domingo, 3 de abril de 2016

JUVENTUDE (2015)

Amigos há 60 anos

JUVENTUDE (Youth / 2015) - Paolo Sorrentino está fazendo certo barulho no cenário do cinema mundial. O italiano escreveu e dirigiu o elogiado A Grande Beleza, que levou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2013. Agora ele entrega outro filme que abusa da introspecção - Juventude, que foi indicado para dois Globos de Ouro e outros tantos prêmios internacionais.

A juventude e a velhice dividindo espaço

Tudo se passa dentro de um spa nas montanhas suíças que recebe todo tipo de gente, das mais abastadas financeiramente falando, é claro. Fred (Michael Caine) e Mich (Harvey Keitel) já estão na casa dos oitenta anos e são amigos há mais de sessenta. O primeiro é um maestro aposentado que se nega a tocar as suas composições por lhe trazer memórias dolorosas da esposa. O segundo é um cineasta que está trabalhando em um roteiro para um filme-testamento.

Dois amigos vendo a vida com outros olhos

Mas o peso do filme não está apenas sobre eles, os coadjuvantes tem grande força - todos tem algum problema com o passado. Ou querem esquecê-lo, ou relembrá-lo ou celebrá-lo ou quem sabe ainda reconstruí-lo. E isso não importa a idade. Paul Dano faz um jovem ator que teme o passado - não quer ficar marcado por uma interpretação em filme blockbuster.

Um ator à procura de inspiração 

Um casal de idade tem segredos no passado. Eles ficam o filme inteiro sem se falar - certo momento a mulher, do nada, lança um tapa no rosto do marido na frente de todo muno e logo depois os dois são flagrados transando no meio da floresta. Maradona está lá também e idolatra o próprio passado. Gordo, com falta de ar e relembrando o tempo todo dos anos de glória pela "selección", enquanto a namorada massageia o seu mágico pé esquerdo.

Maradona?

A Juventude do título fica por conta da beleza da Miss Universo que se hospeda no local e de uma enfermeira solitária que pouco fala, está sempre com olhar perdido e se comunica pelo toque suave nos pacientes nas sessões de massagem. No caso delas o passado serve de alicerce, o que interessa para elas é o futuro.

A Miss Universo encantando os amigos no spa

Todos esses coadjuvantes com passados diferentes se cruzam, tem seus destinos convergidos, influenciando seus presentes imperfeitos com a esperança de um futuro diferente. O spa também tem vida própria, são vários takes de pessoas caminhando pelos cantos, nas piscinas, nas salas de relaxamento, no jardim e é tudo mostrado com certo distanciamento, como se Sorrentino quisesse que percebêssemos que o spa e as pessoas que trabalham ali também tem vida. Por vezes os ângulos retos, geometricamente arquitetados lembram Kubrick.

Takes geometricamente pensados

Michael Caine está magnífico no papel do maestro que sente falta da esposa e tem uma relação atribulada com a filha, interpretada por Rachel Weisz. Tudo parece perfeito entre os dois até que em um acesso de raiva por ter sido abandonada pelo marido, a filha descarrega a frustração sobre o pai, que não se defende, sabe que foi ausente. O que poderia resultar no afastamento de pai e filha acaba tendo efeito contrário - eles se mantem juntos e mais próximos.

A mulher de coração partido 

Uma das cenas mais marcantes do filme é quando sozinho nas montanhas, Fred rege os passarinhos e as vacas, como se lembrasse de um passado distante de maestro, que ainda lhe traz, lá no fundo, grande orgulho.

Uma das melhores cenas do longa

Harvey Keitel está carrancudo aparentando até mais do que os seus 75 anos. Os filmes que seu personagem dirige não são mais tão respeitados, ele está decadente na carreira e ouve isso da sua principal atriz, vivida por Jane Fonda em pequena ponta. Ele acaba atormentado quando passa a ter ilusões das atrizes e personagens femininas com quem já trabalhou - elas estão no meio do campo e passam a recitar pra ele cenas dos filmes. Bela cena.

O fim de vida de um amante do cinema

Paolo Sorrentino tem sensibilidade para entregar Juventude como ele realmente quer - ou seja, uma análise do presente como resultado do ontem, no melhor estilo "a gente colhe o que planta". O passado está presente em cada um dos personagens de forma marcante, tanto para o bem como para o mal. Cada um - inclusive nós mesmos - sabe as dores e as delícias de ter um presente como resultado de um passado de escolhas boas ou ruins.
Veja abaixo o trailer de Juventude.



Nenhum comentário: