sábado, 30 de setembro de 2017

BONEQUINHA DE LUXO (1961)

Um ícone
BONEQUINHA DE LUXO (Breakfast at Tiffany´s / 1961) - Os detalhes e as surpresas que fazem de um filme grande e de algumas atrizes, divas. O personagem de Holly Golightly foi criado por Truman Capote tendo ninguém menos que Marylin Monroe na cabeça. Para CapoteMonroe poderia interpretar Holly. Com a recusa, Kim Novak foi a escolha seguinte, também negada. Parece que Capote queria a todo custo uma loira. O destino reservou a Audrey Hepburn interpretar Holly. Hoje, mais de cinquenta anos depois, difícil desvincular a personagem de Hepburn. Não é?

Café da manhã
Logo de cara, na assinatura de Bonequinha de Luxo, a cena mais icônica do filme - Holly em pleno amanhecer, parada na frente da vitrine da Tiffany olhando as jóias caras. Pouco depois ela segue pro predinho de poucos andares onde mora. Ali mesmo, na sequência, ela dá uma festa em busca de um ricaço solteirão da cidade. Tudo esbanjando charme e encanto. Além de claro, muito interesse.

Holly avistando mais um ricaço em uma festa

Holly começa a se engraçar com Paul, o novo vizinho do apartamento de cima. É um escritor solitário que recebe sustento como acompanhante de uma ricaça mais velha. Holly tira sarro de Paul, mas ela mesmo é mantida através dos inúmeros casos que mantém com endinheirados da cidade. São dois belos e solitários jovens que vivem de favores e do dinheiro de pessoas ricas.

Paul e Holly andando por Nova York

Uma das mais belas sequência do filme mostra Holly em uma manhã de toalha na cabeça, dedilhando um violão na escadaria de incêndio cantando Moon River. Paul, hipnotizado por aquela cena, sai do seu quarto e fica assistindo de camarote a bela vizinha destilar todo seu talento. A música acabaria levando o Oscar de melhor canção naquele ano.

Cena clássica com música que levou o Oscar

SPOILERS

Os flertes constantes entre Holly e Paul cessam quando ele percebe que é seguindo por um senhor na rua. Ele se chama Doc. Doc é marido de Holly. Aí tudo vem à tona. Doc se casou com Holly quando ela tinha 14 anos. Moravam no interior dos Estados Unidos. Mas ela queria mais. Por isso largou toda aquela simplicidade, trocou de nome e se mudou para NovaYork. Tudo em busca do maior sonho - se tornar uma atriz de sucesso e casar com um homem rico. Um dos seus passatempos preferidos - ver a vitrine da Tiffany - não surgiu à toa. Isso acontecia toda vez que ela se sentia triste pensando no passado simples e humilde. Uma dualidade que acompanha Holly por todo o filme e dá ainda mais substância e estofo à personagem, que a princípio por usar roupas bonitas e se engraçar com homens o tempo todo, nos passa uma imagem de pura futilidade. Não é nada disso.
  
FIM DO SPOILERS       

Audrey Hepburn tem aquele algo a mais. E isso fica claro aqui - cena após cena. Ela encanta e carrega o filme com seu charme e beleza dificilmente igualados. Bonequinha de Luxo é todo levado pelo ótimo texto de Capote e por Audrey que fez da sua personagem-acompanhante-de-luxo um ícone.

Holly de ressaca

Mas tem muito do texto de Capote que acabou ficando de fora do roteiro, entre elas a suposta bissexualidade de Holly. O filme dirigido por Blake Edwards em nenhum momento flerta com esta possibilidade, ou mesmo com outra também impactante - a de que Paul seria homossexual. Curioso que desta forma o filme não seria lembrado pelo óbvio envolvimento romântico do casal protagonista.

Boa química entre Audrey e George Peppard

Hepburn, que havia dado luz ao seu primeiro filho à menos de três meses, recebeu setecentos e cinquenta mil dólares pela interpretação, o segundo maior salário pago a uma atriz naquele período, ficando atrás apenas de Elizabeth Taylor que passou do 1 milhão de dólares recebidos por Cleópatra, que estrearia no ano seguinte.

Sequência final na chuva

O salário alto que Hepburn recebeu nem arranha o status que lhe rendeu - Holly e Hepburn são lembradas como ícone de moda e da beleza. Não é à toa que Audrey foi eleita pelo American Film Institute a terceira maior personalidade feminina da história do cinema, ficando atrás de Katharine Hepburn e Bette Davis. Audrey tem um charme e um brilho próprio que vão além. Ela tem tudo isso. Tem muito. E tem de sobra.    


Veja abaixo o trailer de Bonequinha de Luxo.



sábado, 23 de setembro de 2017

CORAÇÃO LOUCO (2009)



CORAÇÃO LOUCO (Crazy Heart / 2009) - Poucos atores estão tão marcados por encarnar tipos tão característicos como Jeff Bridges. Apesar de tudo ter começado com aquele tipo ligado em jogos eletrônicos de Tron, Bridges parece ter se encontrado mesmo como aquele redneck americano, texano tradicional sem papas na língua e de preferência com um copo ao lado. Foi assim em Big Lebowski, R.I.P.D., A Qualquer Custo e nesse Coração Louco.

Jeff Bridges interpreta Bad, um cantor country decadente que vai de espelunca em espelunca pelos rincões dos Estados Unidos - seguindo o roteiro montado por seu empresário - para cantar para um público pequeno as mesmas canções que canta há décadas. Ele está sempre bêbado, se nega a compor coisas novas e se fecha totalmente para o novo.

A amizade com uma jornalista local - Jean (Maggie Gyllenhall) - muda a vida de Bad. Os dois se apaixonam e ele vê nela e no pequeno filho de 4 anos o alicerce que sempre lhe faltou - uma esposa e um filho. Seria a chance de voltar a acertar na vida. Bad já foi casado quatro vezes e tem um filho de quase 30 que não vê há mais de vinte e cinco anos. E não mantém contato com ninguém. Sua vida é o violão, a estrada e a bebida.

Ele não pensa em mudar o rumo da carreira, nem quando encontra Tommy (Colin Farrell) que foi seu parceiro de palco há tempos. Eles romperam relações porque Tommy optou por um estilo novo de country - sem chapelão e mais moderno, com um show mais atraente. Atrai multidões enquanto Bad se segura naquele violão e voz, com banda de apoio em pequenos bares e pistas de boliche das pequenas cidades. Estes reencontros (com Tommy e com Jean) são verdadeiros tapas na cara que fazem com que Bad aos poucos abra os olhos para novas possibilidades - na carreira e na vida.

Coração Louco é uma jornada de reencontros. Bad precisa mudar os seus hábitos e é quando sofre um grave acidente de carro que tudo começa a vir à tona. Jeff Bridges levou o Oscar de melhor ator aqui pela tocante interpretação. A cena do show foi filmada toda em 10 minutos no intervalo de um concerto musical country de verdade. Foi tudo de surpresa. E claro, centenas de celulares gravaram tudo. O público foi pego de surpresa. Veja.


Uma jornada de um homem que só começa a andar quando percebe que tudo o que sempre teve na vida se perdeu para nunca mais voltar. Duro, mas é assim. Nem tudo é como um filme, onde o bom é premiado no final, Coração Louco tem esse grande mérito de por vezes não se render ao sentimentalismo barato e Bad (Bridges) aprende.

Veja abaixo o trailer de Coração Louco.



quinta-feira, 14 de setembro de 2017

CAFÉ SOCIETY (2016)




CAFÉ SOCIETY (2016) - Os roteiros do Woody Allen nunca são somente o que parecem. Difícil decifrar um filme dele só por assistir o trailer ou ler a sinopse. Personagens - que a princípio tem pouca ligação - se amarram, se mostram essenciais e tudo se conecta. Genialmente. Mas às vezes nada disso resulta necessariamente num filme marcante. É o caso de Café Society.

A história se passa nos anos 30. Bobby (Jesse Eisenberg, abusando dos gestos e dos trimiliques) sai da Nova York e chega a Hollywood para tentar um emprego com o tio Phil (Steve Carrell, provando definitivamente que é muito mais do que apenas um bom comediante), um ocupado dono de estúdio muito rico, que vive no meio das estrelas e outros figurões do cinema.

Começando por baixo, Bobby passeia nas horas vagas pela cidade na companhia da secretária de Phil, Vonnie (Kristen Stewart, uma atriz nota "cem" - sem sal, sem graça e sem expressão) com quem aos poucos se apaixona. O problema é quando o namorado dela entra em cena.

Toda essa parte inicial de Café Society tem uma escolha de cores muito interessante que deixa tudo com um aspecto dourado. Desde as roupas, as luzes internas e externas. Tudo parece mágico, difícil de resistir, muito encantador e charmoso. E é nessa onda de nobreza e luxo que Bobby cai de cabeça.


SPOILERS

A partir do momento que Phil se separa da esposa com quem era casado há 25 anos e decide se casar com Vonnie, com quem namorava escondido, as cores do filme mudam para um tom mais escuro, pastel, sem tanto dourado-ouro. E isso não é à toa. Bobby volta pra Nova York onde tenta retomar a vida após a desilusão amorosa.

FIM DOS SPOILERS

O problema de Café Society está basicamente na escolha dos atores. Eu não iria longe a dizer que Jesse Einsenberg é um ator ruim, não é. Mas o problema é que os maneirismos deles - que os acompanham em todos os papeis que interpreta - incomodam bastante. Será que foi pedido do Woody ou criações do próprio Eisenberg?

O maior problema mesmo é com Kristen Stewart. Ela não está à vontade no papel, parece incomodada com a roupa, não tem química com Einseberg. É o grande erro de Café Society. Estranho é que Woody poderia ter optado por uma saída bem simples, já que Blake Lively aparece no terço final do filme. Lively sim tem carisma, é bonita e poderia interpretar Vonnie sem problemas. Pena.
Veja abaixo o trailer de Café Society.

sábado, 9 de setembro de 2017

MEMÓRIAS SECRETAS (2015)

Um idoso atormentando pelo passado

MEMÓRIAS SECRETAS (Remember / 2015) - Existem memórias que levamos para a vida toda, que marcam e moldam quem seremos no futuro. Dá para se dizer sem medo que o povo alemão - na verdade o mundo inteiro, mas mais especificamente o povo alemão - foi moldado pelo nazismo. Certa vez eu disse a um amigo alemão que eles deveriam virar a página e tocar a vida, eis que ele me respondeu: "nunca, jamais o nazismo deve ser esquecido. O povo alemão tem que levar isso para sempre, para não correr o risco de acontecer de novo."

Corrigindo o passado

Memórias Secretas é um filme alemão indicado ao Leão de Ouro que conta a história de idosos que viveram o horror daquela época dentro do olho do furacão. Zev (Christopher Plummer, canadense falando um inglês carregado de sotaque alemão) está internado num asilo. Tem em Max (Martin Landau) seu grande amigo ali. Mais do que isso. Os dois têm números tatuados no braço, são as marcas que carregam do período que passaram em Auschwitz.

Landau e Plummer

Após uma promessa feita a Max em uma carta, Zev tem um novo objetivo na vida - agora que sua esposa morreu. Encontrar e matar o alemão que matou toda a sua família e a de Max no campo de concentração. São quatro endereços que contem um tal Rudy Kurlander. Zev vai atrás de cada endereço atrás da sua vingança.

Um dos muitos encontros atrás do algoz

Zev sofre de demência, então familiares assumem que ele está perdido, vagando por aí. E na verdade, ele se pega tendo que ler e reler a tal carta para lembrar o próximo passo a tomar. Nessa busca ele se tromba com várias figuras: um alemão de mesmo nome mas que não serviu em Auschwitz, outro que era perseguido não por ser judeu e sim homossexual e mais um cuja postura doentia anti semita por pouco não causa uma tragedia na trajetória de Zev.

Uma trajetória perigosa

Ao final ele chega até o Kurlander que ele tanto procura, mas é pego por uma surpresa que muda completamente o destino da história. Os velhinhos no asilo ficam chocados com o desfecho, ao que Max, afirma sem medo "Zev sabia bem o que estava fazendo."

Sempre em contato com o amigo
O roteiro de Memórias Secretas dá uma forçada de barra em vários momentos, daqueles que você se pega pensando "mas como?". No mais a história é chocante em vários aspectos, não somente pela questão do nazismo que já é um assunto delicado, mas sim por tocar em outro também difícil... a demência.

O desfecho

Veja abaixo o trailer de Memórias Secretas.


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

INVASÃO ZUMBI (2016)

Uma corrida desenfreada

INVASÃO ZUMBI (Busanhaeng / Train to Busan / 2016) - O boom dos filmes de zumbi aconteceu já faz algum tempo. Extermínio (2002), Madrugada dos Mortos (2004), Terra dos Mortos (2005), Diários dos Mortos (2007), Eu Sou a Lenda (2007), Quarentena (2008), e tantos e tantos outros. Esse sul coreano Invasão Zumbi pode ter chegado tardiamente - e com isso acabou repetindo algumas ideias já exploradas em outros tantos filmes do gênero. Mas não é por isso que o sul coreano Invasão Zumbi deva ser evitado. Ao contrário.

Boa parte da ação acontece no mesmo cenário

Na história um pai ausente promete levar a filha até a mãe. A dupla pega o trem e no caminho se deparam com uma cidade parcialmente destruída. E escutam rosnados. Pessoas com os olhos mortos, com membros desvirados e correndo como loucos.

O contaminados
Permissão para "corrigir" o título em português. As figuras contaminadas aqui não são zumbis, elas parecem contaminadas com raiva, como as do Extermínio. Zumbis são mortos-vivos que rastejam, andam devagar atrás de cérebro. Essas criaturas daqui mordem outro pessoa - ou comem - e imediatamente o mordido se torna um ser humano com raiva.

Sem saída

Invasão Zumbi tem um grande mérito - ele se passa sem rodeios, começa a termina dentro do trem, praticamente. E tem todos os elementos conhecidos de um filme desses - os seres humanos egoístas que jogam outros pelo caminho para se salvar, os entes queridos que se transformam nas criaturas (zumbis, pelo título em português) e deixam a gente com aquele gostinho de "puxa, até ele?", os justiceiros que resolvem as coisas com os punho, a relação pai-filha que se fortalece, e claro, uma mulher grávida. Passa rápido e diverte.

Um dos momentos mais tristes do filme

Veja abaixo o trailer de Invasão Zumbi.


segunda-feira, 21 de agosto de 2017

UM CADÁVER PARA SOBREVIVER (2016)

A lição que a morte ensina

UM CADÁVER PARA SOBREVIVER (Swiss Army Man / 2016) - Coloque Náufrago e Um Morto Muito Louco dentro de uma panela. Mexa bem. Inclua uma boa porção de humor surrealista, existencial e até escatológico. Você terá a receita perfeita de Um Cadáver para Sobreviver, filme de uma dupla de diretores iniciantes - Daniel Scheinert e Daniel Kwan - que com um roteiro potente não tiveram trabalho para convencer Paul Dano e Daniel Radcliffe a entrarem no barco.

Um dos "Daniels" gravando Dano e Radcliffe

Hank (Dano) está  se enforcando. Ele está perdido no que parece ser uma ilha sem qualquer contato com outro humano. Algo chama sua atenção, um corpo jogado ali na areia da praia. Ele recupera o corpo e começa a conversar com ele, leva para as instalações que ele construiu por ali, fala da sua vida, conta sua história e se assusta - o cadáver começa a falar.

Um homem à beira da morte

Tudo, claro, fruto da imaginação de Hank. Manny (Radcliffe) é o Swiss Army Man do título, algo como "Homem canivete". Isso porque ele "ajuda" Hank em qualquer tarefa do dia a dia. Seus dentes servem para raspar a barba de Hank, sua cabeça dura como ferramenta para abrir cocos, a água que sai da sua boca - já que presume-se que ele tenha morrido afogado - serve como chuveiro para Hank, e suas flatulências (?) são o motor propulsor que o transformam numa lancha, por exemplo (sim, é isso mesmo). Um humor estranho que dividiu a plateia de Sundance - metade saiu ainda no meio da projeção.

Um homem multi-tarefas

De qualquer forma a parceria com um morto - que ele acredita realmente estar vivo - faz Hank ter uma nova perceptiva da própria vida e tem papel fundamental na sua salvação. Esta é a grande mensagem que Um Cadáver para Sobreviver apresenta.

Ajudando o amigo a tocar em frente

O problema é que para chegar até essa conclusão enfrentamos um mar de piadas de mau gosto e que incomodam demais, desconectando-nos do filme até certo ponto. Se você conseguir não se incomodar com tudo isso, o filme - que conta com excelentes atuações da dupla principal - tem um significado importante e merece sim ser visto.

Duas vidas que juntas fazem sentido

Veja abaixo o trailer de Um Cadáver para Sobreviver.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

FOME DE PODER (2016)

O homem que levou o McDonald´s para o mundo

FOME DE PODER (The Founder / 2016) - Uma história de sucesso das mais impressionantes e revoltantes já contadas. Uma sacada de mestre de um cara capitalista acima de tudo e, como diz o ótimo título brasileiro, com muita Fome de Poder. O problema é que no caminho ele atropela tudo e todos. A ambição vem sempre em primeiro lugar. E pior é que tudo é real.

Kroc, do lado direito, analisando o projeto de um novo restaurante

Fome de Poder conta a história de Ray Kroc, um irritante homem de negócios vivido por Michael Keaton. Ele tenta a todo custo vender uma máquina de fazer milkshakes, bate de porta em porta em restaurantes espalhadas pelo país, sem sucesso. A sorte de Kroc começa a mudar quando ele recebe uma ligação de um restaurante chamado McDonald's que encomendou seis das suas máquinas de uma vez só. Kroc vai até lá.

Krock insiste para falar com os irmãos do McDonalds

No tal McDonald's ele encontra dois irmãos - Ray e Don, os donos, que criaram um método revolucionário para servir a comida rapidamente com o menor custo possível. "De 30 minutos em 30 segundos", dizem. Ele inventaram ali o fast food. Kroc embarcou nessa ideia e conseguiu, depois de muita insistência, assinar um contrato como novo sócio dos irmãos. Sua missão - fazer filiais do McDonald's por todo o país.

Kroc vendendo, que é o que ele sabe fazer

O problema é que nesse afã de sucesso e expansão a todo custo, Kroc atropelou a autoridade que os irmãos McDonald's teriam nesse processo todo. O contrato assinado por eles não foi cumprido ("contratos foram feitos para serem quebrados", diz Kroc), os irmãos preferiram não entrar na briga. Até que Kroc, já cheio de dinheiro de tantas novas lojas que conseguiu abrir e ao lado de bons advogados, acabou adquirindo o McDonald's todo para ele. Aos irmãos sobrou mudar o nome de seu restaurante original para M simplesmente, que por sinal, faliu poucos anos depois.

O primeiro restaurante, que deu origem à toda rede

A escolha de Michael Keaton foi perfeita, ele não tem uma cara amigável mas encarna muito bem um empresário chato, persistente e até maldoso. A mensagem que fica de Fome de Poder é que para vencer tem que se atropelar a todos, e ser acima de tudo uma pessoa sem limites ou escrúpulos.

Os irmãos McDonald´s

Não basta ser maior, tem que ser O maior e para isso Kroc amassa os menores. Algo que o filme Steve Jobs, dirigido por Danny Boyle, também deixa claro sobre o grande líder da Apple. Uma mensagem que me incomodou tanto que falei pra mim mesmo "não vou mais no McDonalds"... passou dois dias e descumpri minha promessa.
Veja abaixo trailer de Fome de Poder.


domingo, 6 de agosto de 2017

A SENHORA DA VAN (2015)

Mal humorada

A SENHORA DA VAN (The Lady in the Van / 2015) - Alan Bennett é um escritor inglês de mão cheia. Ele se acostumou a retratar a vida de personagens comuns do dia a dia e por isso quando uma senhora passou a morar dentro de uma van na rua em que o escritor morava, tudo se encaixou. Ele acabou transformando aquela experiência real em história. Nasceu ali um livro e depois uma peça que é encenada até hoje na Inglaterra.

A peça de teatro

Maggie Smith interpreta a senhora do título, que vive dentro de uma van numa rua de Camden Town em Londres. Ela e Bennett (interpretado por Alex Jennings) acabam desenvolvendo uma estranha amizade, já que ambos não são nada simpáticos um ao outro, nem minimamente cordial. Ela se apoia na velhice e ele nas manias de um turrão vivendo uma vida solitária.

Uma relação conflituosa

Ele é reservado, mora sozinho e faz o máximo esforço para manter qualquer pessoa distante, até a própria mãe. Fala sozinho em casa o tempo todo, e a forma como o diretor Nicholas Hytner escolheu para preencher o vazio da casa onde ele mora é incrível - Bennett contracena com ele mesmo. No começo parece um irmão gêmeo, aos poucos descobrimos que é ele mesmo, um outro "eu".

O mal humor do vizinho

Por 15 anos aquela mulher morou dentro da van e - depois de conversar com Bennett -, acabou-se "mudando"da rua para a garagem do escritor. O seu espaço sempre foi mal cheiroso, cheio de sacolas e os seus carros - sim, porque ela teve mais de 1  - pintados com um estranhamento amarelo ovo. Mas de onde ela tira dinheiro? Porque é tão irritante e irritável? Qual a história dessa senhora? Aos poucos o roteiro de Bennett soluciona todas essas questões.

A equipe no set

A Senhora da Van é cativante e uma lição dura e curiosa. O paralelo que o texto propõe entre a senhora maltrapilha e a mãe do próprio escritor é leve, porém muito claro. Ele mesmo traça essa linha vez por outra. Ao mesmo tempo em que se vê obrigado a internar a mãe doente em um asilo, ele se cobre de zêlo para proteger a senhora moradora de rua. Não é amor, mas passa longe do ódio. Um sentimento que ele despeja na senhora, ao mesmo tempo que evita lançar sobre a própria mãe.

O "raro" sorriso 

Veja abaixo o trailer de A Senhora da Van.


quinta-feira, 27 de julho de 2017

NUNCA TE VI, SEMPRE TE AMEI (1987)

Duas pessoas que nunca se viram, mas que trocaram confidências por vinte anos

NUNCA TE VI, SEMPRE TE AMEI (84 Charing Cross Road / 1987) - Uma história real. Romanceada, é claro, mas real. Helene Hanff se correspondeu via carta durante anos e anos com um livreiro londrino, buscando exemplares de obras raras disponíveis na livraria dele. As cartas viajavam de Nova York para Londres e vice-versa. Das correspondências nasceu uma amizade e, ao que parece, um sentimento. A incrível história virou uma peça, um telefilme e por fim, um longa metragem. David Hugh Jones dirigiu o filme.


A peça inspirada na história

Anne Bancroft (a eterna Mrs. Robinson de A Primeira Noite de um Homem) e Anthony Hopkins interpretam Helene e Frank. Os dois já haviam atuados em O Homem Elefante, de David Lynch em 1980, mas na produção de Nunca Te Vi, Sempre te Amei, como entrega o título, eles não se vêem, não aparecem juntos em cena sequer uma vez. Helene é viúva e Frank casado e pai de três filhos.

Tudo começa quando Helene, uma amante da literatura inglesa, apaixonada por colecionar livros raros não encontra alguns volumes e entra em contato, via carta, com uma livraria especializada em Londres. Semanas depois ela recebe uma resposta de Frank, responsável pelo estabelecimento, dizendo ter tais livros. O ano é 1948.

Frank em sua livraria

Eles passam o filme trocando cartas, sempre respeitosas e carinhosas contendo informações sobre família, amigos e interesses em comum. A Segunda Guerra Mundial ainda era um evento recente e a Inglaterra, assim como boa parte dos países europeus, passava por um período de recessão. Alimentos eram escassos. Helene enviou mais de uma vez, caixas de enlatados, que Frank distribuiu entre os empregados da livraria. Em troca, Frank mandou de Londres toalhas de mesa e alguns livros de graça.

A comida que chega em Londres enviada por Helene
A troca de cartas se manteve constante até 1968, quando Helene descobriu que Frank morreu após complicações de saúde. Ela, por sua vez, que sempre adiou uma viagem à Londres, se sentiu na obrigação de ir à capital inglesa conhecer a tal livraria no endereço que dá o nome original ao filme - 84 Charing Cross Road.

A quarta parede usada por Helene em boa parte do filme

O filme começa já com a viagem de Helene para Londres e num corte brusco volta vinte anos mostrando ela bem mais jovem, quando ainda estava escrevendo a primeira carta para Frank. No final do filme, Helene chega à livraria, que está abandonada, é somente uma construção antiga, mas ela fica feliz de fechar esse ciclo em sua vida.

Ritmo de romance e interpretações tocantes - porém estereotipadas - fazem de Nunca te Vi, Sempre te Amei um filme leve, bom para um dia a tarde com bolinho de chuva e cobertor. Hopkins apresenta o modelo do inglês tradicional, cortês, e a bela Bancroft faz uma nova iorquina fumante e ansiosa, que por mais de uma vez fala com a câmera como se fosse a própria consciência.
Veja abaixo o trailer de Nunca te Vi, Sempre te Amei.



quinta-feira, 20 de julho de 2017

RUA CLOVERFIELD, 10 (2016)




RUA CLOVERFIELD, 10 (10, Cloverfield Lane / 2016) - Tudo era um grande segredo. Inclusive para os atores. Ninguém sabia ao certo qual filme estava sendo produzido quando a equipe se juntou no set para as primeiras gravações. Ideia do produtor J.J. Abrahms, que gosta de sempre manter suspense nos seus projetos, mesmo com a equipe. Aos poucos descobriu-se que se tratava do segundo filme da série Cloverfield, sucesso de Abrahms de 2008.

Na verdade Rua Cloverfield, 10 não é uma sequência do primeiro filme, está mais para um spin-off, ou seja um filme derivado que se passa naquele mesmo ambiente, mesmo universo. A história  escrita por Damien Chazelle - o diretor de La La Land - começa com a bela Michelle (a Lee de À Prova de Morte) saindo de casa às pressas depois de abandonar o namorado. Na estrada ela sofre um acidente e acorda em uma sala fechada, sem janelas, acorrentada à parede.

Pouco depois um homem aparece. Howard (John Goodman, talvez na melhor interpretação da carreira) não diz muito, apenas que ele a mantém viva. Aos poucos, ele conta para ela que o oxigênio do planeta está contaminado, talvez pelos russos, coreanos ou mesmo extraterrestres e que ele, que tem preparação militar, construiu aquele bunker se preparando para um ataque das forças inimigas.

Ela não acredita até conhecer Emmett, outro homem que está lá embaixo também e parece acreditar em tudo o que o Howard diz. E são esses três personagens que passam boa parte do filme tentando se entender confinados naquela casa subterrânea.

Michelle tenta escapar algumas vezes, principalmente por receio de que a figura ameaçadora de Howard - com Goodman repito no melhor papel da carreira - possa violentá-la ou algo do tipo. Tudo gera desconfiança nela e para piorar, Emmett não é lá muito inteligente e não oferece perigo imediato para o reinado de Howard na casa.

Ela chega a ver o mundo lá fora pela porta, mas logo desiste de abri-la ao se deparar com uma mulher sangrando e olhar desesperado que implora para que ela abra a porta. Howard grita de longe para que Michelle não faça isso. Assustada com o que vê lá fora, Michelle passa a acreditar na contaminação do oxigênio no exterior e desiste da fuga.

Mas as histórias de Howard são meio sem sentido. Faltam alguns pontos, não se sabe ao certo a real intenção dele em alguns momentos. Será que ele é mesmo tão bonzinho por abrigar dois desconhecidos ou tem algo mais que ele esconde? A interpretação de Goodman deixa tudo aberto.

Howard se mostra violento, principalmente quando a dupla começa a arquitetar um plano para escapar do bunker. Sem entrar em detalhes para não estragar o enredo, digo apenas que Michelle consegue escapar e fica chocada ao olhar no horizonte e enxergar uma nave alienígena rondando o céu. A reação é a que a maioria de nós teria, talvez - ela fica incrédula, sem acreditar que aquilo é real. O filme poderia perfeitamente acabar aí. Já seria ótimo!

Mas o roteiro nos leva por mais uns dez minutos em que Michelle trava uma batalha com um dos ETs... Na minha opinião esse final é a grande escorregada de Rua Cloverfield, 10.

Quando navega pelo suspense o filme vai muito bem! Dá agonia se imaginar na posição de Michelle, ainda mais sabendo que o dono do lugar - e que tem todos os acessos e chaves e ferramentas - é um cara misterioso, com aquele olhar que não demonstra nada, e uma respiração arfante como se estivesse sempre armando algo. Mas aqueles dez minutos finais... bem que poderiam ter ficado ar no chão da sala de edição.
Veja abaixo o trailer de Rua Cloverfield, 10.



sexta-feira, 14 de julho de 2017

DEMÊNCIA 13 (1963)



DEMÊNCIA 13 (Dementia 13 / 1963) - Novato e cheio de ideias na cabeça. Um jovem Coppola saiu dessa forma da universidade direto pro concorrido mercado de cinema norte americano. O hippie abraçava todo e qualquer projeto que podia, escrevendo roteiros e assumindo a direção também. Foi assim que nasceu Demência 13, filme de terror de baixíssimo orçamento - como não poderia deixar de ser - filmado em apenas nove dias por um Francis Coppola (sem o Ford ainda), que assumiu o roteiro e a direção.

A família Haloran é rica e amaldiçoada. A mãe viúva está no castelo da família com os 3 filhos de meia idade e duas namoradas. Um dos filhos morre de ataque do coração e a namorada esconde isso da família inventando uma mentira qualquer, para que não perca parte da herança. Em menos de trinta minutos de filme, ela morre assassinada à machadadas por uma figura estranha.

O outro irmão assume o papel de pai, é bruto e pouco carinhoso com a namorada que vive para lhe agradar o tempo todo. Estão prestes à se casar. E o último irmão, o mais jovem não tem namorada mas é atormentado por um fantasma do passado - ele viu a irmã jovem morrer afogada no lago da propriedade. A mãe de todos vive em luto pela morte da menina que aconteceu há sete anos.

Outro crime acontece em situações parecidas - machadadas no meio da noite - e os irmãos ficam alertas. A tumba que guardaria o corpo da irmã é violada e dentro dela os objetos mais bizarros possíveis. Coppola brinca com os brinquedos infantis e os transforma em itens assustadores.

Destaque para o médico da família, interpretado por Patrick Magee. O nome não é conhecido, mas a cara dele... O velhinho faria uma participação marcante em Laranja Mecânica como o senhor que tem a casa invadida pela turma de Alex, tem a esposa violentada e acaba numa cadeira de rodas. As expressões faciais dele em Demência 13 e em Laranja Mecânica são idênticas.

A conclusão da história passa pelo óbvio mas o roteiro tem seus momentos marcantes e surpreendentes, principalmente com relação à trilha sonora forte e presente - lembra muito os temas que Polanski usou em muitos dos seus clássicos como O Inquilino, por exemplo.

Demência 13 não tinha esse nome, era apenas Demência, mas durante as gravações Coppola descobriu que existia um filme da década de cinquenta com o mesmo nome. Ele decidiu colocar o 13 no título por ser um número maldito, digamos assim. E no final "Demência 13 soava bem", ele disse certa vez.

Francis Ford Coppola entrou com o pé na porta, sem medo de cara feia dos grandes estúdios. O hippie venceu como roteirista, produtor e diretor - um cineasta completo com um início impressionante.
Veja abaixo o trailer de Demência 13.



quinta-feira, 6 de julho de 2017

12 HORAS PARA SOBREVIVER: O ANO DA ELEIÇÃO (2016)




12 HORAS PARA SOBREVIVER: O ANO DA ELEIÇÃO (The Purge: Election Year / 2016) - Uma boa ideia exprimida sem piedade até render mais algumas gotinhas. A noite onde todo e qualquer crime é permitido chega ao terceiro filme... e com fôlego pra mais! Mas desta vez eles trocaram o título em português que era Uma Noite de Crime e virou esse horroroso 12 Horas para Sobreviver. Mas se o horror ficasse apenas no título seria bom...

Desta vez uma eleição está prestes a ocorrer nos EUA. De um lado um candidato a favor do purge e do outro uma senadora que cresce cada vez mais nas pesquisas defendendo o fim do purge. Está armado o cenário quando a senadora se vê nas ruas, no meio do purge, sendo escoltada por seu guarda costas e mais alguns voluntários que pretendem defendê-la.

As boas ideias presentes no filme anterior quando o filme sai de dentro de casa e a ação vai pras ruas são quase todas repetidas aqui. Vemos aqui na verdade mais do mesmo nesse sentido. Faltou criatividade e inovação para James DeMonaco, diretor e roteirista da saga. As ideias estariam acabando?

O último ato do filme, o mais arrastado, se passa dentro de uma igreja e faz uma aproximação interessante entre violência e religião, mostra como as pessoas ficam cegas em suas crenças. Outra ideia que poderia ser melhor aproveitada e aprofundada.

Dos três filmes da franquia, esse 12 Horas para Sobreviver é o mais fraco. Repete as ideias do segundo, não inova e avança pouco na trama. As boas ideias - como os turistas assassinos e o aspecto visual interessante com as máscaras marcantes dos símbolos americanos - são descartadas rapidamente e tem literalmente poucos segundos de cena. Pouco para tanta promoção, já que as caras brilhantes e ameaçadoras aparecem em todos os cartaz de divulgação do filme.




quarta-feira, 28 de junho de 2017

DISQUE M PARA MATAR (1954)



DISQUE M PARA MATAR (Dial M for Murder / 1954) - Fazer grandes filmes com grandes livros é fácil, difícil é fazer o mesmo com livros baratos, daqueles que poucos eram... por isso que Alfred Hitchcock é um gênio imortal. Cada filme dele é uma aula de cinema em algum aspecto. Pássaros é o meu predileto de Hitchcock. Mas Janela Indiscreta e Festim Diabólico também são marcantes e criam suspense usando um cenário único. Disque M Para Matar segue essa mesma linha de sucessos do diretor.

Tony, um ex-jogador de tênis, é casado com a bela Margot (Grace Kelly), mas ela está muito interessada em Mark, um escritor norte americano que chega naqueles dias em Londres. Os dois já mantinham um caso em segredo. E tudo isso é mostrado em cortes rápidos e sem nenhuma fala ainda nos segundos iniciais do filme.

O marido traído convoca Charles, um amigo para cometer o crime perfeito - matar a esposa sem deixar vestígio em troca de uma bela quantia em dinheiro. Ele aceita. O plano é pensado nos mínimos detalhes e explicado à exaustão por Tony. Parece à prova de falhas.

O crime acontece, mas tem uma falha. Margot, que estava sendo enforcada por Charles, usa uma tesoura que tem na mesa para enfiar nas costas do agressor, que morre na hora. Tony, que conversava com a esposa ao telefone naquele exato momento, ouve tudo e corre para casa. Chegando se depara com a cena que não esperava - a mulher viva e o amigo morto.

Daí para frente o show de Hitchcock. O suspense à toda prova. O chefe da polícia passa a investigar o casal para descobrir o que de fato aconteceu. A cada cena as máscaras vão caindo. Personagens mudam de intenção, passam de charmosos e seguros para nervosos e ansiosos. Margot nem desconfia do plano do marido, mas se mostra mais forte do que imagina no começo e Mark, até então "apenas" um amante, estabelece-se como grande força da parte final do filme.

O longa de Hitchcock é tão renomado que ganhou uma série televisa, quatro telefilmes, e um remake  para o cinema em 1998 com o nome de Um Crime Perfeito com Michael Douglas, Viggo Mortensen e Gwyneth Paltrow. Festejado, copiado e homenageado, como tantas e tantas obras que levam a assinatura de Alfred Hitchcock.
Veja abaixo o trailer de Disque M para Matar.