veja abaixo o trailer de Jackie.


terça-feira, 14 de março de 2017

FEBRE DE JUVENTUDE (1978)

Uma turma sem limites e que sonha alto

FEBRE DE JUVENTUDE (I Wanna Hold Your Hand / 1978) - Nove de fevereiro de 1964, o dia em que quatro rapazes seguiram pros EUA para conquistar o mundo com sua música. Os Beatles ficaram surpresos com a histeria que causaram no aeroporto e depois pelas ruas até o show no programa de maior audiência na época, no Ed Sullivan Show.

Rosie à beira do desespero

Febre de Juventude, dirigido por um jovem Robert Zemeckis e produzido por um iniciante mas celebrado Steven Spielberg, conta a história de um grupo de jovens enlouquecidos com a possibilidade de ter a banda na cidade. Eles viajam de carro para chegar a Nova York e ver o show. Ou pelo menos tentar.

A turma toda - ou parte dela - no carro

E no grupo tem de tudo - uma jovem apaixonada por Paul, outra que está apenas acompanhando as amigas, outro sem carta mas que serve de motorista, outra que é fotógrafa e pretende tirar fotos exclusivas da banda, outra que acha que os Beatles são uma farsa e outro que está irritando depois de ser ignorado por todas as mulheres da cidade.

Elas conseguem entrar no hotel dos Fab Four

A comédia leve e divertida separa os personagens e cria pequenas histórias para cada um deles. Quando o grupo chega ao hotel onde John, Paul, George e Ringo estão hospedados eles se dividem e caem em pequenas ciladas - uma delas consegue por acidente entrar no quarto do Fab Four, outra é expulsa do hotel, outra se enrosca com outro fã enlouquecido que conseguiu um quarto vazio dentro do hotel e juntos começam um pequeno namoro, baseado no amor mútuo pelos Beatles.

Eddie Dezen, o símbolo do nerd nos anos 80

Aliás aí está uma das forças do filme - a comédia física de Rosie e Richard. Ela gordinha e arisca, ele magrelo e alto. Wendie Jo Sperber também atuou como irmã de Marty McFly na saga De Volta Para o Futuro e morreu de câncer aos 47 anos. Eddie Deezen é o símbolo do nerd em diversos filmes dos anos 70 e 80.

Sperber e sua comédia física
Dois não conseguem ver o show. A eles, que ficam do lado de fora dentro da limusine do pai de um deles, é reservado talvez a maior honraria. Ao final da apresentação os Beatles saem correndo do estúdio e entram no carro deles, seguindo de volta para o hotel.

E de repente no quarto do hotel da banda 

Outro ponto alto acontece ainda durante a presentação. Quatro atores são vistos em primeiro plano tocando como se fossem os Beatles e nos monitores e televisores espalhados pelo estúdio, são exibidas imagens da apresentação original de 1964.

Boa sacada

Leve, divertido e agrada a fãs - mas não só eles - dos Beatles. Febre de Juventude talvez tenha sido prejudicado devido ao sucesso mundial estrondoso de Grease: Nos Tempos da Brilhantina, que foi lançado no mesmo ano. Por isso mesmo Febre de Juventude não é dos filmes mais fáceis de serem encontrados, apesar de ter sido exibido com exaustão na sessão da Tarde nos anos 80. Mas acredite, vale a procura.
Veja o trailer de Febre de Juventude.