quinta-feira, 30 de maio de 2024

A BOLHA ASSASSINA (1958/1988)



A BOLHA ASSASSINA (1958 / 1988) – Dois filmes, uma mesma história. O primeiro filme da infame Bolha Assassina é pura inocência a cada cena. O remake é uma obra sangrenta e recheada de criaturas disformes e assustadoras. A história por si só se tornou rapidamente um clássico do cinema de ficção científica.
Naquela década de 50 o filme retrata homens respeitosos, mulheres delicadas – e algumas submissas – pais com controle sobre o destino dos filhos e policiais respeitados apenas pela postura e não pelas armas que carregam. A Bolha Assassina começa com a queda de algo do céu. Só quem vê é um casal de namorados que rapidamente se dirige para lá. Quem dirige é Steve, interpretado por Steve McQueen em uma de suas primeiras aparições nas telonas. Ele já tinha 27 anos, mas interpreta aqui um jovem estudante com quase 10 anos menos. 
Um velho fazendeiro chega primeira ao local e ao cutucar o objeto, ele rapidamente toma conta da sua mão. Gruda e não solta. O velho reclama de muitas dores e o jovem casal o leva pro médico da cidade. La, ele tenta de tudo, de tiros de espingarda até ácido, mas em pouco tempo a massa toma conta do seu braço todo e termina por consumir o velho. Os jovens correm pra delegacia e quando retornam, a bolha está maior e já consumiu por inteiro o médico e a enfermeira. E mais, ela fugiu pela janela e está se arrastando pela cidade. 
O filme não desvia desse plot principal, o roteiro é simplista nesse sentido. E que bom! A bolha acaba crescendo tanto que ataca uma sala de cinema inteira, fazendo com que as pessoas saiam correndo desesperadamente. A cena mais icônica do filme. 
E não vou contar como, mas eles encontram uma saída para aquela situação e a cidade toda, que foi acordada durante a madrugada, consegue derrotar a bolha. Mas ela não é morta... acaba jogada no polo norte e logo depois aparece o “the end”. E na sequência um grande ponto de interrogação toma conta da tela indicando uma sequência da história, que nunca aconteceu.
Veja abaixo o trailer de A Bolha Assassina de 1958.




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A BOLHA ASSASSINA (1988) - O remake veio 30 anos depois. Aqui a história ganha mais sangue e a bolha deixa de ser "apenas" uma bolha para se tornar uma massa, que mais parece um grande chiclete amassado, que lança tentáculos e garras ágeis, que grudam e alcançam longas distâncias. Isso faz com que a bolha empale pessoas, grude pessoas no teto e se torne uma perseguidora implacável, até mesmo pelos subterrâneos da cidade. 
O remake não tem estrelas, Chuck Russell, o diretor, é a maior delas, e acabou dirigindo depois O Máskara, e Queima de Arquivo
Em A Bolha Assassina, Russell e sua equipe de roteiristas e de efeitos especiais montaram um filme nojento, asqueroso, gore... e muito bom! O trecho final dá uma explicada no surgimento da bolha – seria uma experiência feita por uma equipe de cientistas que deu errado e fugiu do controle (bem pouco original, né?)
Particularmente, eu acho o remake da década de 80 muito melhor. Isso, claro, pela efeitos e pelo roteiro que não se limitou a homenagear/copiar o filme de trinta anos antes. Foi além e agradou. O primeiro é uma boa ideia, o segundo é o aprimoramento dela.
Veja abaixo o trailer de A Bolha Assassina de 1988.


segunda-feira, 27 de maio de 2024

TENET (2020)

 


TENET (2020) – Seria loucura dizer que Tenet não é um filme impressionante. Seria maluquice afirmar que Tenet não é espetacular. Eu estaria doido se escrevesse aqui que Tenet é um filme comum. Nada disso. Mas... Tenet tem alguns sérios problemas.

A história gira em torno de um agente secreto interpretado por John David Washington de Infiltrado na Klan, que tenta se firmar como um grande nome de filmes de ação, assim como o é seu pai, Denzel WashingtonTenet brinca com viagem no tempo mas de um jeito único... as pessoas do tempo presente vivem normalmente e os objetos e pessoas vindas do futuro se movimentam no tempo contrário, de trás pra frente. Isso faz com que o tempo seja como um palíndromo, que vai pra frente e pra trás na mesma velocidade e, quando se cruzam, vão ao mesmo tempo.

É difícil explicar no texto e acredite... também é difícil de entender vendo o filme de Nolan. Aqui você não pode piscar, senão perde uma explicação e isso estraga completamente a experiência. E Nolan parece aqui não fazer nenhuma questão de que o público entenda o filme. Ele lança a história do jeito que quer e quem conseguir que acompanhe. Um problema isso, hein Nolan?

O longa demora para engatar, o roteiro tem barrigas enormes e desnecessárias, personagens inúteis (como o de Michael Caine), uma simples revisão já ajudaria muito a cortar essas grandes rebarbas. E do meio pro final, ele encavala uma sequência desenfreada de cenas de ação, é quando o filme engata pra valer, mas depois de remar tanto no começo fica difícil se reconectar mais pra frente.

As cenas de ação são realmente impressionantes. Esse jogo criado pelo Nolan de em uma mesma cena ter dois tempos diferentes acontecendo, é impressionante. E bonito visualmente. O roteiro também prevê umas cenas que são retomadas em tempos diferentes do longa, o que dá para vê-la de formas diferentes. Nolan se mostra aqui cheio com a criatividade pra lá de afiada.

Mas esse Nolan não está aqui no seu melhor, como em Amnésia, Interestelar, A Origem e DunkirkTenet fica ali no meio da lista, mais pra baixo. O filme é, sem dúvida, para se ver muitas vezes. Não que seja maravilhoso, essencial, incrível... nada disso. É para poder entender a história rocambolesca e intrincada que Nolan cria.

Veja abaixo o trailer de Tenet.


quinta-feira, 23 de maio de 2024

ANIVERSÁRIO MACABRO (1972)





ANIVERSÁRIO MACABRO (The Last House on the Left / 1972)Wes Craven é nome certo em qualquer lista dos maiores diretores de filmes de terror do cinema. Ele criou, a partir dos anos setenta, personagens imortais em filmes clássicos como Quadrilha de Sádicos – que aliás tem um título em português simplesmente maravilhoso – A Hora do Pesadelo e, anos depois, Pânico
E tudo isso começou em 1972 com Aniversário Macabro. O letreiro no começo do longa indica se tratar de um filme inspirado em fatos reais. A história na verdade é baseada em A Fonte da Donzela, longa de Bergman lançado 12 anos antes.
Mari está se arrumando para sair de casa, vai encontrar uma amiga. Seus pais fazem aquelas recomendações básicas de segurança e dão pra ela uma correntinha... é seu presente de aniversário. Ela encontra a amiga Phyllis e juntas vão para uma floresta pertinho de casa, onde conversam, bebem e dão boas risadas. Os problemas começam quando elas vão pra cidade, ali perto. Acabam raptadas por um grupo e são levadas para uma casa.
Phyllis é violentada. Mari, em choque, fica na dela, assustada demais para tomar alguma atitude. No dia seguinte, elas são levadas pro meio da floresta onde a tortura continua. São despidas, esfaqueadas... Phyllis é amarrada em uma árvore e morta. Mari, por pouco, não consegue fugir, mas também é violentada e leva um tiro antes de cair no lago. 
Tudo é muito cru, chocante, com cenas difíceis de serem realizadas... e até assistidas. Sandra Peabody, que interpreta Mari, largou as gravações um dia em estado de choque. Um dos atores que interpreta um bandido disse, anos depois, que se arrepende de ter feito o longa, devido à violência extrema.
Mas não acaba por aí. O bando se lava no rio, troca de roupa e procura uma casa para passar a noite. Acabam se hospedando, por pura coincidência, na casa dos pais de Mari que estão desesperados atrás da filha. Depois de encontrarem o corpo dela no lago e perceberem que um dos bandidos usa a corrente de Mari, os pais partem pra luta em busca de vingança pelo assassinato da filha.
Aniversário Macabro é o primeiro da carreira de Craven, tem baixíssimo orçamento, o que o torna ainda melhor. Foi filmado em apenas 21 dias e é tão chocante que existem relatos de pessoas que vomitaram e até desmaiaram durante as sessões nos cinemas. Por muito tempo, Aniversário Macabro não pôde ser exibido em vários países. Na Austrália por exemplo, o filme só pode ser exibido em 2004. Uma curiosidade – Wes Craven morreu exatamente no dia do lançamento do filme, 43 anos depois em 2015.
Veja abaixo o trailer de Aniversário Macabro.







segunda-feira, 20 de maio de 2024

NÃO! NÃO OLHE! (2022)

 


NÃO! NÃO OLHE! (Nope / 2022) – Jordan Peele tem uma carreira curta, mas marcante. E com uma assinatura toda própria. O terror é um tema recorrente (Corra!, Nós) e não poderia ser diferente com este Não! Não Olhe! Peele também gosta de brincar com gêneros. Aqui, ele mistura ficção científica com faroeste, e claro, terror. Uma verdadeira salada à lá Peele.

Embora sempre competente e abusando de cenas e momentos memoráveis, Peele não mantém a escrita neste Não! Não Olhe!. A história não é tão profunda e cheia de camadas como nos seus filmes anteriores. Falta algo aqui.

O filme se passa numa fazenda afastada e conta a história de uma família dedicada a criar cavalos usados em comerciais e filmes. O patriarca da família morre após ser atingido por uma “chuva de metais”. Ninguém entende nada. O filho OJ (o ótimo Daniel Kaluuya) assume os negócios e conta com a falastrona irmã Emerald (Keke Palmer).

O problema está em um fenômeno extraterrestre que acontece durante a noite. Um OVNI gigantesco abre um bocão e engole tudo o que vê pela frente, em especial cavalos, por quem o OVNI parece ter um carinho maior. Mas ele abduz também pessoas, enquanto Emerald e OJ tentam à todo custo se defender e defender os cavalos da fazenda. 

OJ descobre, ao reviver uma lembrança de um dos seus cavalos, que o melhor à fazer é nunca olhar diretamente para o perigo - no caso o OVNI - e assim ele se desinteressa pela presa. Daí o nome do filme... Não! Não Olhe!

Não! Não Olhe! tem em Kaluuya a sua melhor coisa. Nem mesmo as cenas marcantes, um carimbo de Peele, estão aqui. Na verdade o roteiro, também escrito por Peele, faz um paralelo sobre a violência sofrida pelos cavalos na fazenda com uma tragédia que aconteceu num programa de auditório nos anos 90. É sobre um chimpanzé, Gordy, que perdeu o controle no meio de uma gravação e saiu matando os atores com quem contracenava. Uma historia inspirada levemente na história real de Charla Nash, que teve o rosto desfigurado por um macaco em 1997. Enfim, Peele fez esse paralelo para abordar como os animais selvagens são tratados em ambientes que não são os seus de origem.

À meu ver, o tiro saiu pela culatra... a historia do chimpanzé Gordy, que obviamente tem bem menos espaço do que a história dos cavalos, é muito mais interessante. Fiquei muito mais interessado em um filme sobre a tragédia de Gordy do que sobre o OVNI, os cavalos e tudo mais.

Veja abaixo o trailer de Não! Não Olhe!



sexta-feira, 17 de maio de 2024

O PAGAMENTO FINAL (1993)



O PAGAMENTO FINAL (Carlito´s Way / 1993) - Brian De Palma não iria dirigir este filme. Chegou a recusar algumas vezes. Muito por conta das similaridades com um clássico do próprio De Palma de dez anos antes - Scarface. Histórias parecidas, sim. Mas não iguais. Sua amizade com Al Pacino foi decisiva e dizem que o astro influenciou na decisão do diretor.
Carlito Brigante (Pacino) é um porto riquenho que acaba de sair da prisão depois de 5 anos. Era pra cumprir 30, mas saiu mais cedo depois do trabalho do advogado e amigo de infância Kleinfeld (Sean Penn com um permanente pra lá de encaracolado). A princípio Carlito é o durão e Kleinfeld o bobão. 
Do lado de fora, Carlito segue para sua comunidade, dizendo estar completamente recuperado e não se envolver em nada que o leve de volta pra cadeia, mas a vida do crime o puxa diretamente de volta pra ela. Carlito acaba envolvido numa matança num bar local, onde ele é o único vivo. 
Ele se torna sócio (para não dizer dono) de um disco clube local que sempre atrai figuras perigosas... traficantes (como um jovem John Leguizamo), prostitutas de luxo e gângsteres. E aos poucos, Carlito começa a juntar uma boa grana para abandonar toda aquela vida e se mudar dali para um lugar mais calmo com a namorada Gail (Penelope Ann Miller), com que se reencontrou depois de 5 anos. 
O problema está no vício de Kleinfeld no pó. Ele ainda mantém boa relação com Carlito e pede a ele a sua ajuda, já que terá que resgatar um preso da cadeia - um membro importante da máfia italiana local - de barco. Na operação tudo dá errado graças a Kleinfeld, que no último instante decidir matar o mafioso e jogá-lo no rio. Pronto. Carlito está afundado até o pescoço e agora tem que se livrar da perseguição constante da máfia italiana que busca vingança.
A cena final era para ser filmada no World Trade Center, mas eles tiveram alguns probleminhas e resolveram de última hora fazer na Estação Central de Nova York, a mesma que serviu de cenário para outro clássico de De Palma - Os Intocáveis e aquela inesquecível cena da escadaria. A perseguição ocorre pelos corredores e escadas da estação. Dura cerca de 7 minutos, a maioria deles em plano sequência.
O Pagamento Final foi muito bem de bilheteria e rendeu duas indicações ao Globo de Ouro - ator para Sean Penn e atriz para Miller - mas, claro, fica abaixo na galeria de De Palma. Digo "claro", porque é muito difícil ser melhor do que Carrie, a Estranha, Os Intocáveis ou Scarface. Um diretor que sabe como fazer um filme com essa temática, e claro... ajuda muito ter um Al Pacino pra lá de inspirado... uma equação perfeita. 
Veja abaixo o trailer de O Pagamento Final.






segunda-feira, 13 de maio de 2024

POBRES CRIATURAS (2023)

 


POBRES CRIATURAS (Poor Things / 2023) – Amo os filmes de Yorgos Lanthimos. Esse diretor grego conta histórias nada comuns usando personagens e situações que desafiam, chocam e ficam com a gente, mesmo depois do fim do filme. Em Dente Canino e O Sacrifício do Cervo Sagrado, Lanthimos se mostrou um cineasta com gosto peculiar pelo bizarro. Em O Lagosta ele optou por uma distopia maravilhosa e em A Favorita, ele aceitou o desafio de pegar um projeto em andamento e por isso mal conseguiu dar a sua cara. E isso é justamente o que não acontece em Pobres Criaturas.

Aqui ele cria o mundo que imaginou. Me arrisco dizer que Lanthimos nunca tenha se sentido tão à vontade durante uma produção. O filme tem uma assinatura, uma cara, uma digital muito própria, assim como Burton e Nolan imprimem em suas obras. O que me fez ser ainda mais fã do cineasta.

Emma Stone produz o longa e interpreta Bella, uma espécie de Frankenstein feminina. O seu “pai” é um cientista maluco vivido por WillemDafoe que regata seu corpo do rio Tâmisa em Londres, e faz uma operação maluca, colocando nela o cérebro do feto que ela carregava na barriga. Bella sobrevive, mas com sérios problemas cognitivos de fala e coordenação motora.

Ela começa a se desenvolver bem lentamente e aprende a usar o sexo como forma de se divertir e usar os parceiros. Vale ressaltar que Stone nunca esteve tão desinibida num filme antes. Mas nada aqui é sensual... é tudo cru, mecânico, puramente carnal, porque Bella nem sabe fazer de outra forma. Tudo é visto do ponto de vista dela. É ela quem começa e termina seus breves relacionamentos, o que deixa seus parceiros enfurecidos.

Como o mulherengo Duncan, vivido por Mark Ruffalo, que fica perdidamente apaixonado por ela, justamente pelo fato de ela ser completamente diferente de qualquer outra mulher. Ela faz o que quer, vai para onde quer e do jeito que quer, quando quer. Ela roda várias partes do mundo ao lado de Duncan.

Aliás, o mundo criado por Lanthimos é fenomenal. Tudo é colorido, com formas e tamanhos curiosos, bem diferentes dos comuns. O colorido do mediterrâneo português, a brancura da neve francesa em contraste com o colorido forte e gasto do cabaré, o cinza londrino... tudo é pensado à dedo e muito bem executado pela equipe comandada por LanthimosPobres Criaturas é sem dúvida, o filme mais bem acabado e caprichado do cineasta.

Ainda acho inferior a outros filmes de Lanthimos, mas Pobres Criaturas ocupa um lugar de destaque na filmografia dele. E merece. Com Pobres Criaturas, ele carimba o passaporte para ocupar um posto entre os grandes do cinema atual. Merecido. Só torço para ele jamais perder sua essência e o gosto pelo bizarro.

Veja abaixo o trailer de Pobres Criaturas.


segunda-feira, 29 de abril de 2024

A TORTURA DO MEDO (1960)



A TORTURA DO MEDO (Peeping Tom / 1960) – Um filme muito à frente do seu tempo. Em todos os sentidos. Mark Lewis é um fotógrafo que trabalha em um estúdio de cinema como assistente de câmera. Ele ainda levanta uma graninha fotografando mulheres seminuas para uma revista. Mas ele carrega um trauma do passado que o atormenta e o transforma em um assassino em série impiedoso. 
No meio de tantos rolos de filme que ele tem em casa, um deles mostra um filme feito pelo pai quando Mark ainda era uma criança. Ele queria estudar a reação dos seres humanos ao medo e usa o filho como cobaia. Ao crescer, Mark pegou o gosto de filmar o medo das pessoas e só consegue isso ao ameaçá-las e matá-las com um faca escondida no tripé da câmera. Sensacional, aliás.
Mesmo sem mostrar uma gota de sangue, A Tortura do Medo é considerado o primeiro slasher já feito e chocou tanto que acabou sendo retirado de cartaz com apenas 5 dias. O longa é um dos preferidos de Scorsese e é considerado a resposta britânica a Psicose, que fez muito barulho quando lançado. Hitchcock é homenageado em A Tortura do Medo na pele de um exigente diretor de cinema que pega no pé da sua atriz que não consegue atuar.
A Tortura do Medo é dirigido por Michael Powell que foi muito criticado à época pela violência - principalmente psicológica - e pelas cenas de nudez frontal. E a sua carreira dali pra frente foi comprometida, ele se tornou um diretor ignorado pelos produtores e não deslanchou. O próprio filme demorou para se tornar cult, só com os anos veio o reconhecimento da qualidade da obra.   
Veja abaixo o trailer de A Tortura do Medo.





quinta-feira, 25 de abril de 2024

MARTE UM (2022)

 


MARTE UM (2022) – O genuíno cinema brasileiro é de maravilhar qualquer amante de uma boa história. E não só isso. Quando não tenta imitar o cinema estrangeiro e usa suas próprias referências e estilos próprios, fica tudo melhor ainda. Essas histórias brasileiras com personagens tão facilmente reconhecidos em qualquer cidade do país, só deixam a trama ainda mais saborosa. E nesse ponto Gabriel Martins acertou na mosca.

Marte Um se passa em Minas Gerais, na periferia, acompanhando a rotina de 4 pessoas de uma mesma família e suas rotinas tão próprias e os conflitos entre elas. Tércia é a mãe, casada com Wellington. O casal tem dois filhos – Eunice é a mais velha e Deivinho, o caçula. O ator que faz o menino sonhador é estreante nas telonas. Ele joga bola num time de várzea e o pai sonha que do talento dele saia o dinheiro que vai sustentar a família no futuro. Mas Deivinho tem outros sonhos, quer virar astrofísico e fazer parte da tripulação que vai à Marte em 2030 numa missão de colonização do planeta.

Wellington é porteiro num prédio de classe média alta e é apaixonado por futebol. Tércia trabalha limpando casas e tem a vida mudada quando participa de uma pegadinha na TV, onde o ator estoura uma dinamite perto dela. A mulher fica traumatizada e acredita atrair azar à partir daquele dia. Eunice, a filha mais velha, se apaixona por outra menina e, no impulso, começa a procurar apartamento para morar. Tudo é rápido e pega os conservadores pais inesperadamente.

Aqui não tem espaço para melodrama barato, Marte Um foi feito de tal forma que mais parece um documentário sobre as dores de qualquer família brasileira. Cada personagem tem peso igual na trama, deixando o resultado final muito bem balanceado. Talento puro de Gabriel Martins, que equilibrou muito bem e claramente teve um cuidado especial na preparação dos atores. Todos estão muito bem, principalmente nos momentos onde a carga emocional aumenta.

Marte Um entrega situações críveis, o que deixa o filme ainda mais interessante. O drama brasileiro abre mão de recursos fáceis, como trilha sonora principalmente. Não precisa, nem faz falta. E cá entre nós, o sotaque mineiro é o mais bonito que tem. Na última cena o pai fala o seguinte para um dos filhos: “uai, a gente dá um jeito,  sô”. Puro carisma.

Veja abaixo o trailer de Marte Um.       




segunda-feira, 22 de abril de 2024

M3GAN (2022)


M3GAN (2022) – Uma história nada original e que surfa na onda dos potenciais perigos que a inteligência artificial pode trazer ao ser humano. O ótimo Ex_Machina fez um questionamento parecido e com muita competência e inventividade. M3gan é uma mistura dele com Chucky, mas passa longe de qualquer comparação. Não é criativo e inovador como o clássico brinquedo assassino de Tom Holland e nem inovador quanto Ex_Machina.

Cady (Violet McGraw) tem 9 anos e é a única sobrevivente de um acidente de carro, que tira a vida dos pais. A criança vai morar com a tia, solteira que passa muito do seu tempo na empresa onde trabalha. Gemma (Allison Williams) desenvolve brinquedos de alta tecnologia e alto custo.

A relação das duas é ruim, distante. Por isso Gemma termina de desenvolver um projeto seu chamado M3gan, uma boneca comandada por inteligência artificial, que se conecta “emocionalmente” com a primeira pessoa que vê, assim que “nasce”. Cady foi essa primeira pessoa. E é óbvio que essa relação de amizade entre a menina e a boneca de inteligência artificial não acaba bem. Com o tempo, a superproteção de M3gan passa a machucar fisicamente qualquer pessoa que ameaça Cady. Cenário montado e daí pra frente é só pra baixo...

Uma das coisas que mais me tirou da experiência de M3gan foi justamente o roteiro, extremamente fraco e previsível. Não apresenta nada de novo, nada. É muito fácil dizer o que vai acontecer na cena seguinte e apontar os personagens conforme aparecem: “esse vai morrer, esse é o vilão, esse escapa”. E assim por diante.

Outro problema está justamente na falta de preparo dos atores. Allison Williams está muito mal aqui, não tem expressão facial nenhuma, nenhuma emoção. Sem falar na menininha, Cady, que ódio dela... Se a indicação do cineasta Gerard Jonhstone era essa, parabéns para a pequena Violet, ela conseguiu. E outros personagens caricatos, como a dupla de chefe e assistente da fábrica de brinquedos, tudo muito fraco e estereotipado. É realmente muito ruim.

Mas há que se torcer o braço para alguns pontos de M3gan, e o principal é o design da boneca, muito bem feito. A sua quase total falta de expressão e os grandes olhos ajudam na formação de uma figura indiferente à tudo e à todos. Ela têm direito a uma dancinha que por conta das redes sociais virou cult, antes mesmo do filme ser lançado.

Veja abaixo o trailer de M3gan.




terça-feira, 25 de abril de 2023

X - A MARCA DA MORTE (2022) / PEARL (2022)



X - A MARCA DA MORTE (2022) – Dois filmes que poderiam ser um só. Mas Ti West, o diretor, roteirista e produtor, resolveu dividir. X - A Marca da Morte foi lançado antes, apesar de se passar 61 anos depois. 

A trama certamente, você já viu em outras inúmeras produções: grupo de jovens chega à um lugar afastado, no interiorzão dos EUA, e enquanto no começo tudo parece bem, aos poucos a coisa desanda e vira um banho de sangue. Ti West, como grande fã do gênero, soube muito bem homenagear filmes clássicos. Tem muito aqui de O Massacre da Serra Elétrica, Quadrilha de Sádicos, e até O Iluminado... entre tantos outros. Mas West conseguiu algo curioso: homenageou e copiou na cara larga... e mesmo assim, fez algo com gostinho de inédito. 

X - A Marca da Morte tem traços bem evidentes de um road movie. O filme começa com uma viagem de uma trupe que segue numa van até uma fazenda, pra lá de decadente, para rodar um filme. No caso, um pornô. O ano, 1979. A fazenda está tomada pela vegetação e os únicos moradores são dois velhinhos (Pearl e Howard) que não tem nada de amigáveis. As gravações do filme acontecem num celeiro afastado da casa principal, mas em determinado momento a idosa Pearl espia pela janela o que está sendo feito ali dentro. E a partir daí tudo muda. Isso porque a velha se reconhece em Maxine (Mia Goth, atriz estreante escolhida por West para ser o rosto da sua trilogia). Os velhos piram, não deixam os jovens irem embora da fazenda e começa uma matança bastante gráfica e sanguinária. Como disse, é algo já visto em muitos outros filmes, mas aqui tem gostinho de inédito. Além de Goth, o destaque do filme é de Jenna Ortega (da série Wandinha).

X - A Marca da Morte é um bom filme, mas imagino que seria facilmente esquecido num universo onde várias outras obras parecidas já foram lançadas. Por isso, Pearl - lançado pouquíssimo tempo depois - é tão importante. 

Veja abaixo o trailer de X - A Marca da Morte.




PEARL (2022) - O segundo filme da trilogia se passa em 1918 na mesma fazenda, onde acompanhamos a vida de Pearl, aqui vivendo o começo da vida adulta e nada indica que ela vai se tornar a velha maluca de X - A Marca da Morte. Ela já é casada com Howard, mas ele está longe servindo na primeira guerra. Pearl vive na fazenda sob o rígido guarda chuva da mãe alemã e ajudando nos cuidados com o pai, que está preso numa cadeira de rodas e movimenta apenas os olhos. 

Pearl gosta de dançar, se imagina como uma dançarina. Mas tem algo de diferente. Gosta de matar alguns pequenos animais de forma impiedosa. Joga os cadáveres no lago da propriedade, onde um grande crocodilo vive. Ela até brinca de apertar o pescoço do pai, quando a mãe não está olhando. A mãe diz que Pearl tem algo de estranho, que dá medo. Mas o quê, não diz. Fica no ar. 

Ela aposta todas as suas fichas num concurso de dança que acontece na igreja da cidade. Mas a ambição da garota somada às frustrações do dia a dia, resultam numa fórmula assustadora e impiedosa. Pearl explode e passa a somar vítimas, praticamente todos os que estão ao seu redor. 

Goth brilha mais uma vez, apresentando nuances que fazem a sua personagem ir do 0 ao 100 em instantes, explodindo de uma forma assustadora e usando qualquer coisa como arma. E afirmo sem medo: a sequência final está entre as mais impressionantes sequências de terror lançadas nos últimos anos – homenageia clássicos sem perder a própria identidade e é bem difícil de ser esquecida. 

Ti West lança em tão pouco tempo dois bons filmes de terror, que juntos ganham ainda mais peso e animam para a conclusão da trilogia, que se passa imediatamente após X - A Marca da Morte.

Veja abaixo o trailer de Pearl


quinta-feira, 6 de abril de 2023

O URSO DO PÓ BRANCO (2023)


O URSO DO PÓ BRANCO (Cocaine Bear / 2023) – Como é bom ver um filme de terror, no caso terrir, quando a gente não se importa minimamente com nenhum personagem. Tudo vale. E aí qualquer bobagem da história acaba perdoada. E melhor ainda quando absolutamente ninguém se leva a sério. Esse é o charme e o grande atrativo de Urso do Pó Branco, filme dirigido por Elizabeth Banks, atriz conhecida por Ligeiramente Grávidos.

A história de baseia em fatos reais, pelo menos é isso que a produção exibe logo no começo. O ano é 1985 e um traficante doidão de droga, começa a jogar várias malas cheias da droga pela porta do avião monomotor, em que é o único à bordo. As malas cheias de cocaína acabam espalhadas por um parque nacional nos Estados Unidos. Alguns sacos ficam intactos, outros estouram na hora que chegam ao solo. De qualquer forma, um urso acaba atraído pelo cheiro do pó e acaba inalando. Viciado, ele corre pela floresta atrás de mais e mais cocaína. E quanto mais ele cheia, mais violento ele fica. Teoricamente, aquela espécie de urso é pacífica e não ataca seres humanos. Mas quando está possuído pela cocaína, o bichão sai matando um por um, sem dó.

O roteiro é muito hábil na maneira como ele cria a história e constrói a trama, fazendo com que todos os núcleos de personagens se dirijam para um mesmo lugar seguindo por vidas diferentes, no caso uma cachoeira e um gazebo. Dessa forma, o suspense está sempre no ar e por não fazer a menor diferença quem vai ser a próxima vítima, basta a gente ficar de camarote no aguardo para a próxima matança do urso. 

É tudo gráfico, com muito sangue e absurdo, mas são situações divertidas que arrancam boas risadas, no melhor estilo terrir. Claro... no começo a cara do urso e a “expressão facial” (?!) dele incomoda um pouco. Assim como a sobrancelha arqueada e até mesmo o movimento corporal meio estranho. Mas depois, O Urso do Pó Branco vai bem e isso acaba fazendo parte da graça da experiência. 

Vale como homenagem também a Ray Liotta, que atuou ao em seu último filme, antes de morrer precocemente aos 67 anos. 

Veja abaixo o trailer de O Urso do Pó Branco




quarta-feira, 11 de julho de 2018

DOENTES DE AMOR (2017)

Encontro inesperado

DOENTES DE AMOR (The Big Sick / 2017) – O título em português é horrível. Até demorei pra assistir este filme pelo nome. Verdade. Passa uma imagem de ser uma comédia romântica rasa, bem sessão da tarde mamão com açúcar. Não poderia estar mais enganado. O roteiro do filme, baseado na vida do protagonista Kumail, concorreu ao Oscar, muito por conta de uma despretensiosa história que levanta uma série de questões bem atuais.

O diretor Michael Showalter (de pé) em ação

Kumail é paquistanês que há tempos mora nos Estados Unidos com os pais e o irmão, porém não dividem o mesmo teto. Ele divide um apartamento pequeno com um amigo e passa boa parte do seu tempo no bar onde se apresenta em shows de stand up. O resto do dia ele passa levantando dinheiro como motorista de uber. Em uma das apresentações ele conhece Emily e começam a sair. A química rola bem e começam a namorar. O problema é que Emily é loira e não tem nada de paquistanesa. Por isso ele não conta pra família tradicional sobre a namorada americana. E a mãe de Kumail continua apresentando ao filho mulheres paquistanesas. Pela cultura deles o casamento é arranjado entre as famílias. Kumail se enrosca por não contar para uma sobre a existência da outra.



Os pais dela

SPOILERS

Esse poderia ser o único plot de Doentes de Amor, mas como disse antes, está não é uma comédia romântica tradicional pura e simples. O namoro acaba e quase ao mesmo tempo Emily se descobre portadora de uma doença que ninguém descobre o que é. Kumail, que ainda gosta de Emily, avisa os pais dela sobre a doença e fica no hospital o tempo todo. A relação dos pais com Kumail não é boa. Eles parecem ter um certo preconceito com o rapaz, talvez por ser paquistanês e muçulmano (mesmo não praticante). Em determinado momento conversam sobre o onze de setembro e Kumail responde: “foi uma tragédia,  perdemos 19 dos nossos melhores homens”. E explica na sequência que foi uma piada para alívio dos pais.

FIM DOS SPOILERS

Ele está sempre lá
A relação dos pais de Emily com Kumail levantam questões secundárias como tolerância religiosa,  racial e acaba sendo a força de que Emily tanto precisa. As tiradas espertas do roteiro são o palco perfeito para Kumail e Terry (Ray Romano) dando leveza para a pesada trama. Por esse peso inesperado digo que Doentes de Amor lembra Digam o que Quiserem, clássico de Cameron Crowe com John Cusack. Um filme a princípio leve, uma comédia sem pretensões mas que deixa pontos importantes pra discussão. São filmes muito mais profundos do que parecem. E no final surpresa nos créditos. Fotos que comprovam que a história aconteceu de verdade. Uma grata surpresa.
Veja abaixo o trailer de Doentes de Amor.

domingo, 8 de julho de 2018

O ÚLTIMO REI DA ESCÓCIA (2006)




O ÚLTIMO REI DA ESCÓCIA (The Last King of Scotland / 2006) - Forest Whitaker ganhou o reconhecimento geral em O Último Rei da Escócia, levou o Oscar pela atuação do ditador Idi Amin. Whitaker atuou em diversos filmes e seriados desde 1982. Destaque para Platoon, O Mordomo da Casa Branca e pontas em Rogue One e Pantera Negra. Em nenhum deles ele esteve tão bem quanto em O Último Rei da Escócia.

A história começa na Escócia nos anos 70. Nicholas (James McAvoy) acaba de se formar em Medicina mas não queria trabalhar no País. Ele literalmente rodou o globo e acabou pousando o dedo em Uganda.

O país africano passava por um período político turbulento. O governo de Milton Obote acabara de sofrer um golpe e o general Idi Amin (Forest Whitaker) se tornou o novo presidente. No começo tudo bem, o povo aplaudia a passagem de Amin nas cidades e nos vilarejos. Nos comícios era ovacionado. 

De repente ele foi surpreendido por um chamado, o presidente precisava de atendimento médico. Quando chegou no local o cenário era o seguinte: o carro presidencial parado no canto da estrada, do outro lado um boi agonizando e os donos dele se lamentando e no centro o presidente Amin reclamando de dores na mão. Nicholas atendeu o ferimento do presidente e começou a se irritar com os gritos agonizantes da vaca. Por fim, sacou a arma do coldre do presidente e matou a vaca. O presidente gostou daquele ato repentino e inesperado, Nicholas caiu no gosto do mandatário do país.

Em pouco tempo se tornou amigo, confidente e até conselheiro do presidente. Algumas pessoas tentavam alertar Nicholas sobre as atrocidades que ele cometia contra a população, contra inimigos políticos e claro traidores dentro do próprio governo. Nicholas não acreditava porque não tinha visto nada. Para ele, Amin era até injustiçado.

Até que ele informou a Amin sobre um ministro que estava conversando de forma estranha com outro homem. Do nada, ele desapareceu. Aí Nicholas percebeu que o governo era uma ditadura. E pior, disse que queria ir embora pra Escócia, Amin não deixou e o jovem se viu preso a um homem violento em um país sem  lei.

O grande trunfo de O Último Rei da Escócia é mesmo Whitaker. Ele  consegue mudar de intenção em uma mesma cena, saindo de um sorriso simpático e bonachão para uma expressão fechada,  amarrada,  que te deixa às mãos do inesperado. Assustador, pra dizer o mínimo.

O filme ganha tons claustrofóbicos na parte final e cumpre muito bem o papel de servir como biografia do líder autoritário de uma das mais sangrentas ditaduras da história, que vitimou 300 mil pessoas em 7 anos. O Último Rei da Escócia serve hoje, 10 anos depois, como espelho de outros governantes que tem por aí. Um líder “mimado que mais parece uma criança”, conforme descrito por Nicholas. Uma semelhança que não é mera coincidência.
Veja abaixo o trailer  de O Último Rei da Escócia.


 

quarta-feira, 4 de julho de 2018

IMPÉRIO DOS SONHOS (2006)

Surrealismo puro

IMPÉRIO DOS SONHOS (Inland Empire / 2006) – O mundo consciente, real, o nosso dia a dia...  Nada disso interessa a David Lynch. E quando interessou – em filmes como História Real, Coração Selvagem, por exemplo - Lynch não soube tirar proveito ou não conseguiu. (Homem Elefante é uma exceção, ok?). O único lugar onde o diretor norte americano parece se achar é no mundo bizarro, irreal... estranho, pra dizer o mínimo.

Metalinguagem

Foi assim que Lynch fez seu nome no cinema – Eraserhead, Cidade dos Sonhos, Veludo Azul, Twin Peaks... – e na televisão, no caso deste último – em obras que estão longe, muito longe de serem tradicionais. Seja pelo roteiro, pela trucagem, pela trilha ou pelos personagens bizarros. Lynch sempre acha um jeito de assinar suas obras. Império dos Sonhos, é claro, não poderia ser diferente.

Nikki tenta entender

Aqui, Laura Dern interpreta Nikki, uma atriz de Hollywood que vive em um casarão bonito, cheia de luxo com direito a mordomo e tudo. Ela recebe a visita de uma senhora com um forte sotaque polonês que diz ser sua nova vizinha. A senhora fala sobre o novo filme que Nikki vai trabalhar, cita algo sobre assassinatos e assusta a atriz quando parece saber do seu futuro.


A nova vizinha polonesa

Por 1 hora o filme se desenvolve de forma até certo ponto linear, pelo menos para os padrões de Lynch. Nikki encontra o diretor do filme fictício, vivido por Jeremy Irons e seu assistente interpretado por Harry Dean Stanton. No estúdio ela encontra também o ator com quem contracenará. Eles descobrem que o filme que irão fazer na verdade é um remake de um filme polonês que não havia sido terminado porque os atores principais foram assassinados. 

Os atores

Sem ligar para o fato, a produção é tocada em frente. E daí em diante não sabemos mais o que é filme, o que é a vida pessoal dos atores ou dos personagens, o que é delírio e o que é pesadelo. E vai assim até o final. 

Um sonho que foge ao sentido

Contar exatamente o que acontece com os personagens não resolve nada, porque o que vale aqui é a jornada perturbadora que a trama toma. Difícil dizer o que é realidade e devaneio de Nikki, mas assim são os filmes de Lynch – histórias densas embebidas em grandes porções de sonho e inconsciente. A viagem aqui não é nada agradável.


Distúrbios

Uma viagem ao mundo das prostitutas sujas, uma família de coelhos em um sitcom passando pelo leste europeu sem explicações e caindo em salas escuras com abajur vermelho e tudo. Tudo muito Lynch.

Os coelhos

Veja abaixo o trailer de Império dos Sonhos, sem dúvida o filme mais perturbador da carreira de David Lynch.


domingo, 1 de julho de 2018

SILÊNCIO (2016)

Japão da perseguição religiosa

SILÊNCIO (Silence / 2016) – Japão, século 17. Martin Scorsese focou nesse país e nesse período pra contar uma história impressionante e pouco conhecida. E por mais problemas que eu veja em algumas características do renomado cineasta – como o uso constante e ininterrupto de trilha, a obsessão por Di Caprio, e outros tantos – tenho que dar o braço a torcer, Scorsese sabe se reinventar. E criou em Silêncio algo diferente, novo, e inovador na sua carreira.

Scorsese em ação

No Japão Feudal o cristianismo é proibido, digno de tortura e morte de quem o segue. Os católicos japoneses são perseguidos e obrigados a negar a sua fé ao pisar em uma imagem de Jesus Cristo. Já os padres que vem de outros países catequizar a população são perseguidos, torturados e mortos. 

Japoneses perdidos escondendo sua fé

Andrew Garfield e Adam Driver são dois padres portugueses que seguem clandestinamente para o Japão à procura de padre Ferreira (Liam Neeson) que sumiu e não mais deu notícias. Lá, a dupla encontra na floresta fechada vários católicos à procura de ajuda, refúgio, confissão e confirmação da sua fé. Mas o cenário no Japão é muito violento.

Olhando por ajuda

Tortura, perseguição e radicalismo religioso. Silêncio tem cenas impressionantes e assustadoramente realistas de tortura e violência. O roteiro bem escrito (baseado em um livro) dá bom espaço principalmente para Garfield mostrar seu talento. E o jovem ator, que só atrapalhou em Até o Último Homem, aqui tem o seu grande momento. Nas cenas mais fortes ele vai muito bem. O feioso Driver mesmo com pouco tempo de tela se mostra um ator de futuro promissor.

Talento

E tudo é muito bem captado pelo olhar sensível de Scorsese. A trilha dá lugar ao silêncio do título,  muito respiro e olhares rumo ao nada. Um filme de reflexão, como sugere a tradição oriental. É um dos grandes acertos de Silêncio.

Caça aos católicos

Não à toa, o filme concorreu ao Oscar de fotografia. É belíssimo. Sempre com as montanhas japonesas de serração forte como pano de fundo.

A bela fotografia de Silêncio

Vale as 3 horas de duração. É um grande acerto que já o coloca como um dos grandes filmes do Scorsese. Longe de  ser um Touro Indomável ou  um Táxi Driver, longe disso.  Mas na rica filmografia de Scorsese não faz feio não.

Escondidos mas rezando

Veja abaixo o trailer de Silêncio.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

ALUCINAÇÕES DO PASSADO (1990)



ALUCINAÇÕES DO PASSADO (Jacob´s Ladder / 1990) - Fechei um ciclo importante na minha vida ao assistir Alucinações do Passado. Explico. Tinha uns 9 pra 10 anos quando peguei por acaso esse filme na TV numa daquelas sessões de madrugada. Lembro claramente como aquela sequência no metrô, no início do longa, me abalou. Ao mesmo tempo me intrigou.
 
Reação igual comecei a ter no meio dos anos 2000 quando joguei pela primeira vez Silent Hill - só tive coragem de jogar o primeiro deste que é considerado um dos mais assustadores jogos já feitos. Tanto que ele não para de ganhar versões. Silent Hill foi fortemente influenciado por Alucinações do Passado, principalmente na trama psicologicamente pesada.

O filme começa com um take de soldados na guerra do Vietnã em 1971. Eles estão extenuados, esgotados, com a expressão vazia, olhando pro nada. Aos poucos, na iminência do que parece ser um ataque inimigo, alguns começam a ter convulsões, vomitam sangue e se debatem sem explicação. Jacob (Tim Robbins) é apunhalado na barriga e acorda dentro de um trem anos depois, já cabeludo e mais velho.

Na sequência Jacob puxa papo com uma senhora no trem vazio e ela apenas olha pra ele sem piscar e sem responder. Depois ele vê um rabo asqueroso no corpo de um mendigo que tenta dormir dentro do trem. Na estação não há saída, as portas estão trancadas com cadeado e as saídas gradeadas até o teto. Ele decide ir pelos trilhos. Por pouco não é atropelado, dentro do trem que passa ele apenas repara nas pessoas com expressão estranha olhando para ele e no final o maquinista, com os olhos cobertos pelo que parecem ser moedas, faz um aceno estranho. Bizarro.

Jacob, que por muito pouco não foi interpretado por Tom Hanks, tem essas visões o tempo todo, com pessoas de rostos deformados, figuras demoníacas e uma série de outros efeitos. Todos práticos, feitos ali na frente da câmera - afinal falamos aqui de 1990. Como o "head shake", que é gravado com um alteração de frames na hora da captação e dá um efeito assustador.

"head shake"

Aos poucos ele encontra outros veteranos do Vietnã com o mesmo problema e juntando as peças do quebra cabeça ele deduz que tudo não passa de efeito pós traumático da guerra. Mas não é só isso, não mesmo!


SPOILERS

Na verdade a última cena, que mostra Jacob caído após ser esfaqueado no Vietnã, entrega o jogo. Ele esteve morto durante todo o filme. O resto é a batalha de Deus e o Diabo pela alma de um homem que vive no purgatório. Ele é envolto o tempo todo por figuras demoníacas - como a namorada, a cigana que lê sua mão - e ao mesmo tempo por figuras angelicais - como seu médico (Danny Aiello), e seu filho Gabe (Macaulay Culkin).

Como fundo uma droga chamada BZ usada nos soldados durante o Vietnã para estimular o seus instintos mais selvagens, quase primários. O resultado? Um banho de sangue e matança dos soldados americanos atacando os próprios soldados americanos. Foi o que causou a morte de muitos, inclusive do próprio Jacob, como confirmado na última cena do filme.

FIM DOS SPOILERS    
 
Confesso que ao final do Alucinações do Passado fiquei bem confuso, principalmente depois da cena final. Mas foi aí que eu entendi na verdade para que aquela cena final serve. Ela dá um sentido surpreendente para toda história. E é nesse ponto que Alucinações do Passado se torna tão importante a ponto de marcar época e influenciar gerações de cineastas e outras obras.

A religião (como a Escada de Jacob que liga o céu à Terra) e as artes (como as pinturas de Francis Bacon onde o verdadeiro terror estava na figura humana desfigurada) são grandes influências para Alucinações do Passado.

Um filme fascinante e inquietante que teve um significado pra mim quando assisti ainda pequeno - mesmo que só uma parte dele - e que agora quando adulto vejo com outros olhos. E a partir dele levanto outros dilemas, questões e perguntas sobre a existência. Certamente um filme que deixa perguntas e não um filme que entrega respostas.


Veja abaixo o trailer de Alucinações do Passado.